segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O mundo que nos adoece também é terapêutico


Acostumados ao quadradinho das nossas casas, ou aos mesmos amigos, nem sempre levamos em conta que o mundo que está aí, cheio de perigos, também pode ser um parque de diversão, também pode ser terapêutico. Quer ver?... Ontem saí para encontrar minha irmã, que já caminhava na praia enquanto eu ainda me dirigia para lá. Quando cheguei ela já tinha ido embora. Mas eu trazia uma máquina fotográfica na bolsa, o sol estava forte, havia muita gente na praia. Então saí pelo calçadão de Ponta Negra, devagar, olhando fachadas, olhando as barracas, as pessoas vendendo bijuterias, quadros em estilo pintura dos antigos pára-choques de caminhão, CDs, cangas (tinha até canga com o rosto de Shiva... Sim, que aquela praia tem, hoje, sandálias de rabicho feitas no interior do estado até elementos da cultura hindu). Tem ainda os barcos de pesca. Fotografei homens empurrando um para perto do calçadão, utilizando, como rolos, pedaços de tronco de coqueiro, à maneira dos homens que viveram há milênios. Uma mulher vendia máscaras e facas em bainhas ornamentadas com formas modeladas naquele tipo de cola cinza que, uma vez seca, parece estanho. Dois meninos pediram para ser fotografados, e tive de deletar um registro pra poder atender ao pedido, pois a cãmera estava cheia. Daí fui subindo em busca da rua onde deixara o carro. Um pastorador apareceu, como que querendo me acompanhar e ganhar o dele. Outro apareceu e fez um gesto para o colega, significando que aquela pastorada não lhe pertencia. O primeiro não fez por menos. Paraplégico (ainda se pode usar essa palavra?), fazendo, a cada passo, largos movimentos de ombros, para lá e para cá, continuou subindo a ladeira, golejando uma garrafinha de cachaça e cantando umas coisas de corar devassos... A cada gole, mais palavras 'indecorosas'... À sua maneira, estava feliz, pouco se importando com as possíveis censuras dos banhistas que iam e vinham. Sorri com aquilo tudo. Impureza?... Ora, ela está na gente. Se estamos limpos, tudo é puro. Esse pastorador bêbado e praticante da livre-palavra me fez foi um favor: me lembrou que a vida não é pose, não é a 'boa' palavra decorada, sem autenticidade. É muito mais esse cantar desbocado do que a posição do censor. Os censores, em geral, são violentos, mesmo quando 'educados'. O pastorador bêbado era apenas engraçado. E eu voltei pra a casa sorrindo...

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