domingo, 22 de março de 2009

Uma pedra vaca-e-avó


Em Nova Palmeira-PB, quando as pessoas queriam contar alguma coisa do seu tempo de criança, diziam "no tempo d´eu menino/a...".

Pois bem, no tempo d´eu menina, havia , em uma das entradas daquela rua-cidade onde nasci, uma pedra numa forma que lembrava uma vaca deitada. Perto dela, outra menor, que devia ser o bezerro e servia de escada para se chegar ao lombo da mãe. A gente brincava lá, todos os dias. Batia pedacinhos de tijolo nas barrocas lisas que foram se formando, como pilõezinhos, ao longo dos anos. Isso era bater tempero pra uma comida imaginária. Mas como nutria!

Era uma mistura de pedra, vaca e avó. Porque avó deixa tudo, quase tudo. Aquela pedra-vaca-e avó deixava. A gente subia, batia tempero, descia, subia... E às vezes vinha alguém contar uma história. Ouvi esta, de Antônio Bezerra, tio de minha mãe:
-Essa menina, houve um homem chamado Camonge, que era muito inteligente. Tão inteligente que adivinhava. Um dia, um amigo quis provar que era capaz de enganá-lo. Então levantou essa pedra aqui, colocou uma folha de papel-de-embrulho embaixo, recolocou a pedra. Quando Camonge chegou e se sentou nela, o amigo perguntou: "Não sente nehuma diferença nessa pedra?". Camonge fez "hummm... Sinto, sim. Uma diferença muito, muito pequena: da finura de uma folha de papel-de-embrulho." O tio acabou de contar e saiu rindo... E eu acreditei piamente. Até hoje acredito.
Difícil foi acreditar no que disseram, um dia, quando eu, já moça e penteando distraidamente os cabelos, escutei uma chuva de pedrinhas em cima das telhas de casa.
-Mas o que é isso???
-Dinamitaram a pedra... Vão fazer o prédio da prefeitura ali.
Não, não, protestei em silêncio, a mão suspensa, segurando o pente. Fiquei silenciosa por horas e horas. Sequer pude chorar. Era uma dor assim, seca.
E ainda escutei a queda das últimas pedrinhas. Parecia uma despedida, um choro de quem, sendo pedra, não tinha um coração de pedra, como aqueles que a dinamitaram, sem mais nem menos. E não pude, ninguém pode fazer nada... Para muitos, foi uma festa. Pra mim, um luto que carrego até hoje. Um luto meio branco, da cor dela, da pedra. Afinal, não se tratava de uma pedra qualquer. Não era um mero aglomerado de calcário. Nem era "a minha pedra". Coisas assim não são de ninguém, são da vida.

Era uma pedra vaca-e-avó.
Guardava nossos segredos, nossas fantasias.

Tinha alma.

Tinha corpo.

Deve ter doído nos nervos do Universo...

Ah, o progresso... Ele tem lá suas medonhezas...

7 comentários:

  1. Sua pedra. Senti algo semelhante com uma árvore que havia na beira da lagoa e que servia de balanço, sombra, colo, no fim das tardes. belo dia, os "progressistas" cortaram-na para fazer um calçadão em volta da lagoa... lindo o seu texto!

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  2. "Tinha alma. Tinha corpo".
    Uma pedra vaca e avó. Uma pedra.
    Que belo texto!
    (Tenho um critério muito pessoal para valorar um texto, um quadro, uma música, uma obra de arte, enfim: se me emociono, gosto.)
    Você me deu a emoção.
    Por ela e por seu talento, minha gratidão.
    Abraços.

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  3. Vim em busca de novas postagens, novas emoções.
    Na falta, volto a ler o que teu talento nos dá.
    Um abraço afetuoso.

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  4. Aqui há uma pedra escorregadia. É um grande afloramento de granito por onde se podia escorregar com uma velocidade estonteante. Podiamos também imaginar as gerações e gerações que já tinham ali escorregado para ela ser tão lisa. Aqui há tempos o dono da propriedade resolveu tirar todas as pedras para alisar a terra e foi pô-las por cima da pedra escorregadia. Agora está invisível e impraticável. É por estas e por outras que cada vez aprecio mais a preguiça e os preguiçosos... ;)

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  5. esse texto me fez voltar ao passado e sentir saudades....bonito,poético!!

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  6. (...)Na pedra outra lua se formava / quando a lua na pedra brilhava... do poema Chuva de Pedras.

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