quarta-feira, 29 de abril de 2009

Feira de falas

(só postado neste 1º de maio)

Estão acabando as feiras belamente feias.
Feiras de mesas de pernas tortas e cobertura tosca, de chão escorregadio, passagens apertadas, que obrigam as pessoas a se roçarem, o que (quase) sempre produz uma troca de olhares, não importa se de desculpas ou impaciência. Mas elas se olham... Nada de olhar de cinema ou novela, mas esse outro, de gente que se acotovela, não gosta, ri ou se encolhe com sua bolsa. E esse olhar é um alimento grátis que levam consigo, para além de verduras, frutas, grude, ervas e alguma bugiganga.
Feirinhas 'medievais', bagunçadas, atropeladas, cheias de garotos perguntando "quer um carregador? Eu posso". "Cuidado com aquele ali, é um ladrãozim"... "Melhor comigo, que tenho um carro de pedreiro"... E as outras falas. "Aqui, freguesa! Baratinho, pra acabar!"... "Cinco por um real"...
Uma barraca de coentro, outra de bonequinhas chinesas, outra de vestidos à moda indiana, outra de ferramentas. A próxima, de carne de sol. Depois, talvez uma de carne de lua, tal é a mistura.
Mas feiras de bairro, mesmo 'modernizadas', ainda são países, viagens. Pelo menos é a sensação que tenho. E gosto, sobretudo, da feira de falas. Do caos falante. No meio dele, vez por outra se ouve alguma coisa que um poeta talvez levasse muitos cafés pra 'achar".

Duas feirantes -ouvi- conversavam alto. Uma vendia legumes. A outra, mel de abelha. A dos legumes, que parecia ter amargado alguma dor, pegou um jiló, ergueu perto do rosto da vizinha e disse "a vida, minha amiga, é isso, é jiló puro". A outra, que havia quebrado uma garrafa de mel -e tentava aproveitar o que podia, lambendo os dedos literalmente melados-, deu uma risada e falou bem falado: "a vida tem mel e é muito! O dom é saber se lambuzar".

Eu -que já não gostava do pobre jiló, agora objeto de metáfora existencial- ofereci a ela a minha mão em concha, ela derramou uma porção de mel. Agradeci e saí. Me lambuzando, é claro...

Feira tem de tudo. Até filosofia do jiló e do mel. E da melhor.

7 comentários:

  1. Olá professora Tenho acompanhado sempre os textos do seu blog e gostado muito, pois estão sempre captando as sutilezas do cotidiano, nos levando a olhar com outros olhos essa vida tão rica que passa diante de nós.
    Deixo o edereço do meu blog para compartilhar algumas produções que tenho ensaiado.

    www.aquiessencia.blogspot.com

    Bjos

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  2. Obrigada pelo agrado. Esse retorno anima a gente a continuar descobrindo "as sutilezas do cotidiano"... Há muita riqueza aí... Verdadeiras aulas sem livro... Vou ver seu blog, sim, com prazer. Obrigada e apareça sempre!

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  3. Ah! Que lindo! :)
    Muito obrigada!

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  4. Oi professora. Obrigada pelos comentários, é sempre bom ter a troca e a afirmação das pessoas mesmo. Vamos construindo com esses multiplos olhares né...
    Eu vi sim o documentário que a senhora citou, o "quem somos nós?", é maravilhoso! Depois que o vi, descortinaram-se muitas dessas coisas que venho especulando. Estou naquela fase de questionamentos e descobertas, mas acredito que todos estejamos, não é? Nos seus textos quantas coisas novas se revelam pela observação...

    Beijos

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  5. Estão acabando as feiras belamente feias.
    Não só concordo como fico feliz em ler em suas palavras o que sempre penso quando "viajo" pelas feiras que teimam em resistir às catedrais do consumo.
    Um abraço, Poeta.

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  6. Aqui em São Paulo as feiras agora são regadas de silêncio e produtos poucos. Legumes sem graça e vendedores que não sabem mais o que fazer com as mãos. O psiu ordenou e a ordem se cumpre. Acho que o povo se satisfaz com aquilo que não se sabe. "Ah moça bonita não paga, mas também não leva" ficou no tempo de quem percorria a extensão inteira da feira que ocupava bem mais que uma rua...
    Excelente post

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