segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Nelson Patriota fala de "Memórias de Bárbara Cabarrús"

Sobre as “Memórias de Bárbara Cabarrús”

Nelson Patriota - Jornalista

A escritora Nivaldete Ferreira, paraibana de Nova Palmeira, como Zila Mamede, cumpre o singular destino de também ser poetisa norte-rio-grandense. Fosse apenas isso, repetiria, de algum modo, o fado da autora de Navegos. Mas, além de assinar o lírico Sertania, de 1979, Nivaldete segue uma trajetória própria que constrói e desconstrói sua obra literária, a cada vez levando-a a novo porto, mas a nenhum porto seguro. Ao menos, até agora.

Depois de Sertania, suas errâncias já a levaram às margens da literatura infantil (Psilinha Cosmo de Caramelo, 1997), ao teatro (Entre o carrossel e a lei, 2007) e, agora, chega ao romance, com Memórias de Bárbara Cabarrús (Letras Natalenses, Natal: 2008). Trata-se de um romance de gênero? Não arriscaríamos ir tão longe, posto que o gênero esteja presentemente encastelado na academia brasileira, onde reina quase absoluto. Mas o que de mais moderno sobressai na construção da personagem em primeira pessoa desse novo livro de Nivaldete é justamente a transgressão e o inconformismo da narradora. Saliente-se, porém, dado o pendor para a analogia de que toda literatura padece, que a rebeldia marcando a narrativa confessional de Bárbara Cabarrús nada tem a ver com a agressiva postura da heroína tardia de Rachel de Queiroz, apresentada em Memorial de Maria Moura.

Um episódio de infância talvez servisse de “pretexto freudiano” para a rebeldia ostentada pela personagem, à qual falta um referencial autóctone: a personagem ter-se-ia diferenciado do modelo feminino do seu meio devido a uma acusação de homicídio que teria praticado ainda na infância. Bárbara nega veementemente tal crime, e tenta convencer o leitor de sua inocência. Mas a ex-escrava Fausta, que a conhece desde a infância, insistirá com a acusação até o fim.

A explicação que a narradora apresenta do seu comportamento é, porém, de outra ordem: teria herdado a rebeldia de uma antepassada de estirpe espanhola. E colocado ante essas duas alternativas, cada leitor arcará com o ônus de uma escolha, pois, como reza a máxima alemã, “quem tem escolha, tem tormenta”.

Manipulando com desenvoltura o rico manancial de lembranças que remontam a sua infância nova-palmeirense, Nivaldete Ferreira escreve seu romance regionalista segundo os cânones da tradição, mas acrescentando um diferencial próprio. Trata-se daquilo que constitui o espírito de nossa época, seu Zeitgeist: a inevitável transpiração das idéias de gênero, que contagiaram, nos últimos anos, os estudos sociológicos e chegaram finalmente aos estudos literários.

Em vista disso, sua personagem é simultaneamente feminina e feminista, numa dualidade que busca a integração, mas não a conclui. O andamento da narrativa, feita conforme um mosaico no qual cada peça vai ampliando a vida de Bárbara e seu entorno envolve romances, intrigas, questões de herança (como no Memorial, de Rachel) e alternâncias e vivências entre o campo e a cidade.

Em vários momentos, Bárbara entrega o protagonismo do romance que vive e narra a personagens outros, portadores de segredos, mistérios e experiências singulares. Essa galeria inclui, por exemplo, Caco da Silva, o que desapareceu com a metade de uma boiada.Não poderia deixar de incluir o Idor, aquele viajante afortunado que, interpelado por Bárbaro aonde ia, simplesmente respondeu: “Não sei. Vou”, e seguiu adiante em sua cavalgadura. Inclui também o pai da narradora, que protagoniza um momento de refluxo do livro ao converter-se de coronel em bispo em cumprimento de uma promessa. A essa condição ele foi se acostumando pouco a pouco até viver o sacerdócio por inteiro, em detrimento do coronel.

Esse conjunto de narrativas quase independentes testemunha o talento criador da autora, que poderia tê-las convertido num livro de contos, seguramente, mas optou pela forma mais rigorosa do romance.

Quanto à diversidade de interesses de que Nivaldete tem dado mostras, isso não indica, necessariamente, indecisão ou indefinição. Pode simplesmente significar que a condição de escritor neste início de século exige ecletismo e abertura para o novo, aí incluídos assuntos e gêneros literários os mais diversos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escreva aqui na parede seu comentário. Venho ler depois.Obrigada.

Divulgue seu blog!
Informe o código: 956
Faça pontos, ganhe brindes