segunda-feira, 6 de abril de 2009

Doce de nuvem com...


Meus dons culinários são limitados. Gostaria, pelo menos, de ser uma boa doceira, como a bela Cora Coralina (1889-1985), descoberta também como poeta já depois dos setent´anos. Aliás, 70 parece muito com 10. Era a idade que ela tinha aos 70... E era boa cozinheira. Conhecia a alma dos alimentos.
"Milho verde. Milho seco.
Bem granado, cor de ouro.
Alvo. Às vezes vareia,
- espiga roxa, vermelha, salpintada."

Já confessei, não tenho esse dom. Minha pequena glória, nesse campo sem colheita, foi ter inventado um certo doce...
Conto a historinha: havia um coqueiro no pequeno quintal de casa. Comprei a muda como sendo de coqueiro anão, mas o anão agigantou-se, subiu nas (próprias) pernas de pau, resolveu espiar o mundo, o nascer do sol, o crepúsculo -que deixava suas tiras de folhas brilhantes e douradas, como se toda tarde ele fosse uma alegoria de carnaval.
Claro, já que não podia sair do lugar, tinha que crescer, se esticar, conversar com os passarinhos, pegar vento, espiar as goiabeiras do vizinho.
A verdade é que ele não só cresceu como deu cocos em profusão. Um coqueiro muito mãe, o mais mãe que vi até hoje...
Comecei a temer que algum filho seu, bem maduro, caísse na cabeça de alguém. Na minha, inclusive. Então chamei um senhor que costumava podar a árvore da calçada e contratei a retirada dos cocos. Ele não deixou um. Ao todo, 130, entre verdes, maduros e secos (sim: 130, 10x13). Uns estavam tão secos que pareciam múmias de brinquedo.
Dias antes eu havia feito um doce, muito tenro, com a laminha branca de uns bem verdes. Para dar um 'toque especial', coloquei passas e enchi um vidro.Contente do meu feito, vez por outra girava o vidro e via a miúda sombra negra das passas passando, aqueles pontinhos escuros subindo e descendo a cada rodada que eu dava no vidro.
Não me contive e fui mostrar ao senhor que cortou os cocos.
-Com tanto coco, vou fazer muito doce desse aqui, seu Francisco!
-Que doce esquisito!... E esses bichim preto aí dentro?...
-O senhor já viu pássaros voando bem alto lá no céu, misturados com as nuvens, não viu?...
-Já vi demais. A gente vê só o pontim preto.
-Pois esse doce aqui é... Doce de Nuvem com Pássaras!
-Doce de... de que mesmo?!... De que com que?!...

Sem resposta minha, ele sorriu irônico e disse que nunca mais ia cortar coco de ninguém, pois estava aprendendo muita coisa esquisita...

De fato, ele nunca mais tocou a campainha lá de casa...




5 comentários:

  1. Doce de Nuvem com Pássaras:
    Teu texto.
    Escrever talvez seja isso: fazer de nossa "laminha" um doce que alimenta a alma dos outros:
    Teu texto!
    Um abraço afetuoso, Poeta.

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  2. Um texto com sabor de poesia...
    Ah, sim, apesar da "divulgação" nos comentários, publicarei seus 10 MAIS na próxima semana, considerando o emeio que você enviou (não comparei as duas listas, mas, grosso modo, não vi maiores diferenças). Só uma pergunta: quem é Mário Cézar Rasec (é esse mesmo o nome, escrevo de memória)?
    Um abraço.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Olá, Nivaldete.
    Obrigada pela visita ao meu blogue e pelas palavras gentis ali deixadas.
    Estou aqui me deleitando com seus escritos, que são fantásticos!Parabéns!
    Um abraço.

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