sexta-feira, 27 de março de 2009

O retorno das pedrinhas...

Para Bosco Sobreira

Osho diz algo que, à primeira vista, espanta: há coisas que morrem quando vêm à luz.
Estranho. Até então não havia me passado pela cabeça essa possibilidade, pois tudo tende a nascer diante da luz.
Ele usa como analogia as raízes das árvores, que, uma vez arrancadas e deixadas à superfície, secam, morrem... Com essa imagem, refere-se, entretanto, a coisas do espírito, da mente - os nossos malassombros, em nordestinês: aquelas coisas que (nos) aconteceram um dia e, impotentes frente ao seu efeito devastador, mandamos para "os grotões soturnos da mente", como diz o poeta Bosco Sobreira.
Pois bem: ao falar da pedra vaca-e-avó onde brinquei na infância, senti de novo o estremecimento experimentado quando de sua explosão, desse petricídio tão sem importância para muitos.
O fato veio à luz da fala, à superficie da escrita, mas não 'morreu' logo, não morreu ainda. Veio de novo o silêncio, semelhante àquele que me tomou após o estilhaçamento daquela criatura mineral, espiritual, amorosa.
Tanto foi assim qu abri este blog, várias vezes, para uma nova postagem. E cadê as palavras?... Senti-me um pouco como a criança atrás da porta, esperando que o bicho vá-se embora.

O que fica disso tudo?
Talvez este aprendizado: a necessidade do desapego. Aprender a ter sem ter (certas coisas). Ver o intangível como uma espécie de presença amiga, sem nenhuma melancolia. Transformar o perdido em lenda. Praticar o amor fati.
Fazer como no verso de Paul Celan: "O perdido é imperdido./ O coração, fortaleza."
E perdoar. Que perdoar é doar. Quem doa fica menos pobre.

E assim seja. Porque hoje é sexta e esta é a paixão.

2 comentários:

  1. Minha cara Poeta,
    Você há de perdoar o imperdoável. (Em tua escrita a compaixão se deixa ver, e ela, a compaixão, é o primeiro dos poucos caminhos para a libertação.) É que eu me detive tanto no texto de hoje que acabei por não "ver" o que se encontra logo abaixo dele. Foi a necessidade de voltar a encontrar suas palavras que me fez "ver" essa pérola, esse regalo, essa ternura.
    Venho "falando" tanto em gratidão em meus comentários e agora a palavra já parece não ter a mesma força.
    Mas, só ela pode expressar o que sinto, além da honra de ser merecedor de um texto seu.
    Um abraço afetuoso, Poeta!

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  2. Precioso retorno, Bosco. Afinidades irrecusáveis entre A Pedra... e o Lápis. Seus textos me tomam, também. Esse Oriente sutil em pleno nosso-nordeste. I Ching: pra quem tem sede em qualquer lugar. Honra-me também tê-lo como leitor.

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