Especialmente para Sheyla AzevedoTodos nós temos o nosso
coisário*, aquele bocado de objetos que chamamos de 'minhas coisas', troços que guardamos mesmo quando não tem mais serventia. Faz mal, dizem vozes orientais. Energia retida. Jogar fora, dar a quem precise. Criar o vazio, para que outras coisas venham.
Mas há coisas que ganham personalidade, uma espécie de alma.
Minhas coisas-com-alma são meus chapéus. Ficam gastos, manchados, molinhos, e lá..., guardados, um dentro do outro. Assim conservo essas criaturas por longo tempo, até que fiquem bem feinhos e minha ajudante diga, no meio de uma risada,
mas pra quê a senhora quer essas marmotas??...
Marmotas? Meus chapéus??
Sim: marmotas!, ela repete.
Horríveis!
E lá se vão uns três, no lixo...
Dois, não, nunca irão embora: um que ganhei de Vicente Vitoriano, quase branco, aba ondeada. O outro, presenteado por Sônia Othon, italiano, bem vermelho.
Verdade é que, com todo o desapego que tento vivenciar, ao jeito oriental, ainda fico meio nostálgica quando chapéus
meus vão-se embora
sem olhar para trás. Gosto de senti-los integrados a mim. Um chapéu é Deus segurando meu juízo
. O céu tornado uma concha
agarrada à minha cabeça
.
Quando eles partem, parece que
alguéns sairam de casa pra não voltar mais.
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'Coisário' está em A Poética do Devaneio. O velho e bom Bachelard assim diz: "(...) Um bom escritor da Champagne, Grosley, diz que sua avó, quando não sabia responder às suas perguntas de criança, dizia: Deixe estar, quando você crescer, verá que existem muitas coisas num coisário". BACHELAR, Gaston. A poética do Devaneio. S. Paulo: Martins Fontes, 1988, pp. 159-160