domingo, 12 de abril de 2009

Sensibilidade

Como professora, tenho que trabalhar com teorias, claro. Ou não sou professora... Mas, como pessoa (inevitável esquizo...), gosto de esquece-las para poder prestar atenção à vida, às coisas da rua, aos dizeres dos sem-diploma, aos gestos dos chamados simples. Aprendo muito aí, também, nesse livro do mundo.
Faz anos, eu saía de um supermercado. Na esquina, o carro da coleta de lixo, um carro azul mercedes benz, estava parado. Os garis faziam seu trabalho e, até aí, nada demais. O demais foi o que percebi no para-choque da máquina: uma cabeça de boneca metida na bola de metal prateado, aquela que serve para rebocar o carro quando ele enguiça. Algum dos garis deve te-la tirado do lixo e, enternecido, colocou-a lá, bem na frente do caminhão que carregava os resíduos do consumo da cidade. Ela agora passava a ser uma companheira dessas viagens lentas, cheias de paradas. Viagens nada glamurosas, é verdade, mas é certo que ela trazia algum encanto à desprestigiada tarefa do gari. Olhei de perto: era uma imitação da Barbie, era uma Barbie de pobre. Que importa?... Estava lá, esplêndida..., os cabelinhos de nylon já ralos, raros. Um olho só, pestanudo e azul-molhado (bonecas também envelhecem... E talvez criança não goste de bonecas cegas. Não sei. Hoje, principalmente, em tempos de botox, silicone, malhação..., não sei).

Pois ali estava toda uma aula de sensibilidade. Assim mesmo, sem investigação científica, sem conceitos, sem congressos.

Tive vontade de perguntar aos garis qual deles havia feito aquilo. Mas, ciente de que faria inconveniente barulho na alma do autor do gesto, fui embora. Bem caladinha...
Barulhos? Só os teóricos. Que nunca são capazes de acordar a sensibilidade de ninguém.

7 comentários:

  1. Não nos vimos, nunca trocamos uma palavra, mas eu sinto como se a conhecesse desde sempre. Tudo isso seria dispensável, não fosse a necessidade de expressar minha satisfação com um texto que eu gostaria de ter escrito. Porque é exatamente assim que sinto, é exatamente assim que penso.
    "Barulhos? Só os teóricos. Que nunca são capazes de acordar a sensibilidade de ninguém."
    Eu nunca escrevi esta frase, mas é o que sempre pensei.
    Aproprio-me dela?
    Um abraço afetuoso, Poeta.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. há uns anos fizemos um espectáculo de teatro a que tive a inspiração de chamar "sonhos e lixo" e, desde então, esta associação ocorre-me às vezes,

    bem hajas

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  4. Parece que estamos mesmo em rede. Rede de pensamentos, experiências... São convergências, num mundo tomado pelas divergências.Esses 'acontecimentos' nos salvam de alguma coisa... Beijos.

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  5. Moça, esse teu olhar fez barulho na minha alma.

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  6. Sheyla, espero que tenha sido um som suave... quase imperceptível... Beijão.

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  7. Oh, Bosco, que bem me fazem suas palavras... Isso faz cessar a sensação de solidão nos corredores da net. É o eco, a ressonância.Fico muito feliz pela afinidade. Esse é o verdadeiro encontro, a verdadeira comunicação, mesmo na virtualidade. Quanto à frase, pode disseminá-la à vontade. Somos dispersores dessa energia que sente/pensa/diz. Se alguém recolhe, então é como o pólen, que viaja no vento e cai em terra fértil, não nas pedras. Enfim, a vida tem boas surpresas. Um grande abraço.

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