quinta-feira, 3 de abril de 2008

Pequena crônica de Montreal

Grandes extensões de um espaço branco pontilhado de um escuro amarronzado. Neve, muita neve. Neve são nuvens que resolveram experimentar o chão dos ditos seres humanos?... Ficam lá por dias, meses, de férias do ar. Endurecem, escurecem, recobrem objetos. De repente é o focinho de um carro que surge, como se fosse um animal de aço espiando quem passa. Às vezes uma bibicleta depenada, presa a uma grade qualquer. Árvores desvestidas e solitárias. Há uma que vejo da janela. Alta, forte, sem folhas. Porque sem folhas, sem pássaros que a habitem. Mas está lá, alta, forte, solitária, os pés metidos na neve, me ensinando alguma coisa. Talvez a capacidade de comunhão com as circunstâncias, sem murmúrios, só me deixando viver...
Se vamos para os lados do rio Saint Laurent, aparecem gaivotas. Elas soltam notas agudas, soltas, como se ensaiassem para cantar mais tarde (ou já estão cantando e eu, ignorante do canto gaivótico, acho que é apenas um ensaio?). São exclamações branco-sonoras no papel quase branco do céu. São recortes voantes desse céu...
Faz tanto frio... Mas um qualquer calor me esquenta a alma: talvez o calor da diferença, do estranho.
Menos dois. Mais dois. Que importa a temperatura?
Importa a experiência.
O sertão é aqui também, pois G. Rosa disse que "o sertão está em todo lugar". Sertão de gelo. Quem já viu?... Pois é... A neve?... Algodoais. Algodoais gelados... Algodão doce.

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