quinta-feira, 19 de novembro de 2009

...escutavam o entardecer...



por fim, ele disse:
...portanto...

e ela:
...por tão pouco...

e saíram, cada um para um lado.

lá em cima, os pombos escutavam o entardecer...

domingo, 15 de novembro de 2009

estranho invasor do meu quintal

quando vi, estava lá, vindo do quintal pelo beco, rumo à porta da cozinha. Veio se estirando, se arrastando pelo chão que nem cobra, crescendo como monstrinho de filme de terror. Eu quis correr. Ele dono do beco. Roupa verde com manchas embranquiçadas e flores amarelas. Tomou de algum surfista?...
Continuou avançando na minha direção, numa terrível ameaça silenciosa, esse invasor poderoso que me hipnotizava. Dentro de mim escutei a ordem: não falar nada a ninguém, não gritar, não chamar os vizinhos, muito menos a polícia. Que ele não me faria mal.

Fechei a casa e só voltei no dia seguinte. Chamei alguém para verificar comigo sinais do estranho.
Ele continuava lá, agora a um metro da porta da cozinha, prestes a entrar, andando tartarugalmente, do jeito mais amedrontador possível. Lembrei-me das histórias de monstros que a minha avó contava... Esse ali, tão real. E eu, sinceramente, já gostando da presença dele, assim, entre temor e começo de amor...

Falei baixinho à pessoa:
-Sequer posso ir ao quintal... Ele ocupou todo o espaço... E como está sobrevivvendo?... Aí é só cimento... Deve ter comido terra... e está com sede...
Por fim, falei alto:
-Que vamos fazer com esse pé de jerimum?!...


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

a voz do aluno



Os textos abaixo foram produzidos em sala de aula, na disciplina Redação Criativa (Departamento de Artes-UFRN). Sugeri à turma que escrevesse sobre algo vivido na infância.
Alguns textos:

LADRÃO DA LÍNGUA PINTADA DE ROXO
Vítor Bezerra (Comunicação Social) -17-09-2009

O pé de azeitonas roxas que existia no quintal é sempre a primeira imagem que me vem à mente quando penso em pôr num papel memórias dos tempos de criança. Imenso, frondoso, vivo, e, agora, em meus pensamentos, um imponente paradoxo: uma imagem que me toma na hora de escrever palavras. Não penso em letras.
Pura e simples, aquela árvore representa, para mim, a grandeza e a esperteza da natureza. Como pode atiçar o paladar do menino com o doce das azeitonas e o impedir de comê-las escondido, pintando sua língua de vileta-escuro? Ela não sabia, mas era proibição terrível a da minha mãe, que não me deixava, quase que por decreto, catar e comer as centenas de pontos roxos espalhados espalhados pelo chão nas tardes quentes. "Estão pegando fogo, vai gripar!", ela dizia.
Volto no tempo, revisito momentos, traduzo sentimentos em imagens e imagens em palavras: o quintal -um latifúndio-, o galinheiro abandonado, os coelhos -que Deus os tenha no céu dos animais-, e eu, ladrão das frutas, futuro hipocondríaco. Mas pouco me importava o que viria se contente eu griparia após uma bacia de azeitonas suculentas.

INFÂNCIA, OLFATIVA INFÂNCIA
Leandro Garcia (curso de Artes Visuais-UFRN)

Criança, infância, vida.
Era mais um mês de férias na casa da avó.
Dentro de casa aquele cheiro peculiar de naftalina. Por que será que velhos gostam tanto disso?
Me perguntava toda vez em que a visitava.
Do lado de fora os animaizinhos fediam, entre berros e mugidos.
Aquele cheiro de caju cobria todo o pomar.
Mais um entediante mês de férias na casa da vó...

A VIDA
Ana Débora (curso de Artes Visuais-UFRN)

Como era a vida na infância?
Era linda, alegre e tudo resplandecia.
A casa era colorida, de plástico, com móveis de plástico, que fazia "trec" quando apertava o botão; panelas de plástico e cama de plástico. Mas não era tudo de plástico, não! Tinha as cadeiras e mesas de madeira, mas não essa madeira pesada de hoje: uma bem levezinha que quase deixava a boneca cair.
E o tamanho, então? Enquanto hoje é tudo grande, tv de 47 polegadas e cama king size, antigamente era tudo bem pequetitinho.
Ai! E o chão? Como era bonito. O piso... era de AREIA e a casa nem ficava suja, hein!
Na infância era assim: a vida era alegre, não tinha chateação e durava cerca de meia hora. Agora, a vida dura uma vida toda e quase ninguém se lembra dela...

O MISTÉRIO DOS CADARÇOS
Ana Luíza Palhano (curso de Artes Visuais-UFRN)

Tomar banho, ligar e desligar o chuveiro, pentear os cabelos, usar garfos, escovar os dentes... Tudo isso eu já sabia fazer.
Depois do meu desenho preferido, de segunda a sexta, eu repetia as mesmas coisas, as mesmas sequências, mas uma coisa, apenas uma, me impedia de ser dona do meu processo.
Todos os dias me preparava, me arrumava, me alimentava, me perfumava para a chegada da hora, ora preguiçosa, ora gostosa, ora chorosa de ir à escola. Mas uma coisa me impedia de ser dona do meu processo: o danado do cadarço.
Pai, meu tênis... Assim eu apelava e me denunciava. Em segundos, painho, como gostava de chamá-lo, desvendava o mistério dos cadarços.
Mas foi assim, num dia qualquer, numa calçada, em direção à parada de ônibus, que decidi travar a batalha para a minha independência. Atenta aos movimentos dos dedos do meu pai, repeti e finalmente descobri o mistério dos cadarços.
Agora posso dizer que, naquele instante, me senti dona do meu processo.

domingo, 8 de novembro de 2009

a teoria das serras



as serras têm uma teoria.
uma teoria azul-distante
com assinatura de vento.

essa aí da imagem foi a minha primeira professora.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

ou a vida é, às vezes, uma ficção


Quando movi a cabeça buscando um garçom, flagrei, sem querer, a cena estranha e nada ficcional (ou a vida é, às vezes, uma ficção): uma moça almoçava sozinha e conversava com... ninguém. Com ninguém propriamente, não: com o copo de suco. Vez por outra, sorria, gesticulava, abria a folha das mãos para ele. Uma conversa amorosa, simpática. Que será que dizia?... Não parecia ser uma atriz (e dificilmente uma atriz iria ensaiar suas falas ali). Talvez sofresse de transtorno mental... Talvez estivesse exercendo o direito de amainar uma crise de solidão. Talvez achasse mais interessante conversar com um copo de suco do que com uma pessoa.

Ah, essa mania de querer compreender e explicar tudo...
A moça parecia em estado de graça, isso devia bastar. Quantos, naquele momento, estavam assim, tão bem, conversando com pessoas?...
Enfim, ela se levantou, esticou a blusa, arrumou o cabelo e foi pagar a conta. Notei que tinha um lado do corpo meio torto.

Mais torta, fiquei pensando, é essa vontade de encontrar resposta até para algo inofensivamente diferente.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

nem ela sabe


Para Sheyla Azevedo
.
.
por que será que uma mulher chora sem motivo aparente?
talvez porque um passarinho comunicou-se com ela, na hora de morrer
talvez para dissolver um pouco a solidez das coisas
talvez por saudade da não-existência que a precedeu
talvez porque o barco de papel não esperou por ela, naquele dia em que choveu na infância
talvez porque
talvez


nem ela sabe
se soubesse talvez nem chorasse

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

um som do universo na infância

.
.

não foi no alto de uma montanha, não foi numa concha do mar, não foi numa cachoeira nem mesmo num trovão que ouvi, pela primeira vez, o som do universo.

foi do casco de um cavalo deixando a areia e pisando num lajedo.
eu vinha na garupa, tinha uns sete anos. Meu avô, na sela, vez por outra dizia "durma não, pequena".
...

hoje, quando tenho insônia, às vezes escuto na memória o casco do cavalo deixando a areia e pisando no lajedo...

domingo, 11 de outubro de 2009

Dia da Criança


meninos de rua
sabem coisas
que os de casa
não, talvez

não ganham brinquedos
apenas tem asa

e menos medos

domingo, 4 de outubro de 2009

A montanha que canta(va)


 




A montanha que canta(va)
foi cantar num tom acima

sob um teto inda mais alto


Mercedes!


agora estamos mais
Sos
aaa...

Ay este azul...
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

o maior brilho
é quando o olho
vê o filho

um filho

é um fio
confiado
à vida
tecelã








terça-feira, 29 de setembro de 2009

Filosofia dos garranchos



rumo à vida
quando eu ia
estava lá
Sertania

filosofia dos garranchos
escrita no corpo que passava

o olhar salgado da cacimba
o livro aberto da estrada

água do primeiro banho
da criança alfazemada

mas um dia veio o circo
e o Trapézio estava lá

compreendi que a vida é
salto mortal todo dia

então cavei a janela
e depois saltei por ela...

_________
Letra de música composta em 2005, reunindo os títulos de dois livros- Sertania e Trapézio e outros movimentos, como forma de responder à inclusão desses livros num projeto de recital poético que o poeta Eduardo Gosson então desenvolvia. Dedico a ele esta postagem.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

lu´água


descobriram água na lua
há pouco

descobri lua na água
há muito

______
Imagem: http://1.bp.blogspot.com/

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Real é o que vira pássaro...


Um blogue é "uma casa muito engraçada", que não tem teto, não tem nada, a não ser imagens e palavras. E música, eventualmente. Mas moramos intensamente nessa casa, durante os minutos ou horas em que escrevemos ou deambulamos pelos seus labirintos.
Com o tempo, vem a sensação de cafezinho partilhado com alguém que pode estar a milhares de quilômetros. Há respiração e calor. Voyerismo. Escolha de alimentos, cantinhos mais visitados, olhadas, passagens-quase-correndo, retornos... E tudo é importante. Às vezes até perdemos as sandálias, o sono, o siso (velho nome de bom-senso).

Mas ganhamos aurorinhas quando lá fora ou cá dentro faz escuro. Um poema (bonito, impertinente, irônico...), um devaneio, uma imagem, um dito engraçado, uma informação sobre culturas diferentes... Assim fica difícil separar virtual e real. Eles se con-fundem, no verdadeiro sentido da expressão: um se funde com o outro.

Ao perceber, por exemplo, o desaparecimento dos 'seguidores' deste blog, hoje de manhã, desabafei na hora, sem conjeturar que podia se tratar de algo mais global. E era -constatei logo após. Mas a sensação foi mesmo de uma debandada sem despedida. Porque aprendi a querer bem a todos que estavam lá... Como microretratos de pessoas amigas numa parede intangível. Algumas dessas talvez eu nunca venha a encontrar fisicamente. Não importa.

Então, real é o que vira pássaro no céu do nosso imaginário.

Virtual é o que espoca por aí afora e a gente nem percebe.

Meus 'seguidores' sumiram...

Certo: não defendo nenhuma seita ou coisa equivalente. Mas eu gostava de ver os pequenos ícones indicando os leitores que me seguiam, ou melhor: que me 'adotaram'. De repente..., nada! Ninguém! Abro o gadget e nada há lá, a não ser o código de cores. Bateu solidão... Pra onde foram?... Desistência em massa?... Nada fiz para essa deserção...
Será que estão sequestrando até inocentes seguidores de um mero blog de devaneios??...
Não sossego enquanto não achar meus amigos e amigas.
Espero que o blogger devolva esse agrado. Já já.
Estou sentindo falta... São presenças estimadas na minha cibersala.
Quero todo mundo de volta!

sábado, 19 de setembro de 2009


um lado alado

o outro, abismo

mas é na asa

o sismo

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Mi(ni)stério das palavras



Às vezes é assim: elas não querem comparecer... Escolhem descansar no sem-lugar do silêncio.
Vou devagar... Espio. Vontade de soprar uma gaita de taquara, que comprei de um índio na última feira internacional de artesanato, aqui. Quem sabe, as enfeitiço. Não, não vai adiantar, desisto. Elas vão se enfurecer, não sei tocar esse instrumento. Mal sei tocar o teclado do PC. É nele que as convoco e as retiro da Possibilidade para o Ato, e com elas dou alguma forma ao caos cá de dentro. Mas hoje elas estão roucas, birrentas e malcriadas. E esfriadas. Criaturinhas malucas! Volúveis! Bipolares! Abandonantes de maiores que as tem como companhia mais constante! Então me deixam assim, sem cais nem Vênus?...
...

Talvez eu tenha de fazer outra coisa: olhar os descascados da parede, golejar o vento mais bem in-ventado por estas bandas: o de agosto a setembro. Mas vou lá de novo, feito criança que quer acordar a mãe, aí passa a mão no seu cabelo, assim assim...

Uma me olha e me joga uma dura interjeição, com rapidez maior que a de Muntazer al-Zaidi jogando seus sapatos em Bush.

-Nem doeu!, me vingo.

-Hoje não fazemos blog-blog no seu teclado. Estamos bem decepcionadas e mal recepcionadas. Pensa que somos escravas? Vamos acionar o Ministério das Palavras!

-E eu vou acionar o Mistério das Palavras.
-...

Depois se enche de dengo.

-Pelo menos cante pra nós...

-Canto... "Outras palavras... Outras palavras"...

-Cante mais...

-Oito palavras... Outonais palavras... Outrora palavras...

...Oitavas palavras..
. Octogonais palavras...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

15 de setembro de 1928: nascimento de Zila Mamede



Zila Mamede completaria hoje 81 anos, não fosse o adormecer para sempre no abraço das águas da praia do Forte.

"(...)
Passai, marujos, passai,
que não voltarei do mar:
oceânica persisto;
sou produto desse mar
que compus nas minhas mãos
da verdura do meu sangue,
das águas dos olhos meus.

Como pois ser continente
Se fui nascida no mar?
(...)"



__________
In Rosa de Pedra, 1953. Em 1959, publicou O Arado, que agora completa 50 anos.

O mar e Nova Palmeira-PB, onde nasceu, são duas geografias de intensa força para a poeta...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

De 'coisário' e chapéu


Especialmente para Sheyla Azevedo

Todos nós temos o nosso coisário*, aquele bocado de objetos que chamamos de 'minhas coisas', troços que guardamos mesmo quando não tem mais serventia. Faz mal, dizem vozes orientais. Energia retida. Jogar fora, dar a quem precise. Criar o vazio, para que outras coisas venham.

Mas há coisas que ganham personalidade, uma espécie de alma.
Minhas coisas-com-alma são meus chapéus. Ficam gastos, manchados, molinhos, e lá..., guardados, um dentro do outro. Assim conservo essas criaturas por longo tempo, até que fiquem bem feinhos e minha ajudante diga, no meio de uma risada, mas pra quê a senhora quer essas marmotas??...

Marmotas? Meus chapéus?? Sim: marmotas!, ela repete. Horríveis!
E lá se vão uns três, no lixo...

Dois, não, nunca irão embora: um que ganhei de Vicente Vitoriano, quase branco, aba ondeada. O outro, presenteado por Sônia Othon, italiano, bem vermelho.

Verdade é que, com todo o desapego que tento vivenciar, ao jeito oriental, ainda fico meio nostálgica quando chapéus meus vão-se embora sem olhar para trás.

Gosto de senti-los integrados a mim. Um chapéu é Deus segurando meu juízo. O céu tornado uma concha agarrada à minha cabeça.

Quando eles partem, parece que alguéns sairam de casa pra não voltar mais...

..........
'Coisário' está em A Poética do Devaneio. O velho e bom Bachelard assim diz: "(...) Um bom escritor da Champagne, Grosley, diz que sua avó, quando não sabia responder às suas perguntas de criança, dizia: Deixe estar, quando você crescer, verá que existem muitas coisas num coisário". BACHELAR, Gaston. A poética do Devaneio. S. Paulo: Martins Fontes, 1988, pp. 159-160

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Criança/criar



Sou duas
sempre que me olho
no espelho

quando saio

a outra vai
pra onde?


*

A luz é uma água
amarela e seca

clareando

a cara das coisas...


(in Psilinha Cosmo de Caramelo, 1997 -infantil (?), Menção Especial em concurso da União Brasileira de Escritores-1997)

..............

Escrever, em ficção ou poesia, e seja para quem for (criança ou adultos, nós mesmos... ou para ninguém...), parece exigir que passemos do "eu devo" ao "eu quero", até chegarmos à "criança", como sugere Nietzsche, ao falar do Espírito das Três Transformações (Assim Falava Zaratustra). O camelo é o que se limita aos deveres, à obediência, e disso se orgulha. O leão inventa seu caminho, anda só, ruge os seus desejos, combate. A criança é o estado de inocência, "a roda que gira em torno de si mesma". É, por assim dizer, a falta de lembranças, um dar-se a si mesmo, uma entrada na zona do Criativo, sem medos, sem autovigilância castradora. Sem obediência nem combate.

Essa psicanálise alegórica não é uma receita de como se escrever -principalmente para crianças. Pois receita não há.
Mas talvez ajude a entender os movimentos necessários à 'autopermissão' para criar, em qualquer linguagem, em qualquer área.

Criança é zen. Criar também.
Criança lembra criar, como bonança vem de bom.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

ProVocante


Para Almariada e Moacy Cirne

ditos comuns:
gatos pardos
em noite cinza

que se moa a cy
até se ter
o mínimo:

gota

não sangria
desa(s)t(r)ada

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