segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Jornalista Woden Madruga comenta "Memórias de Bárbara Cabarrús"

20/12/2008- Jornal WM-Tribuna do Norte-Natal-/RN

Saudemos, neste final de ano, Bárbara Cabarrús, grande mulher, mulher sertaneja de sangue espanhol, sangue quente, despertando ardências e desejos nos seus chamados de mulher valente, decidida, livre e sensual. Ler suas memórias, além de uma agradável surpresa, foi um prazer muito especial no embalo da brisa noturna de Queimadas de Baixa. “Memórias de Bárbara Cabarrús” é o romance de estréia de Nivaldete Ferreira, poeta, com incursões também pela literatura infantil e pelo teatro. Este seu livro é o grande acontecimento literário do ano nesta terra de Poti mais literária. Digo mais, com licença dos críticos literários (Em Natal, segundo o último levantamento da Unesco, vivem e atuam - e como atuam! - 171 críticos literários. Basta conferir numa passagem rápida pelo blogues e outros saites da vida), pois, com licença desses críticos, “Memórias de Bárbara Cabarrús” passa a ser um marco na literatura do Rio Grande do Norte que há décadas vaqueja um romancista. Eis que surge, então, uma romancista. Benza Deus.

livro de Nivaldete Ferreira saiu agora, editado pela Prefeitura de Natal (Fundação Capitania das Artes) e incluído na coleção “Letras Natalenses”. E aqui abro um parêntesis: A Coleção Letras Natalenses foi uma bela sacada de Dácio Galvão. Em menos de dois anos editou 16 títulos. Somente as reedições de “Uns Fesceninos”, de Oswaldo Lamartine de Faria, e “Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense”, de Rômulo C. Wanderley, já mereciam os foguetões. Mas tem mais: tem Nei Leandro de Castro, com “Autobiografia - poemas”, Adriano de Souza, com “Poesia (1998-2007)”, Márcio de Lima Dantas, com “O Sétimo livro de elegias”, Napoleão Paiva, com “Depois comigo”, formando um verdadeiro escrete da poesia natalense. E tem mais o livro de Marize de Castro, “Além do Nome” (ensaios); o de Cláudio Galvão, “Zila Mamede em sonhos” (ensaio), o de Osair Vasconcelos, “Encontros passageiros com pessoas permanentes” (crônicas), o de Deífilo Gurgel, “O Reinado de Baltazar - Teatro de João Redondo” (ensaio), o de Humberto Hermenegildo, “Velhos Escritos de Jorge Fernandes” (ensaio) e ainda o “”Autos de Natal”, (dramaturgia), reunindo textos de Moacy Cirne, Nei Leandro de Castro, Paulo de Tarso Correia de Melo e Marize Castro. O creme do creme.

Bom, agora aparece “Memórias de Bárbara Cabarrús”, Nivaldete nos encantando com sua linguagem poética e que se oferece na graça de um estilo que marca os grandes escritores, percorrendo uma narrativa que nos leva a personagens fortes, bem construídos, vivendo uma trama de conflitos existenciais no ambiente áspero, rude e austero dos sertões de antigamente. Personagens que não perderam o encanto da fala de sua gente e de seu tempo: “Eu gostava de ver as rendeiras concentradas espetando as linhas, jogando os bilros, produzindo o milagre da forma, acorcundadas sobre a grande bola de palha coberta de pano branco, feito uma mulher que só tinha ventre, um ventre que nunca esvaziava”

Bárbara vai debulhando suas memórias, que ela diz “Que são ácidos e brinquedos. Mais ácidos que brinquedos, talvez.” Lembranças da avó e da mãe e de outras mulheres da casa: “Minha avó tinha olhos esverdeados, mas seu olhar era azul escuro, forte, quase preto. Minha mãe tinha olhos cor de café, mas seu olhar era cor de rosa e tinha um aroma bom e suave, não doía em mim. Era como um pano macio”

Os personagens masculinos que vivem em Mira-Poço, fazenda dos Cabarrús, também são determinados e bem construídos:

“Evaristo era o vaqueiro-rei de Mira-Poço. Que parecia rei, parecia. Um rei de couro. Mais dos dias vinha ele, de polainas de couro taminado, cor de ferrugem, pele de cabrito sobre o peito presa atrás por duas tiras em “x”, calças de algodão, jaqueta, chapéu, botas e perneiras de couro vindo até às virilhas, chicote na mão direita. Lá vinha ele, vez por outra, esporas tilintando, passos vagarosos de quem não fazia questão de chegar. De gente, só a cara (...) E tinha o aboio, espécie de canto de ninar os bois, um canto lento como o andar deles, maneira de docilizá-los, de evitar que se dispersassem. Fora do serviço, Evaristo parecia que murchava. Os assuntos que lhe caíam da boca eram curtos, pedaços de frase, silabas de couro também (...)”

E tem ainda os desenhos eróticos de Bárbara: “Às vezes, nas noites claras, me arriscava a descer para o açude. E entrava. Para lavar o suor, que era também de angústia. Uma angústia antiga, talvez nascida comigo. Uma espécie de engasgo. Ficar nua me aliviava, principalmente dentro d’água. E mesmo fora de hora, que o perigo me fascinava. Que bebessem da água do meu corpo no outro dia. Uma noite Venâncio foi me espiar. Eu sabia que era ele, pois os outros trabalhadores me temiam, enquanto ele apenas fingia respeito. Seu olhar dizia coisas de desejo (...) Era vistoso, bem ombreado, pelo cor da terra seca, olhar pendido. Eu gostava quando ele passava por mim, bem lavado, cheirando a capim verde, o cabelo molhado esticado para trás, as mangas arregaçadas no muque... Talvez descendesse dos mouros que para esta banda do mundo vieram, junto com os portugueses, judeus e castelhanos. Uma noite chameio-o para as águas. Ele não recusou...”

De uns tempos pra cá ando lendo umas maravilhosas escritoras portuguesas: Lídia Jorge, Inês Pedrosa, Augustina Bessa-Luís. Aparece Nivaldete Ferreira, paraibana de Nova Palmeira, mesmas veredas de Zila Mamede (primas), natalense por escolha do coração, com o mesmo jeito e um acento que lembra essas três grandes mulheres lusitanas que vivem entre o Algarve e o Minho. Sua Bárbara Cabarrús enfeitiça o leitor.

Em tempo: Nivaldete poderia ter esticado seu romance por mais umas trinta, quarenta páginas. Bárbara tinha muito ainda o que contar...
(http://tribunadonorte.com.br/noticia.php?id=96187)

Nelson Patriota fala de "Memórias de Bárbara Cabarrús"

Sobre as “Memórias de Bárbara Cabarrús”

Nelson Patriota - Jornalista

A escritora Nivaldete Ferreira, paraibana de Nova Palmeira, como Zila Mamede, cumpre o singular destino de também ser poetisa norte-rio-grandense. Fosse apenas isso, repetiria, de algum modo, o fado da autora de Navegos. Mas, além de assinar o lírico Sertania, de 1979, Nivaldete segue uma trajetória própria que constrói e desconstrói sua obra literária, a cada vez levando-a a novo porto, mas a nenhum porto seguro. Ao menos, até agora.

Depois de Sertania, suas errâncias já a levaram às margens da literatura infantil (Psilinha Cosmo de Caramelo, 1997), ao teatro (Entre o carrossel e a lei, 2007) e, agora, chega ao romance, com Memórias de Bárbara Cabarrús (Letras Natalenses, Natal: 2008). Trata-se de um romance de gênero? Não arriscaríamos ir tão longe, posto que o gênero esteja presentemente encastelado na academia brasileira, onde reina quase absoluto. Mas o que de mais moderno sobressai na construção da personagem em primeira pessoa desse novo livro de Nivaldete é justamente a transgressão e o inconformismo da narradora. Saliente-se, porém, dado o pendor para a analogia de que toda literatura padece, que a rebeldia marcando a narrativa confessional de Bárbara Cabarrús nada tem a ver com a agressiva postura da heroína tardia de Rachel de Queiroz, apresentada em Memorial de Maria Moura.

Um episódio de infância talvez servisse de “pretexto freudiano” para a rebeldia ostentada pela personagem, à qual falta um referencial autóctone: a personagem ter-se-ia diferenciado do modelo feminino do seu meio devido a uma acusação de homicídio que teria praticado ainda na infância. Bárbara nega veementemente tal crime, e tenta convencer o leitor de sua inocência. Mas a ex-escrava Fausta, que a conhece desde a infância, insistirá com a acusação até o fim.

A explicação que a narradora apresenta do seu comportamento é, porém, de outra ordem: teria herdado a rebeldia de uma antepassada de estirpe espanhola. E colocado ante essas duas alternativas, cada leitor arcará com o ônus de uma escolha, pois, como reza a máxima alemã, “quem tem escolha, tem tormenta”.

Manipulando com desenvoltura o rico manancial de lembranças que remontam a sua infância nova-palmeirense, Nivaldete Ferreira escreve seu romance regionalista segundo os cânones da tradição, mas acrescentando um diferencial próprio. Trata-se daquilo que constitui o espírito de nossa época, seu Zeitgeist: a inevitável transpiração das idéias de gênero, que contagiaram, nos últimos anos, os estudos sociológicos e chegaram finalmente aos estudos literários.

Em vista disso, sua personagem é simultaneamente feminina e feminista, numa dualidade que busca a integração, mas não a conclui. O andamento da narrativa, feita conforme um mosaico no qual cada peça vai ampliando a vida de Bárbara e seu entorno envolve romances, intrigas, questões de herança (como no Memorial, de Rachel) e alternâncias e vivências entre o campo e a cidade.

Em vários momentos, Bárbara entrega o protagonismo do romance que vive e narra a personagens outros, portadores de segredos, mistérios e experiências singulares. Essa galeria inclui, por exemplo, Caco da Silva, o que desapareceu com a metade de uma boiada.Não poderia deixar de incluir o Idor, aquele viajante afortunado que, interpelado por Bárbaro aonde ia, simplesmente respondeu: “Não sei. Vou”, e seguiu adiante em sua cavalgadura. Inclui também o pai da narradora, que protagoniza um momento de refluxo do livro ao converter-se de coronel em bispo em cumprimento de uma promessa. A essa condição ele foi se acostumando pouco a pouco até viver o sacerdócio por inteiro, em detrimento do coronel.

Esse conjunto de narrativas quase independentes testemunha o talento criador da autora, que poderia tê-las convertido num livro de contos, seguramente, mas optou pela forma mais rigorosa do romance.

Quanto à diversidade de interesses de que Nivaldete tem dado mostras, isso não indica, necessariamente, indecisão ou indefinição. Pode simplesmente significar que a condição de escritor neste início de século exige ecletismo e abertura para o novo, aí incluídos assuntos e gêneros literários os mais diversos.
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