quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

"Como mudar o mundo"

Amigos e amigas que por aqui passaram, em 2009, e quem pela primeira vez passa: o tempo não tem tempo, a terra gira, anoitece e amanhece, os galos cantam e emudecem na devida hora. Calendários foram criados para organizar a vida e, claro, para fazer celebrações. Então celebro com vocês a entrada de 2010, desejando-lhes contentamentos gerais, de preferência coletivos, no próximo ano. Que cesse essa espécie de exaustão moral a que o país tem sido submetido por sabidas razões. Que venham escândalos, sim, mas de beleza! Que impunemente criativos sejam os artistas, em todas as linguagens. Que maravilhosos e autênticos palhaços -aqueles dos circos - encham de alegria suas meias e calçolas e nos façam rir o riso da bem-aventurança, ajudando-nos a reencontrar a nossa criança, ainda que ela passe de meio século.
Da minha parte, prosseguirei, buscando oferecer, neste espaço, alguma coisa, um qualquer não-sei-quê, talvez quase-nada, uma folha perdida nos campos da net... Uma fo(a)lha..., mas sempre aromada da possível sensibilidade.

Um beijo a vocês.
Não resisto e deixo este conto zen
- metáfora, utopia, possibilidade só no papel, mas lá vai...:




"Era uma vez um cientista que vivia preocupado com os problemas do mundo e decidido a encontrar meios de melhorá-los. Passava dias e dias no seu laboratório à procura de respostas.

Um dia, o seu filho de sete anos invadiu o seu santuário querendo ajudar o pai a trabalhar. Claro que o cientista não queria ser interrompido e, por isso, tentou que o filho fosse brincar em vez de ficar ali a atrapalhá-lo. Mas, como o menino era persistente, o pai teve de arranjar forma de entretê-lo, ali mesmo no laboratório. Foi então que reparou num mapa do mundo que vinha numa página de uma revista. Lembrou-se de cortar o mapa em vários pedaços e depois apresentou o desafio ao pequenote:

- Filho, vais ajudar-me a consertar o mundo! Aqui está o mundo todo partido. E tu vais arranjá-lo para que ele fique bem outra vez! Quando terminares chamas-me, ok?

O cientista estava convencido que a criança levaria dias a resolver o quebra-cabeças que ele tinha construído. Mas surpreendentemente, poucas horas depois, o filho já chamava por ele:

- Pai, pai, já fiz tudo. Consegui consertar o mundo!

O pai não queria acreditar, achava que era impossível um miúdo daquela idade ter conseguido montar o quebra-cabeças de uma imagem que ele nunca tinha visto antes. Por isso, apenas levantou os olhos dos seus cálculos para ver o trabalho do filho que, pensava ele, não era mais do que um disparate digno de uma criança daquela idade. Porém, quando viu o mapa completamente montado, sem nenhum erro, perguntou ao filho como é que ele tinha conseguido sem nunca ter visto um mapa do mundo anteriormente.

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando tiraste o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando me deste o mundo para eu consertar, eu tentei mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os pedaços de papel ao contrário e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que tinha consertado o mundo."

(Fonte: http://conto-zen-do-dia.blogspot.com/)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

homem do amor

Tantas religiões, tantos livros de ensinar a amar-inclusive os bichos, tantas frases célebres sobre o amor, tantos poemas, tantos crimes e sacrifícios em nome desse sentimento e, de repente, vê-se o amor em ato, generoso, autêntico, sem teorias, sem palavras.

O homem não era nenhum monge budista, nenhum pastor/empresário de alguma igreja, nenhum gritador do nome Deus em praça pública.

Era um carroceiro -e dele já falei aqui, numa das primeiras postagens deste blogue. Mas eis que sua imagem retorna à minha mente, neste período em que chovem mensagens de paz e amor e as lojas festejam faturamentos aumentados.

Ao sair de casa, percebi o homem junto à calçada, ajeitando calmamente uma flor vermelha, de plástico, na cabeça da égua que puxava a carroça já vazia. Pareceu uma forma de amoroso agradecimento. Ou era um cuidado rotineiro.
A mulher esperava, junto ao muro. Também fiquei esperando... O que, exatamente, não sei. Foram instantes de absoluta ignorância, daquela ignorância boa que demite todos os conceitos aprendidos, que nos deixa absolutamente inocentes, como se estivéssemos no mundo pela primeira vez. Algo que aconteceria ao cego de Rudin: "É preciso ver como um cego veria se, de repente, pudesse ver".

Foi assim. Nada glamuroso, nenhuma conferência com uma sumidade internacional, defensora de um princípio para mudar conceitos e salvar da violência e do egoísmo a humanidade. Ou da tolice.

O carroceiro talvez até fosse analfabeto. E se tivesse diante de si um repórter de TV, provavelmente baixaria a cabeça, sorriria sem jeito, iria embora em silêncio, sem entender o que lhe perguntavam nem por que lhe perguntavam.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Lembrando outra vez: 50 anos de O Arado, de Zila Mamede

Zila Mamede (1928, Nova Palmeira-PB /1985, Natal-RN) publicou o terceiro livro de poemas -O Arado- em 1959. Portanto, há 50 anos (quando também foi nomeada bibliotecária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, cuja biblioteca leva seu nome, hoje). Dedicou esse livro à memória do avô e à terra onde nasceu: "terra mãe, fonte raíz, chão do meu chão".

"... Era uma fazenda, uma vila, hoje é mais um município brasileiro, mas não é como município e, sim, como sítio do meu avô que permanece na minha geografia sentimental."

A casa do Alto, hoje.
Visão do terraço.


Zila em visita à casa do Alto (década de 1980?)


Também minha terra de nascimento, lá estive há um mês, mais ou menos. E fui visitar a casa do Alto Branco, onde morou seu avô (e meu bisavô). Por ser verão, da terra brotam cactos, macambiras, juremas. A casa está restaurada, uma caixa d´água azul aponta do telhado. Do terraço, acrescentado depois, vêem-se as serras longínquas, paixão do meu olhar.


Os milharais de Zila, ah... Retornarão, talvez, no próximo inverno. Talvez... Porque tudo mudou. Nova Palmeira tem minérios. Sempre teve, e agora exporta-os ( isso me traz uma lembrança: quando eu era criança, costumava passar lá, todos os sábados à tarde, uma camionete vinda de Campina Grande. Era 'seu' Limeira, que vinha comprar pedras -shelita, colombita, berilo... Trazia uma maquininha que detectava urânio, dando um sinal verde. Sim, urânio, aquilo que se utiliza em armamento bélico e que Tio Sam, dizem os mais informados, mandou buscar no nordeste brasileiro, na Segunda Guerra).

Convenhamos: nada poético...
...

Melhor é ler um poema de Zila Mamede:

O Alto (o avô)

Dum anteavô tivera na colina
os alicerces, que de avô ganahara
açude, pastos, farinhada, chão.

Guardara na cacimba os aguaceiros
e de seu sono sacudira ovelhas,
meninos, maravalhas, plantação.

Multiplicara à mesa concha e mel:
moinhos que teceram do amarelo
de tanta espiga, madrugada e pão.

Em campo arado repartira mudas
que mãso infantes modelaram sob
plantio manso e vesperal de grão.

De terra e de meninos comporia
(na velha bolandeira da tapera)
essa marca de suor numa canção.

(in
O Arado, reunido, com outros livros, em Navegos, 1978)

Veja imagens de Nova Palmeira:

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

silêncio, luz e cachorro

... silêncio. mestres disso, há-os excelentes, espalhados pelo mundo. nem é preciso viajar para o tibete para encontrá-los. há poucos dias observei alguns. estavam reunidos, imóveis. o sol do entardecer batia sobre eles, que permaneciam indiferentes até mesmo aos meninos que circulavam entre um e outro, como se procurassem qualquer coisa que não perderam -mas achariam, porque sempre acham.

quando escureceu, a luz de um holofote caiu sobre aquelas criaturas milenares, que talvez preferissem a escuridão natural da noite. mas, enfim, os homens inventaram a segunda luz e, dela, nem os rochedos escapam. ficam -não mais bonitos, mas bonitos de outra maneira, talvez menos silenciosos, porque a luz dos homens os obriga a falar qualquer coisa. talvez 'silêncio'..., e ficam mesmo bonitos de outro modo. e continuam serenos enquanto a noite avança e os bêbados urinam apoiados em algum deles...

"E quando é madrugada até um cachorro na praça da República fica mais belo. Luz elétrica joga calma em tudo".

Parece que é, João Antônio (ele escreveu assim no conto Cidade, in Malagueta, Perus e Bacanaço).

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

por enquanto, por encanto



ele deu uns dez passos e voltou correndo:
-o amor vence, por enquanto...

ela:
-por encanto...

lá em cima os pombos escutavam o amanhecer.

"E o dia amanheceu igual"?

Desigual.

(continuação do poema/conto abaixo, por instigação de Maria Teresa Hellmeister Fornaciari-http://mteresahf.blogspot.com/
Blog Ouvindo Meus Botões)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

...escutavam o entardecer...



por fim, ele disse:
...portanto...

e ela:
...por tão pouco...

e saíram, cada um para um lado.

lá em cima, os pombos escutavam o entardecer...

domingo, 15 de novembro de 2009

estranho invasor do meu quintal

quando vi, estava lá, vindo do quintal pelo beco, rumo à porta da cozinha. Veio se estirando, se arrastando pelo chão que nem cobra, crescendo como monstrinho de filme de terror. Eu quis correr. Ele dono do beco. Roupa verde com manchas embranquiçadas e flores amarelas. Tomou de algum surfista?...
Continuou avançando na minha direção, numa terrível ameaça silenciosa, esse invasor poderoso que me hipnotizava. Dentro de mim escutei a ordem: não falar nada a ninguém, não gritar, não chamar os vizinhos, muito menos a polícia. Que ele não me faria mal.

Fechei a casa e só voltei no dia seguinte. Chamei alguém para verificar comigo sinais do estranho.
Ele continuava lá, agora a um metro da porta da cozinha, prestes a entrar, andando tartarugalmente, do jeito mais amedrontador possível. Lembrei-me das histórias de monstros que a minha avó contava... Esse ali, tão real. E eu, sinceramente, já gostando da presença dele, assim, entre temor e começo de amor...

Falei baixinho à pessoa:
-Sequer posso ir ao quintal... Ele ocupou todo o espaço... E como está sobrevivvendo?... Aí é só cimento... Deve ter comido terra... e está com sede...
Por fim, falei alto:
-Que vamos fazer com esse pé de jerimum?!...


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

a voz do aluno



Os textos abaixo foram produzidos em sala de aula, na disciplina Redação Criativa (Departamento de Artes-UFRN). Sugeri à turma que escrevesse sobre algo vivido na infância.
Alguns textos:

LADRÃO DA LÍNGUA PINTADA DE ROXO
Vítor Bezerra (Comunicação Social) -17-09-2009

O pé de azeitonas roxas que existia no quintal é sempre a primeira imagem que me vem à mente quando penso em pôr num papel memórias dos tempos de criança. Imenso, frondoso, vivo, e, agora, em meus pensamentos, um imponente paradoxo: uma imagem que me toma na hora de escrever palavras. Não penso em letras.
Pura e simples, aquela árvore representa, para mim, a grandeza e a esperteza da natureza. Como pode atiçar o paladar do menino com o doce das azeitonas e o impedir de comê-las escondido, pintando sua língua de vileta-escuro? Ela não sabia, mas era proibição terrível a da minha mãe, que não me deixava, quase que por decreto, catar e comer as centenas de pontos roxos espalhados espalhados pelo chão nas tardes quentes. "Estão pegando fogo, vai gripar!", ela dizia.
Volto no tempo, revisito momentos, traduzo sentimentos em imagens e imagens em palavras: o quintal -um latifúndio-, o galinheiro abandonado, os coelhos -que Deus os tenha no céu dos animais-, e eu, ladrão das frutas, futuro hipocondríaco. Mas pouco me importava o que viria se contente eu griparia após uma bacia de azeitonas suculentas.

INFÂNCIA, OLFATIVA INFÂNCIA
Leandro Garcia (curso de Artes Visuais-UFRN)

Criança, infância, vida.
Era mais um mês de férias na casa da avó.
Dentro de casa aquele cheiro peculiar de naftalina. Por que será que velhos gostam tanto disso?
Me perguntava toda vez em que a visitava.
Do lado de fora os animaizinhos fediam, entre berros e mugidos.
Aquele cheiro de caju cobria todo o pomar.
Mais um entediante mês de férias na casa da vó...

A VIDA
Ana Débora (curso de Artes Visuais-UFRN)

Como era a vida na infância?
Era linda, alegre e tudo resplandecia.
A casa era colorida, de plástico, com móveis de plástico, que fazia "trec" quando apertava o botão; panelas de plástico e cama de plástico. Mas não era tudo de plástico, não! Tinha as cadeiras e mesas de madeira, mas não essa madeira pesada de hoje: uma bem levezinha que quase deixava a boneca cair.
E o tamanho, então? Enquanto hoje é tudo grande, tv de 47 polegadas e cama king size, antigamente era tudo bem pequetitinho.
Ai! E o chão? Como era bonito. O piso... era de AREIA e a casa nem ficava suja, hein!
Na infância era assim: a vida era alegre, não tinha chateação e durava cerca de meia hora. Agora, a vida dura uma vida toda e quase ninguém se lembra dela...

O MISTÉRIO DOS CADARÇOS
Ana Luíza Palhano (curso de Artes Visuais-UFRN)

Tomar banho, ligar e desligar o chuveiro, pentear os cabelos, usar garfos, escovar os dentes... Tudo isso eu já sabia fazer.
Depois do meu desenho preferido, de segunda a sexta, eu repetia as mesmas coisas, as mesmas sequências, mas uma coisa, apenas uma, me impedia de ser dona do meu processo.
Todos os dias me preparava, me arrumava, me alimentava, me perfumava para a chegada da hora, ora preguiçosa, ora gostosa, ora chorosa de ir à escola. Mas uma coisa me impedia de ser dona do meu processo: o danado do cadarço.
Pai, meu tênis... Assim eu apelava e me denunciava. Em segundos, painho, como gostava de chamá-lo, desvendava o mistério dos cadarços.
Mas foi assim, num dia qualquer, numa calçada, em direção à parada de ônibus, que decidi travar a batalha para a minha independência. Atenta aos movimentos dos dedos do meu pai, repeti e finalmente descobri o mistério dos cadarços.
Agora posso dizer que, naquele instante, me senti dona do meu processo.

domingo, 8 de novembro de 2009

a teoria das serras



as serras têm uma teoria.
uma teoria azul-distante
com assinatura de vento.

essa aí da imagem foi a minha primeira professora.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

ou a vida é, às vezes, uma ficção


Quando movi a cabeça buscando um garçom, flagrei, sem querer, a cena estranha e nada ficcional (ou a vida é, às vezes, uma ficção): uma moça almoçava sozinha e conversava com... ninguém. Com ninguém propriamente, não: com o copo de suco. Vez por outra, sorria, gesticulava, abria a folha das mãos para ele. Uma conversa amorosa, simpática. Que será que dizia?... Não parecia ser uma atriz (e dificilmente uma atriz iria ensaiar suas falas ali). Talvez sofresse de transtorno mental... Talvez estivesse exercendo o direito de amainar uma crise de solidão. Talvez achasse mais interessante conversar com um copo de suco do que com uma pessoa.

Ah, essa mania de querer compreender e explicar tudo...
A moça parecia em estado de graça, isso devia bastar. Quantos, naquele momento, estavam assim, tão bem, conversando com pessoas?...
Enfim, ela se levantou, esticou a blusa, arrumou o cabelo e foi pagar a conta. Notei que tinha um lado do corpo meio torto.

Mais torta, fiquei pensando, é essa vontade de encontrar resposta até para algo inofensivamente diferente.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

nem ela sabe


Para Sheyla Azevedo
.
.
por que será que uma mulher chora sem motivo aparente?
talvez porque um passarinho comunicou-se com ela, na hora de morrer
talvez para dissolver um pouco a solidez das coisas
talvez por saudade da não-existência que a precedeu
talvez porque o barco de papel não esperou por ela, naquele dia em que choveu na infância
talvez porque
talvez


nem ela sabe
se soubesse talvez nem chorasse

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

um som do universo na infância

.
.

não foi no alto de uma montanha, não foi numa concha do mar, não foi numa cachoeira nem mesmo num trovão que ouvi, pela primeira vez, o som do universo.

foi do casco de um cavalo deixando a areia e pisando num lajedo.
eu vinha na garupa, tinha uns sete anos. Meu avô, na sela, vez por outra dizia "durma não, pequena".
...

hoje, quando tenho insônia, às vezes escuto na memória o casco do cavalo deixando a areia e pisando no lajedo...

domingo, 11 de outubro de 2009

Dia da Criança


meninos de rua
sabem coisas
que os de casa
não, talvez

não ganham brinquedos
apenas tem asa

e menos medos

domingo, 4 de outubro de 2009

A montanha que canta(va)


 




A montanha que canta(va)
foi cantar num tom acima

sob um teto inda mais alto


Mercedes!


agora estamos mais
Sos
aaa...

Ay este azul...
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

o maior brilho
é quando o olho
vê o filho

um filho

é um fio
confiado
à vida
tecelã








terça-feira, 29 de setembro de 2009

Filosofia dos garranchos



rumo à vida
quando eu ia
estava lá
Sertania

filosofia dos garranchos
escrita no corpo que passava

o olhar salgado da cacimba
o livro aberto da estrada

água do primeiro banho
da criança alfazemada

mas um dia veio o circo
e o Trapézio estava lá

compreendi que a vida é
salto mortal todo dia

então cavei a janela
e depois saltei por ela...

_________
Letra de música composta em 2005, reunindo os títulos de dois livros- Sertania e Trapézio e outros movimentos, como forma de responder à inclusão desses livros num projeto de recital poético que o poeta Eduardo Gosson então desenvolvia. Dedico a ele esta postagem.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

lu´água


descobriram água na lua
há pouco

descobri lua na água
há muito

______
Imagem: http://1.bp.blogspot.com/

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Real é o que vira pássaro...


Um blogue é "uma casa muito engraçada", que não tem teto, não tem nada, a não ser imagens e palavras. E música, eventualmente. Mas moramos intensamente nessa casa, durante os minutos ou horas em que escrevemos ou deambulamos pelos seus labirintos.
Com o tempo, vem a sensação de cafezinho partilhado com alguém que pode estar a milhares de quilômetros. Há respiração e calor. Voyerismo. Escolha de alimentos, cantinhos mais visitados, olhadas, passagens-quase-correndo, retornos... E tudo é importante. Às vezes até perdemos as sandálias, o sono, o siso (velho nome de bom-senso).

Mas ganhamos aurorinhas quando lá fora ou cá dentro faz escuro. Um poema (bonito, impertinente, irônico...), um devaneio, uma imagem, um dito engraçado, uma informação sobre culturas diferentes... Assim fica difícil separar virtual e real. Eles se con-fundem, no verdadeiro sentido da expressão: um se funde com o outro.

Ao perceber, por exemplo, o desaparecimento dos 'seguidores' deste blog, hoje de manhã, desabafei na hora, sem conjeturar que podia se tratar de algo mais global. E era -constatei logo após. Mas a sensação foi mesmo de uma debandada sem despedida. Porque aprendi a querer bem a todos que estavam lá... Como microretratos de pessoas amigas numa parede intangível. Algumas dessas talvez eu nunca venha a encontrar fisicamente. Não importa.

Então, real é o que vira pássaro no céu do nosso imaginário.

Virtual é o que espoca por aí afora e a gente nem percebe.

Meus 'seguidores' sumiram...

Certo: não defendo nenhuma seita ou coisa equivalente. Mas eu gostava de ver os pequenos ícones indicando os leitores que me seguiam, ou melhor: que me 'adotaram'. De repente..., nada! Ninguém! Abro o gadget e nada há lá, a não ser o código de cores. Bateu solidão... Pra onde foram?... Desistência em massa?... Nada fiz para essa deserção...
Será que estão sequestrando até inocentes seguidores de um mero blog de devaneios??...
Não sossego enquanto não achar meus amigos e amigas.
Espero que o blogger devolva esse agrado. Já já.
Estou sentindo falta... São presenças estimadas na minha cibersala.
Quero todo mundo de volta!

sábado, 19 de setembro de 2009


um lado alado

o outro, abismo

mas é na asa

o sismo

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Mi(ni)stério das palavras



Às vezes é assim: elas não querem comparecer... Escolhem descansar no sem-lugar do silêncio.
Vou devagar... Espio. Vontade de soprar uma gaita de taquara, que comprei de um índio na última feira internacional de artesanato, aqui. Quem sabe, as enfeitiço. Não, não vai adiantar, desisto. Elas vão se enfurecer, não sei tocar esse instrumento. Mal sei tocar o teclado do PC. É nele que as convoco e as retiro da Possibilidade para o Ato, e com elas dou alguma forma ao caos cá de dentro. Mas hoje elas estão roucas, birrentas e malcriadas. E esfriadas. Criaturinhas malucas! Volúveis! Bipolares! Abandonantes de maiores que as tem como companhia mais constante! Então me deixam assim, sem cais nem Vênus?...
...

Talvez eu tenha de fazer outra coisa: olhar os descascados da parede, golejar o vento mais bem in-ventado por estas bandas: o de agosto a setembro. Mas vou lá de novo, feito criança que quer acordar a mãe, aí passa a mão no seu cabelo, assim assim...

Uma me olha e me joga uma dura interjeição, com rapidez maior que a de Muntazer al-Zaidi jogando seus sapatos em Bush.

-Nem doeu!, me vingo.

-Hoje não fazemos blog-blog no seu teclado. Estamos bem decepcionadas e mal recepcionadas. Pensa que somos escravas? Vamos acionar o Ministério das Palavras!

-E eu vou acionar o Mistério das Palavras.
-...

Depois se enche de dengo.

-Pelo menos cante pra nós...

-Canto... "Outras palavras... Outras palavras"...

-Cante mais...

-Oito palavras... Outonais palavras... Outrora palavras...

...Oitavas palavras..
. Octogonais palavras...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

15 de setembro de 1928: nascimento de Zila Mamede



Zila Mamede completaria hoje 81 anos, não fosse o adormecer para sempre no abraço das águas da praia do Forte.

"(...)
Passai, marujos, passai,
que não voltarei do mar:
oceânica persisto;
sou produto desse mar
que compus nas minhas mãos
da verdura do meu sangue,
das águas dos olhos meus.

Como pois ser continente
Se fui nascida no mar?
(...)"



__________
In Rosa de Pedra, 1953. Em 1959, publicou O Arado, que agora completa 50 anos.

O mar e Nova Palmeira-PB, onde nasceu, são duas geografias de intensa força para a poeta...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

De 'coisário' e chapéu


Especialmente para Sheyla Azevedo

Todos nós temos o nosso coisário*, aquele bocado de objetos que chamamos de 'minhas coisas', troços que guardamos mesmo quando não tem mais serventia. Faz mal, dizem vozes orientais. Energia retida. Jogar fora, dar a quem precise. Criar o vazio, para que outras coisas venham.

Mas há coisas que ganham personalidade, uma espécie de alma.
Minhas coisas-com-alma são meus chapéus. Ficam gastos, manchados, molinhos, e lá..., guardados, um dentro do outro. Assim conservo essas criaturas por longo tempo, até que fiquem bem feinhos e minha ajudante diga, no meio de uma risada, mas pra quê a senhora quer essas marmotas??...

Marmotas? Meus chapéus?? Sim: marmotas!, ela repete. Horríveis!
E lá se vão uns três, no lixo...

Dois, não, nunca irão embora: um que ganhei de Vicente Vitoriano, quase branco, aba ondeada. O outro, presenteado por Sônia Othon, italiano, bem vermelho.

Verdade é que, com todo o desapego que tento vivenciar, ao jeito oriental, ainda fico meio nostálgica quando chapéus meus vão-se embora sem olhar para trás.

Gosto de senti-los integrados a mim. Um chapéu é Deus segurando meu juízo. O céu tornado uma concha agarrada à minha cabeça.

Quando eles partem, parece que alguéns sairam de casa pra não voltar mais...

..........
'Coisário' está em A Poética do Devaneio. O velho e bom Bachelard assim diz: "(...) Um bom escritor da Champagne, Grosley, diz que sua avó, quando não sabia responder às suas perguntas de criança, dizia: Deixe estar, quando você crescer, verá que existem muitas coisas num coisário". BACHELAR, Gaston. A poética do Devaneio. S. Paulo: Martins Fontes, 1988, pp. 159-160

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Criança/criar



Sou duas
sempre que me olho
no espelho

quando saio

a outra vai
pra onde?


*

A luz é uma água
amarela e seca

clareando

a cara das coisas...


(in Psilinha Cosmo de Caramelo, 1997 -infantil (?), Menção Especial em concurso da União Brasileira de Escritores-1997)

..............

Escrever, em ficção ou poesia, e seja para quem for (criança ou adultos, nós mesmos... ou para ninguém...), parece exigir que passemos do "eu devo" ao "eu quero", até chegarmos à "criança", como sugere Nietzsche, ao falar do Espírito das Três Transformações (Assim Falava Zaratustra). O camelo é o que se limita aos deveres, à obediência, e disso se orgulha. O leão inventa seu caminho, anda só, ruge os seus desejos, combate. A criança é o estado de inocência, "a roda que gira em torno de si mesma". É, por assim dizer, a falta de lembranças, um dar-se a si mesmo, uma entrada na zona do Criativo, sem medos, sem autovigilância castradora. Sem obediência nem combate.

Essa psicanálise alegórica não é uma receita de como se escrever -principalmente para crianças. Pois receita não há.
Mas talvez ajude a entender os movimentos necessários à 'autopermissão' para criar, em qualquer linguagem, em qualquer área.

Criança é zen. Criar também.
Criança lembra criar, como bonança vem de bom.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

ProVocante


Para Almariada e Moacy Cirne

ditos comuns:
gatos pardos
em noite cinza

que se moa a cy
até se ter
o mínimo:

gota

não sangria
desa(s)t(r)ada

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Arte


Uma gente sem arte
não arde:
cinza-se.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Os ventos dos eventos

Natal e arredores (Praia da Pipa) terão eventos literários importantes, neste setembro que se inicia cheio de luar e suave calor. Primeiro, o XIII Seminário Nacional e IV Seminário Internacional Mulher e Literatura, de 02 a 04, no Hotel Praia Mar, por iniciativa da UnP e apoio da UFRN, Anpoll, Fapern e Capes, entre outros. Serão homenageadas Maria Teresa Horta (jornalista, ficcionista, ensaísta e poetisa portuguesa) e Diva Cunha, natalense, autora de belos livros de poemas e pesquisadora da história da literatura do Rio Grande do Norte.
No dia 04, das 14 às 15h30, participarei, com muito gosto, de uma mesa-redonda sobre a produção poética de Diva, juntamente com os poetas Paulo de Tarso Correia de Melo e Márcio Dantas -também ensaísta, além de professor de literatura na UFRN. Minha abordagem será à Bachelard: "Porções cósmicas da poética de Diva Cunha".

Depois, de 24 a 26, será a vez do FLIPA- Festival Literário da Praia de Pipa, a 70 km de Natal, o recanto sabidamente mais badalado do Rio Grande do Norte.

Bons ventos tragam esses eventos.

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Um poema de Diva Cunha, que estará lançando, no dia 03, às 19h, mais um livro de poemas, "Resina", durante o evento:

Águas falem da sede
em cada molécula destilada

recordai a fluidez do amor
a intensa e dolorosa
carne magoada

(in
Armadilha de Vidro)

domingo, 23 de agosto de 2009

Pé de letra

Acho que escrever começa no útero do silêncio, vem de lá... Não é algo romântico, é trabalhoso, como os partos de que nascem crianças. Médicos e também parteiras analfabetas de letras (há analfabetos de outros saberes), aquelas que acodem mulheres para quem 'chegou a hora', lá nos pés-de-serra, costumam dizer ela entrou em trabalho de parto...

Quem escreve pode ter parto sem dor, mas há sempre uma contração/dilatação do espírito (ou da mente, se preferem), tudo semelhante ao que se passa com o próprio universo, que se dilata e se contrai, segundo os físicos. Talvez por isso nasçam estrelas, enquanto outras são sugadas pelos buracos negros e lá desaparecem...

Escrever é tanto trazer à existência quanto fazer desaparecer. O personagem que passa a 'existir' desaparece de dentro do escritor, ganha autonomia. O buraco negro é a ausência dele na alma/mente do autor, pois o movimento é ao contrário: o personagem não é sugado, mas lançado para fora. O mesmo deve acontecer com os poemas (suponho, aqui na minha ciência sem tubo de ensaio nem telescópio Hubble). Então se escreve mais, mais... Algo falta, algo vem, algo se vai, algo se inicia, algo se conclui... E, pensando com os pés agora no chão, é preciso recobrir o vazio que resta ao se arrancar, com raiz e tudo, cada pé de milho, quer dizer, cada pé de letra -poema, conto, romance... Se tudo dá certo, pode ser um pé de brilho.

Por tudo isso, escrever pode ir do gozoso ao triste, ao difícil. Como abraçar fogueira debaixo de chuva.

Mas é sempre uma necessidade... Necessidade de ordens diferentes: catarse, busca dos diferentes eus, como diz Maria José Quintela (e F. Pessoa?...). Talvez suprimento fantasioso para a viagem -nem sempre fácil- nesta Terra, onde muitos escrevem terríveis histórias com bombas e mísseis e... ponto (quase) final.

Já vou, mas depois volto pra plantar outro pezinho de ciberletra. Este aqui já está anunciando o vazio...
Vou tomar um café... E olhar o céu.

sábado, 15 de agosto de 2009

Car(ess)ências



Ontem um colega-e-amigo interpelou-me acerca do escrever. O que motiva, de onde parte, como se processa...
Mas quem sabe?... Queremos a palavra ou a palavra nos quer?... Que coisa é esse não-sei-quê?...

Tudo é narrativa: o em-branco, a paisagem, a água, o silêncio, o grito, o olhar, o fóssil, o primeiro choro do recém-nascido... Os sonhos, excelentemente -dispensada aqui qualquer sugestão freudiana.

Os ainda chamados loucos são loucos (alguns) porque criam narrativas incompatíveis com o discurso 'normal'. Mas o discurso 'normal' também pode ser uma forma de loucura: uma loucura aplainada. Uma paisagem que foi serrada onde havia montanha, e entupida onde havia abismo.
Questão velha, convenhamos. Platão não permitiria que Homero habitasse a sua cidade utópica porque..., bem, porque a imaginação do poeta poderia desestabilizar o psiquismo da comunidade.

Não sei se a linguagem é um ente, um ser, como dizem alguns mais metafísicos (não os abjuro).
Sei, sentindo, que é necessidade, vontade.
Vontade dessa outra água: não só beber, mas cavar um poço, nem que seja na palma da mão...

Acho, enfim, que escrever não contém nossa 'essência'.
Contém sobretudo nossas car(ess)ências.

E entre o que não sei e o que penso que sei/sinto, vou cavando a mão...

Deixo este dizer:

Toda palavra traz em si a não-palavra
o maior silêncio está por vezes
no que se diz, contido
(...)
Dizer e não-dizer coexistem.

____
(in
Sertania, 1979)

© Mencione a fonte, caso queira citar ou reproduzir.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

filha de escaldantes solidões


As ondas de fevereiro. O excessivo mar, tão excessivo que tudo se tornava demasiado pequeno. Até minhas aflições, meus terrores, minhas impressões quanto a Fausta, minha gana de fazer a minha história por outros caminhos, caminhos que eu mesma ia inventando a partir de condições tão difíceis e amargas e ásperas e quase suicidas. Mas ali eu descansava do meu fardo. Chorei um pouco e acabei adormecendo recostada entre o barco e o tronco do coqueiro. Algum tempo depois, acordei com vozes de pescadores que puxavam suas redes e suas esperanças. Alguns me olhavam curiosos, mas nada sabiam de mim. Nossos universos estavam separados por letras e números, pela instrução e pelo dinheiro. Pelos sonhos, pelos desejos. Por muitas coisas mais. Suas aflições eram outras, certamente. Sentia-me, porém, desmanchada neles. Ou por eles. Eles eram filhos do mar. Eu, filha de escaldantes solidões, dos matos e cactos e das cacimbas que secavam como peitos de mães desnutridas. Eles conheciam os segredos do mar. Eu, os segredos da terra árida, forrada de pedregulhos. Eles viajavam todos os dias por estradas de água, amplas e sem marcas. Eu vinha de andanças por caminhos estreitos e visíveis, de terra desbotada ou avermelhadas. O mundo deles não tinha cercas, o meu tinha...

Sim, as cercas...

As cercas!...

AS CERCAS!

.........
Trecho do fragmento 18 de "Memórias de Bárbara Cabarrús"

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

um deus rasgado



(...) "Senhor!", gritei. "Senhor!", repeti. Ele parou sem me olhar, depois virou um pouco a cabeça. Apressei-me para alcançá-lo antes que ele resolvesse continuar a caminhada. "Para onde vai?".
Olhando-me com um olhar próprio de quem pertence aos caminhos, disse baixo: "Não sei. Vou". Quis saber se havia algum lugar onde ele se demorava.
"Apenas passo. Onde já não se pode amar, deve-se passar... Esse dizer não é meu, mas me serve. Ando há anos, venho de muito longe, da casa de um homem que tinha muitos livros e gostava de ler em voz alta, principalmente um livro de um certo Zaratustra, ou esse era o nome do livro. Um dia resolvi partir. E adeus, moça".
Puxou a aba do chapéu bem para a frente e prosseguiu. Era perto do por-do-sol, seu corpo estava contornado por um perfil de luz dourada.Fiquei olhando o vulto diminuindo no caminho longo até não mais vê-lo. Quando voltei, o mundo estava escuro. Mas o andarilho deixara uma chama no meu espírito.
Fiquei repetindo mentalmente a frase que não era dele mas lhe servia e a mim também. Fui dormir pensando nele e com ele sonhei.

Sonhei que ele era um deus rasgado, e o deus rasgado soprou o pequeno farol que alumiava meu quarto e se mostrou contornado de luz, tal como eu o percebera lá no caminho. "Deixa-me ir junto", pedi. Ele sorriu e balbuciou com voz areenta:

-É preciso, primeiro, saber ser só, caminhar só. Um andarilho só anda com quem lhe é assemelhado, com aquele cuja presença quase não se percebe.
E evaporou.

.............
Trecho do fragmento 9 de "Memórias de Bárbara Cabarrús".

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Amorosidades do café


Nivaldete Ferreira


Para mim, o café é mais que um bebida.
É uma bebivida. Uma amorosidade.
Se o tomo só, ele me faz companhia. Uma companhia de bom aroma e bem morna, claro. É assim que o prefiro: não muito quente, que o excesso de quentura estraga a magia.

Se o tomo acompanhada, ele brilha mais, até à última gota. E a conversa é de ave em repouso. Su-ave, sem bicadas no estar-com.

Estranhamente bom é quando a inesperada estrela da amizade desce ao café, assim mesmo, de forma imprevista, misturando-se à terra de onde veio o grão.

Algo se acrescenta à existência, enquanto algo diminui: café perde uma sílaba. Vira fé.
Fé no Encontro, na amizade que, às vezes, parece ter sempre existido, só faltava aquele "ei, chegamos"...

E acontece uma espécie de felicidade boba, a melhor, a verdadeira. Nunca acreditei em felicidades glamurosas. Mas nessa do café...

Ops... é hora de dormir, mas... aceita um café?...

-----
Direitos Reservados-2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mais Bachelard: o vegetalismo humano

"O homem, em seus grandes signos, possui valor cósmico. Todo grande valor estético do corpo humano pode colocar sua marca sobre o universo. Uma cabeleira prova isso aqui. (...)
Então, ao sonhador cósmico, ao sonhador que completa e aumenta qualquer imagem, são revelados os valores cósmicos da cabeleira. As mais loucas metáforas são verdadeiras. A cabeleira é uma floresta, uma floresta encantada. Os dedos nela se perdem numa carícia infindável. Ela é moita, é cipó. É adorno, obra-prima feminina. Eis o vegetalismo animal, o vegetalismo humano, o tão profundo vegetalismo da mulher. "




IMAGEM: http://clubedolivro.files.wordpress.com/2009/01/gaston-bachelard.jpg

quinta-feira, 30 de julho de 2009

a árvore e o homem



Gaston Bachelard:

Uma botânica imaginária, feita da invocação aos ramos, à madeira, às folhas, às raízes, à casca, às flores e às ervas, pôs em nós um fundo de imagens de espantosa regularidade.
Valores vegetais nos comandam. Cada um de nós ganharia em fazer o levantamento desse herbário íntimo, no fundo do inconsciente, onde as forças suaves e lentas de nossa vida encontram modelos de continuidade e perseverança. Uma vida de raízes e de rebentos está no coração de nosso ser. Na verdade, somos plantas muito velhas. (...) A árvore possui mão, uma longa mão branca. E o braço do homem expande-se como uma palma. Uma raiz de árvore é já uma perna. Uma perna de homem assume uma torção perfurante para se instalar, como uma raiz, profundamente na terra.

quarta-feira, 29 de julho de 2009


Este blog foi indicado para o selo Blog de Ouro por Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto:
nataldeontem.blogspot.com/

Indicamos estes:
ERA UMA VEZ, OUTRA VEZ
valeriamenina.blogspot.com/
A MEUS AMIGOS
ameusamigos.blogspot.com/
BICHO ESQUISITO
bichoesquisito.blogspot.com/
NATAL DE ONTEM
nataldeontem.blogspot.com/

A indicação deste último não se deve a nenhum jogo retribuitivo, mas ao fato de se tratar de um site de grande importância para o conhecimento da história recente de Natal, seja através de imagens arquitetônicas, seja por meio de referências a fatos e pessoas. As escolas, certamente, terão uma boa fonte de pesquisa nesse blog. Eu, pelo menos, curto adoidado...

Os indicados devem cumprir as regras:
1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;
2. Poste o link do blog de quem te indicou;
3. Indique 4 blogs entre os de sua preferência;
4. Avise seus indicados;
5. Publique as regras;
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.

sábado, 25 de julho de 2009

O poeta Adriel Lopes Cardoso: um desconhecido?-2






De Laélio Ferreira (filho de Othoniel Menezes, foto à esquerda), a quem agradeço pela colaboração:

"Abaixo, um soneto de Othoniel Menezes, dedicado a Adriel Lopes Cardoso (in "Othoniel Menezes - Obra Reunida", Editora UNA, no prelo).
As notas de pé de página são minhas.
Saudação,
Laélio Ferreira

MAIO
Para o romantismo de Adriel Lopes[1]

Maio vai se acabar! - punge dizê-lo!
Quem não ama, este, só, não se envenena
de saudade, esperando o pesadelo
da última noite clara da novena!

Tu, se não tens motivo de escondê-lo,
tu, que me lês, dize se não faz pena
não mais rezar aquela flor morena,
sob o incenso pagão do seu cabelo!

O amor, no mês de maio é suave prece:
gorjeia trinta dias corda a corda[2],
e, igual aos outros cânticos, fenece...

Só o coração, turíbulo vivente
- tanto de aroma ao pé do altar recorda...
Fica esperando maio novamente!


1) Adriel Lopes Cardoso (Natal-RN, 24/01/1900 – Natal-RN, 20/01/1930). Poeta, desenhista, funcionário do Estado, grande boêmio no seu tempo. “Morreu e viveu depressa, como uma luz serena e tímida num altar silencioso” – escreveu sobre ele Câmara Cascudo. Na fase mais boêmia de OM, nos primeiros anos da década de 20, Adriel foi seu companheiro constante de farras. No carnaval de 1926, por exemplo, fizeram parte de um famoso bloco, “Os Quatro Perdidos”. Os outros dois componentes da borrachera quadra eram Olímpio Batista Filho e César Pelinca. A marcha-enredo da “agremiação”, com música de Olímpio Batista, foi registrada no livro Falenas (Natal, 2007,impressão da Natal Gráfica Editora), organizado por Walter Batista de Andrade, filho do musicista, e apresentada pelo Professor Cláudio Galvão.
2) Corda a corda – no sentido de série, cadeia, fileira."
--------Foto de Othoniel Menezes: http://www.minhahistoria.com.br/othoniel/foto_278_37

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O poeta Adriel Lopes Cardoso: um desconhecido?


Para Jarbas Martins, estudioso do soneto no RN

Sempre faltam nomes às histórias literárias dos lugares... Impossível saber tudo.
Porque me foi dado fazê-lo, trago a público notícia de um poeta sobre o qual jamais ouvi/li qualquer referência nos meios literários locais.

Numa Acta Diurna de 1947, publicada no jornal Diário de Natal, Luís da Câmara Cascudo assim escreve:

"ADRIEL...
Na praia de Areia Preta um grupo acompanha meu filho. Um dos rapazes é alto, esguio, de olhos claros. Pergunto-lhe o nome. Adriel Lopes Cardoso! Não pode ser, Adriel Lopes Cardoso está morto. Morto há dezessete anos. Quase não viveu. Esse outro Adriel retoma no Mundo a missão social do primeiro. É seu filho. Nele, o Pai viverá.
(...) Adriel Lopes Cardoso era irmão de Pierre Sá -Poty, o meu companheiro de jornalismo n´IMPRENSA, exilado, falecido no Recife. O irmão era mocinho, menino de buço, fazendo versos, riscando desenhos, sonhando, tendo planos, idéias, um programa de esforço que a vida não lhe consistiu à realização. Quando Pedro Lopes Júnior, o Pierre, viajou, Adriel substituiu-o na camaradagem literária. Sua juventude estava muito próxima dos meus primeiros anos de mocidade. (...) Adriel nasceu no dia de São João do último ano do século XIX, 24 de junho de 1900. Estudou preparatórios e vadiou, gloriosamente, como todo natalense que se oficializava estudante no meu tempo. Empinou corujas, cafunou castanhas, deu gamba-pé no Potengi, comeu sequilho no Passo da Pátria e bebeu garapa de cana a vintém o copo. Quem quizer (sic) acreditar acredite. (...) Era uma inteligência cuja força passava pelo coração antes de positivar-se na forma. Um boêmio de 1830. Rodolfo, figura de Muger, saudoso da moldura literária de sua sensibilidade. Morreu a 20 de janeiro de 1930. Viveu e morreu depressa. Como uma luz serena e tímida num altar silencioso. Naquela noite-paisagem que Adriel amava, luar, praia, mar, serenata, violão, modinhas, o filho evocou-o na minha memória. Nem tudo passa sobre a terra, responde o destino à jandaia de Iracema. O Amor vence o Tempo e prolonga para o infinito, na cadeia de seres, a vida que nele confinou..."


Obs. Essa Acta Diurna foi reproduzida, à guiza de prefácio, no livro SONETOS (1988), onde está reunida parte da produção poética de Adriel Lopes Cardoso. Na apresentação, a filha -Eliane Lopes Cardoso- diz:
"Este é o livro do meu Pai. Livro que ele tanto ansiava publicar em vida. Não contém toda a sua obra. Um terço dela foi publicado na imprensa. Outro, está disperso."
................

São 129 poemas. A grande maioria, sonetos. Alguns, escritos em Serra do Martins.Um, longo, ocupando cinco páginas -"Cleópatra". O último, do ano de sua morte, em forma livre. Uns estão datados ou trazem dedicatória.
Como descobri esse material? Moro no mesmo quarteirão em que reside uma descendente do poeta. Ela me ofereceu um exemplar do livro.
--------
"SONETO
Adriel Lopes Cardoso

Entre as hórridas formas indecisas,
o olhar aguço do sepulcro ao plinto;
e ouvindo o harpejo lâmure das brisas,
o mesmo anseio flebil triste eu sinto...

Fitando as frias lágeas de Corinto,
sob o franxol do luar, brancas e lisas,
-ó tétrico Nirvana, eu te pressinto
os dedos com que as cousas eternizas!

E, ai de mim se de espanto e medo tremo,
procurando, entre os túmulos gelados,
do atro mistério o epíteto supremo!

Ai de mim que ante o Grifo, ardendo em febre
ululando, blasfemo em altos brados
para que o elo do Enigma atroz se quebre!"

D. QuixoteAdriel Lopes Cardoso

E intrépido cavalga, à ilharga adaga afiada...
Fulge, ao sol, no seu peito, uma antiga medalha,
com a propícia legenda em císculo gravada.
"Por ti, por teu amor, esta nobre batalha".

E pensava:-Lutar, de alvorada a alvorada,
batalhar, sem que a Sorte, um momento, me valha,
e investir, sem tremer, a legião negra e alada
de monstro, cuja espada, atra, um peito retalha,

e a Morte, vis a vis, enfrentar na peleja,
vendo partir-se o escudo ao golpe do inimigo,
e sentir, num milagre, a Glória, ígnea, na idéia...

Ao largo há de brilhar esse nome que adeja
aqui dentro do peito e que arrasta comigo,
os troféus da vitória, -ó pura Dulcinéia!

30.09.920"
------

CARDOSO, Adriel Lopes. Sonetos. Natal: Nodeste Gráfica Ltda., 1988 (p. 44 e 55)

terça-feira, 21 de julho de 2009

...bonito pra chover


nestes dias de inverno, de repente me pego olhando o céu e dizendo "tá bonito pra chover"... eu mesma me espantei pelo longo tempo sem ouvir essa expressão tão comum em Nova Palmeira do tempo d´eu menina.
era a meteorologia de todos. qualquer criança sabia. aliás, deve ser a meteorologia de todos os interiores do Brasil, das cidades pequenas, sem edifícios, mas guardo a lembrança daquela de lá. e dos muitos braços de mulheres arrancando roupas dos varais, depressa, depressa
...
Bonito pra chover é mais bonito do que previsão do tempo para todo o Brasil, amanhã, na tv.

havia outros falares: vou dormir uma madorna... a chave? deixei em cima do atajé... remédio bom pra tosse é leite ferrado...

madorna, atajé, leite ferrado com pedra incandescente...

e o Kirie eleison nas missas. talvez ninguém soubesse que estava cantando senhor, tem piedade (de mim, de nós)

uma prima -Maria -, ávida por ler o Adoremus no mês de maio, diante dos devotos, esquece o som do PH e diz, bem alto: então o Pilho de Maria...

ah, essas lembranças que o inverno traz...

e continua bonito pra chover.
------
Imagem: http://www.osmais.com/index.php?ver=NTExMg==

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Roberto Carlos para além de RC

Para Tetê Bezerra

sempre tive resistência a tudo que 'pega' demais, a tudo que vira (quase) unanimidade, talvez por achar que esse fenômeno tem muito de contágio mental, rebanhismo. por isso mesmo nunca li Freud de baco a barro ou, se é preferível, de cabo a rabo (cabo a rabo não sei de quê...), quando ele era O Autor...
foi assim com Roberto Carlos. nunca comprei um disco dele, embora goste bastante de algumas canções suas, não sei se pela singeleza, pela forma como traduz nossos troços sentimentais.

noite dessas ouvi "Alô", tocando ao longe, num rádio, na vizinhança lateral da casa. fui à janela para ouvir melhor. era a primeira vez que escutava de verdade a canção, que já deve ter umas duas décadas. e ouvi como quem deixou o café na mesa mas, de súbito, olha e diz "ah, tinha esquecido", e verifica que está bem morno, ao ponto, e bebe com gosto.

sábado passado ele estava lá, naquele palco-céu, feito o santo da música popular deste Brasil tresvariado musicalmente e em outros aspectos.
parecia um totem diante do qual cessaram, por duas horas, todas as agonias de um povo que diariamente sangra.

escutei tudo em estado de inocência, sem julgamentos, comparações, sem me importar com a logomarca do canal, sem adjetivos.

pela primeira vez escutei Roberto Carlos para além de Roberto Carlos.

parecia um velho da aldeia, meio místico e sem cachimbo, contando histórias de amor cantando.

demorei a adormecer, mas dormi bem.

sábado, 11 de julho de 2009

...fui olhar Júpiter e já venho


esses tomates..., espalhe por aí, lave o rosto com esse licor, transforme essas toalhas em pássaros e solte pela janela, esses livros -ponha pra dormir, essas roupas: forre o chão com elas. essas contas, ponha na água que ferve, esse relógio, derreta como Dali, se descalce, passe de uma margem à outra de olhos fechados, seja sem palavras: recém-nascido, apenas grite dentro d´água na travessia salgada e ardente, eu não espero do outro lado, eu não espero, quem deve esperar você, agora, é você!

não volte normal, não volte com os mesmos cuidados, não volte com as regras polidas, não volte como quem reaparece, não volte com caixas do passado nem com mercados de futuro, não volte num falso 'neo' de recém-analisando, não volte, não volte...

se for possível, apenas venha...

se eu não estiver, é que fui olhar Júpiter e já venho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Foto histórica: Zila Mamede em Nova Palmeira . Começo dos anos 1960(?)


Zila Mamede em sua terra natal (ao centro, em pose de violonista. Foto do arquivo de Tetê Bezerra).
Lembremos as dedicatórias de O Arado, publicado em 1959:
"A meu avô Caçote

A Nova Palmeira,
terra mãe, fonte raiz,
chão do meu chão"
.................

O ALTO* (O AVÔ)

Dum anteavô tivera na colina
os alicerces, que de avô ganhara
açude, pastos, farinhadas, chão.

Guardara na cacimba os aguaceiros
e de seu sono sacudira ovelhas,
meninos, maravilhas, plantação.

Multiplicara à mesa concha e mel:
moinhos que teceram do amarelo
de tanta espiga, madrugada e pão.

Em campo arado repartira mudas
que mãos infantes modelaram sob
plantio manso e vesperal de grão.

De terra e de meninos comporia
(na velha bolandeira da tapera)
essa marca de suor numa canção.

(In O Arado, 1978)
-----
A casa onde o velho Caçote morava ficava num alto (daí a toponímia), a cerca de 1,5 km da então vila de Nova Palmeira. Morou lá, depois, Francisco Bezerra de Medeiros, tio de Zila pelo lado materno.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Loja de inconveniência



De repente encontro você na loja de conveniência... Às vezes acontece assim: apresso-me para sair, como se tivesse um encontro marcado e o relógio mental dissesse que estou atrasada. Você, com uma cara de sapato molhado, sem jeito, pedindo uma ponta de sol, como aquela que nos acordou algum dia. Parte do meu chocolate derreteu na boca, enquanto a outra caía da mão. Você se abaixou rápido, num gesto de quem vai salvar um pequeno tesouro. Um cuidado tardio de quem, antes, se distraiu por muito mais. Muito mais?... Pensando bem, que muito mais?... Quando se vive algo denso, não há muito mais. É isso, foi isso, só isso. Experiência de montanha russa num parque imprevisto. Ou de acordar num deserto, agulhas de areia impedindo que se abram os olhos e assim mesmo ri-se. Muito mais é aquele pedacinho de chocolate que você tentou salvar. Esse salvamento foi uma salvação definitiva.
Em segundos, a loja ficou inconveniente para nós.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Só queria estourar uns balões...


Havia balões coloridos desde a calçada até ao portão. Um toldo de balões. Mães chegando com suas crianças para a festa de aniversário do sobrinho da prima da secretária do tio do presidente de qualquer coisa. Microlâmpadas enroladas no tronco das árvores davam uma graça especial ao jardim sem muros. Por não haver muros, a menina de rua foi até lá. Queria entrar também. Um parente do sobrinho da prima etc fazia as vezes de porteiro.
-Ô menina, vá se afastando.
-Por que não posso também?...
-Você nem sandália tem. Dê o fora.
A menina se foi, mas meia hora depois voltou.
-Pronto. Eu tenho sandália.

E mostrou as sandálias brancas. Eram tirinhas de papel coladas nos pés com chiclete, à maneira das sandálias havaianas.
O porteiro, um rapaz de uns 18 anos, alegou que o cabelo dela era assanhado.
-Mas é do jeito do cabelo daquela atriz da novela... Eu vi na tv da lanchonete. Gostei, mandei fazer igual.
-Não encha a minha paciência. Aqui você não entra.
-Mas moço, não é você que toca e canta, todo sábado, uns raps pra Deus, naquela igreja ali embaixo?
-É. Como é que você sabe?
-Minha mãe, que não tem dinheiro nenhum, pega o dinheiro nenhum que ela tem e dá pra vocês... Aí eu fico sem roupa e sem sandália de mesmo.

Um tanto envergonhado, o moço foi buscar uns doces para a insistente.
-Tome. Fique satisfeita e vá.
-Não, moço, quero não. Doce engorda e estraga os dentes. Pode comer. Eu só queria estourar uns balões.
Rasgou as sandalinhas de papel e saiu feliz. Como se fosse ela mesma a festa.

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