quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O Rosto das Coisas - O Armário


Criar é incessante para mim.  Quando não basta a palavra, vou às imagens visuais, até catando formas no mofo dos cimentos e nos descascados dos muros.  Até nos (i)móveis.  É a minha catarse. Criar me ajuda a ficar em pé neste mundo tantas vezes gozado, tantas vezes 'gazado' por longe e por perto. Ou o faço porque gosto, simplesmente, como faria uma cadeira se tivesse gosto pela marcenaria -que só posso admirar.
Por hoje, fica esse Rosto das Coisas - O Armário.
Pelo jeito, virá mais...

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

quebrando o silêncio

quis quebrar o silêncio
e jogou-o do ponto mais alto do penhasco.

por resultado
ficou surdo.

por não saber
continua jogando o silêncio
do ponto mais alto do penhasco.

desejo

... aprender a serenidade
do bem-querer dos gatos.

domingo, 15 de dezembro de 2013

passado

passado: frio assado que não serve.

tesoura cega que não corta
o tecido para a veste do presente.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

quando não há falta

Algumas coisas são capazes de suspender nossos (eternos) sentimentos de falta. É como se voltássemos à nossa casa interior, onde somos saciados de tudo, aliás, de nada, porque de nada se é necessitado. Ali não há sinais de cultura, horários, comparações, vontade de reconhecimento, emulações, ressentimentos, projetos nem dejetos, sombras, medos, ansiedade, glória nem frustração, ideologias, vingança nem perdão. Ali deve estar a nossa forma original, o nosso ser intacto. Aqui fora é, talvez,  o boneco que o representa e que é lançado, desde cedo, ao vozerio do mundo, ao bafo das guerras sutis -sem falar dos estampidos das guerras ostensivas. Somos aqui fora uma espécie de expatriados... de si mesmos. Mas há coisas feitas por esses mesmos expatriados que os devolvem à casa original e a nós outros também. Isto, por exemplo:
vozes 'tocando' The Spring-Vivaldi

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Da palavra

Toda palavra traz em si a não-palavra.
O maior silêncio está por vezes
no que se diz, contido.

O que se gera no vácuo
inexoravelmente cumpre
a lei do habitar-se dele.

Dizer é querer revelar o que é
e nenhum ser será
tão perfeitamente exprimível
que perfeitamente se diga.

E quanta vez o dizer-se se desdiz
no escultórico trabalho
de se plasmar a Ideia...

Dizer e não-dizer coexistem.

(do meu livro "Sertania", 1978)

domingo, 22 de setembro de 2013

...por que um copo d´água é uma coisa bonita?

tinha que fazer uma tarefa escolar e andava pela casa espiando o que não via, esperando a revelação.
o que seria, para deixar a menina tão mudamente aflita?
passada mais ou menos uma hora, o som dos seus pés descalços indo e vindo dava notícia de que ela ainda não achara a resposta.
-queres que te ajude, filha?
-não, não precisa, eu acho sozinha.
-o quê?
-ainda não sei.
-mas disseste que acharias sozinha...
-pois é, não sei ainda o que é mas vou achar. tenho de levar a resposta amanhã. é a primeira aula.
-e ainda não queres ajuda?
-ninguém pode me ajudar. é coisa minha, só eu posso achar.

a mãe voltou a ver o documentário sobre Jean-Michel Basquiat, que trabalhava em dez, vinte quadros ao mesmo tempo e "estava sempre em estado de criação" -foi só o que ela guardou. sua vontade era resolver  a busca da pequena, que é das mães agir assim: tentar interromper a dor dos filhos, embora não se tratasse propriamente de uma dor, naquele caso. era só uma tarefa escolar, mas como aquilo estava consumindo as energias de Amanda! e se depois ela ficasse taciturna sempre que se deparasse com um desafio? não, Amanda, me deixa te ajudar, diga o que é essa busca, que dever é esse que te faz tão agoniadazinha?

aconteceu de a menina ir repentinamente à cozinha e deixar o caderno no sofá, perto da mãe, e a mãe depressa leu o que estava escrito lá, a tarefa: indicar algo que considera bonito e dizer o porquê.
ah, então era só isso! e ela achando difícil, com tanta coisa bonita para ser apontada: as flores, por exemplo. quando a menina retornou, a mãe puxou-a para si, observou sua blusinha azul molhada em uns três pontos.
-as flores, filha. elas são uma coisa bonita.
-já achei minha coisa bonita, mãe. um copo d´água!
-um copo d´água?... e por quê?
-ah, isso não sei responder. como vou saber por que um copo d´água é uma coisa bonita? mas é.
e foi para o quarto, satisfeita.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

e...

estava arrumada e de semblante descansado. entrou no café assim, pisando mansinho como se não quisesse machucar o chão, olhou todo o ambiente, depois se dirigiu ao balcão, pediu um café e não foi esperar sentada. ficou me olhando, em pé, querendo conversa. -aqui, eu disse enquanto lhe entregava a xícara. -tudo tão sem graça, Dino, que não vou colocar açúcar. -o que acontece? -literalmente nada.  vai tudo bem, nada me inquieta, um estranho até me sorriu hoje quando quase dávamos um encontrão numa calçada esburacada; alguém encontrou meus documentos e deixou no porta-cartas. -o ladrão sabe onde você mora, então. -pode ser, mas junto havia um documento com o endereço. -então vai tudo bem e não sei por que você acha isso sem graça. sem graça é problema. -mas preciso concluir meu romance. -se vai tudo bem, você pode se dedicar a isso. -o problema é esse, quando vai tudo bem não sinto vontade de escrever, não há falta a ser compensada, entende? -entendo não, eu faço café, e faço seja qual for o estado de espírito, às vezes tenho uma amargura igual à desse que você nem bebeu ainda, mas faço assim mesmo. nessas horas não gostaria, mas é disso que vivo e sabe que mais?, fazer café acaba me curando. não só fazer, mas oferecer. oferecer é curativo. -mas você vende. -vendo mas ofereço. há uma diferença entre só vender e apresentar o produto e vender e oferecer. oferecer é mais do que entregar. e o café talvez seja o objeto que mais se oferece, mesmo vendido. tem uma amorosidade, uma alma nisso que o dinheiro não empobrece. com a sua literatura por certo não é assim, você talvez não consiga oferecer, mesmo vendendo milhares de exemplares. você sequer sabe quem compra, quem lê, você não olha nos olhos de quem leva seus livros.  -ah, o café está esfriando, vou tomar e correr pra casa. já sei como vou terminar o romance.
-também sei: a personagem sem destino entra num café e...

domingo, 16 de junho de 2013

(im)perfeição

"Nada escapa à perfeição das coisas, é essa a história de tudo". C. Lispector, em Perto do Coração Selvagem.

Só com muita transcendência, só em outra dimensão, Clarice. Porque, no chão comum destes dias, aqui,  quase tudo escapa à perfeição. Não é perfeito, por exemplo, ver uma grande máquina mastigando uma casinha, com seus dentes gigantescos e polidos. A casinha era de duas mulheres pobres, mãe e filha. Elas estavam dentro, pediram que não, que não, não!... Mas a máquina era surda, e quem a manobrava era pobre também. E não era surdo, mas não ouviu. Disseram que não ouvisse.

Surreal. Mas é real...
A supercopa... É tudo por ela. Futebol virou o ácido colídrico dos espíritos?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

cheiro de montanha

logo após a entrada do supermercado, sempre vi/ouvi aquele músico tocando melodias andinas na sua flauta de pã.
hoje foi diferente. deu vontade: fui perto, parei, fiquei observando, sentindo.
 ele parecia fora dali, tamanha era a sua presença.
por uns segundos deixei-me levar pelas asas do condor que não existia e senti cheiro de montanha
e de pedra molhada.
A hora? Sei não. Anoitecia, mas dentro de mim eram 4 da manhã, a hora mais bonita do dia.
pequenos milagres dos dias ordinários. não é preciso muito.
até agora estou assim...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

chore, Deus

inverno chegando e eu me amansando.
e vem uma saudade cósmica de tudo, de todos,
até de mim, já disse. De você, pássaro que não prendo

saudade de Deus também.
como vai, Deus?
tem visto o mundo, esse nosso aqui?

está mesmo chovendo
ou é Você chorando
porque não aguentou?

chore, Deus, chore sempre quando ficar triste (temo as inundações),
chore sobretudo nos sertões do Brasil, chore na África.
Se puder, desligue os tornados e os tsunamis
mas chore nos sertões do mundo
porque "o sertão está em todos os lugares"
como disse Rosa, que deve estar aí escrevendo sobre os sertões do céu. Tem?...
chore, Deus. Os homens hão de aprender a guardar suas lágrimas em cisternas
pra se lavar, beber e cozinhar.
E matar a sede dos bichos.
E não esqueça de chorar também sobre a aridez dos espíritos que bebem da seca,
molhando a mão, o bolso.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

um café

-um café.
-expresso?
-espresso, expresso.
-o troco.

a boca ainda quente, pensou

a vida não deve ser bebida
como café inexpresso
às 6 de uma quinta sem sinfonia,

mas às vezes é,
porque tudo às vezes é
como não gostamos,
mas só assim sabemos
o gosto de gostar.

 -um café.
-expresso?
-expressivo.





saudade

hoje estou com saudade de tudo, de todos.

até de mim...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

coisa, isso

 começou a escrever com tinta guache
na parede muito branca e lisa: essas coisas, sim, essas coisas, certas coisas, incertas coisas...
a palavra coisa quer dizer mesmo o quê? aquilo que não tem nome, que só se sente, que vai além do sentido?
coisa, isso... 
o que sei é que caímos em grades, nos deixamos fechar nelas,
temos a chave do cadeado mas apenas olhamos para ela com um olhar que a oxida ou  a trancamos na mão, com força, até que ela penetre a nossa carne e passe a fazer parte de nós, então podemos dizer: perdi a chave.
assim prisão e liberdade passam a estar organicamente em nós.
e por que prevalece a prisão?
os bichos. eles só entram em jaulas porque os humanos lá os põem...

ia continuar escrevendo, mas choveu de repente e o texto borrou-se pela parede abaixo.
como se chorasse.





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