segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cartão de Drummond

Um agrado para
lembrar. "Traduzindo":
"Rio de Janeiro, 11 de maio de 1979
Obrigado, Nivaldete F. Xavier, pela poesia esparsa em seu livro - o 'doce amargo das rapaduras", a "moça ensonhecida", "em que sombra de umbuzeiro se fez o teu descanso", todas essas coisas que a gente lê e guarda na memória. Abraça-a cordialmente
Carlos Drummond de Andrade"

(P.S. "Xavier": meu antigo sobrenome de casada)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

30 anos de "Sertania": o cartão de Drummond

Sertania, meu primeiro livro de poemas, faz 30 anos (1979). Se todo livro é um filho de maior que sai de casa, como disse Derrida (se não me engano), celebro esse filho aqui, sem nenhum pudor. Filho é filho, mire e veja. Reencontro-o na estante, berço em que livros (quase) nunca se deitam.

Foi saudado por Nilson Patriota, no jornal Tribuna do Norte. Saiu uma nota no Jornal do Brasil e foi lançado numa livraria de Belo Horizonte, quase exclusivamente para colegas da pós-graduação em Letras-UFMG, naquele fim de década. Dias depois, Drummond mandou-me um cartão, com seu timbre, que guardo até hoje.
Embora não seja comum autores falarem espontaneamente de seus escritos, quebro a regra e digo sem que me perguntem: gosto mais dele hoje do que quando saiu de casa. Estou toda lá, entranhada das coisas que vi/vivi no sertão da Paraíba... "O sertão é em todo lugar", como diz Rosa.
Sei: há o estranhamento de alguns arcaísmos e neologismos, que deve ter aborrecido alguns leitores. Ocorre que gosto de palavras. Sobretudo, naquele momento, gostei de trazer à luz do papel algumas que se tinham perdido no silêncio escuro do tempo. Onde foram proferidas, um dia? E por quem?... O mesmo interesse dos arqueólogos e antropólogos culturais.

(G. Rosa é mestre em ir ao porão e ao telhado das palavras)

O que restar incomunicável tome-se como non-sens, sem ser dadaísta, nem Finnegans Wake, nem semelhante a Cummings ( só em Trapézio e Outros Movimentos me deixei influenciar por ele, deliberadamente).
Arte pode -e até deve- ser lugar de estranhamento mesmo.
Quem tem que ser clara é a ciência... Eu gostaria muito, por exemplo, de entender a física quântica. Apaixona-me. Mas... Só pressinto o que seja.
E assim seja.

Alguns poemas de Sertania:

FACA

Faca:
Fina gomia
Que o fumo corta
Que arma o homem
E parte a melancia

Faca:
Fe(r)ro fio
Que arma o fumo
Que corta o homem
E reparte a melancia

DA PALAVRA

Toda palavra traz em si a não-palavra
O maior silêncio está por vezes
No que se diz, contido

O que se gera no vácuo
Inexoravelmente cumpre
A lei do habitar-se dele

Dizer é querer revelar o que é
E nenhum ser será
Tão perfeitamente exprimível
Que perfeitamente se diga

E quanta vez o dizer-se se desdiz
No escultórico trabalho De se plasmar a idéia

Dizer e não-dizer coexistem.

CAMINHÃO DE FEIRA

(...)
Arranca a fera
Corpo de açopau.
Como lagartas
Às traves se aderem
Os que na feira
Outra vez lagartas
Semelharão.
(...)
Depois a volta,
Depois os sacos
-ventres pontudos
Duros, indigestos,
No espinh/aço
Dos que agora
Riem sério:

Porque se repete
O doce amargo
Das rapaduras.
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