sábado, 18 de abril de 2009

Precária teoria da saudade





Um dia me peguei dizendo, num desabafo sincero e repentino: "estou com muita saudade..., mas acho que é de mim". Aconteceu como um insight. Veio bem de dentro e eu disse. E era verdade. Quem escutou riu e respondeu: "nunca ouvi falar desse tipo de saudade, mas talvez exista mesmo".
Pois comigo acontece assim: tenho minhas ciências particulares, e essa "saudade de mim" deve acontecer com muitas pessoas, com a maioria até, sem que os acometidos se dêem conta. Talvez até achem que estão sentindo falta de outra pessoa ou de alguma coisa especial. Talvez telefonem para muitos amigos, talvez resolvam sair, ir a um restaurante, bar ou cinema. Talvez se distraiam dessa saudade inconsciente, substituindo o estar-a-sós-consigo-um-pouco pelas conversas em grupo, pois o sentimento da falta de si não é de fácil entendimento, pode inquietar e trazer algum sofrimento.

Acho que o processo é mais ou menos assim: passamos dias e dias fazendo as coisas da obrigação. E mesmo que gostemos do que nos cabe fazer, há algo que precisamos fazer só por nós, vez em quando. E esse fazer pode até ser não fazer nada... Planar, como o pássaro, que fica de asas abertas, parado no ar, por um tempo. Talvez, nesses momentos, ele viva uma intensa intimidade consigo mesmo, ele-e-ele, numa espécie de não-existência que é, paradoxalmente, o máximo de existência. Mas nós, seres ditos sociais, constantemente avaliados pelas aparições públicas, pelo número de amigos com quem saímos ou que visitamos, temos um certo pudor, se não vergonha, de escolher ficar em casa, tomar um banho, vestir uma roupa velha e confortável, deitar no chão ou na rede, ficar em silêncio, não ler nada, não pensar em nada que signifique tarefa-a-cumprir- amanhã, pendências e assemelhados. Ou então fazer algo que o nosso espírito pede: escrever alguma coisa, compor, inventar.
"A paz esteja contigo", para mim, é isso também. Paz é aliança, pacto. O pacto de estar consigo. De não rondar fora de si sempre, usando aqui uma expressão de Nietzsche.
Assim não nos extraviamos de nós. Não cometemos a indelicadeza de ignorarmos a nós próprios, se é que não se trataria mesmo de um tipo sutil de autoviolência que, tornada habitual, talvez nos leve um dia ao psicanalista ou ao psiquiatra, enquanto os violentados fisicamente por outros vão às delegacias.

(Acho até que certas depressões são o resultado de uma pura saudade-de-si que não foi percebida e satisfeita. Claro, um deprimido costuma se isolar, mas isso, na minha precária teoria, não é estar consigo, não é estar planando, em leveza. É estar ocupado, pesado de estranhezas, incapaz de cantarolar uma canção da infância...)

E saciada a saudade-de-nós, então é mais verdadeira e bonita a saudade que sentimos dos outros.

4 comentários:

  1. Excesso de racionalidade + incapacidade de estar sozinho consigo próprio = depressão.
    A surdez para conosco próprio, a não leveza, a prepotência do intelectualismo (ou falso intelectualismo) podem substituir o primeiro termo da equação.
    Gostei muito de seu texto, minha cara Poeta.
    Concordo com tudo que está exposto, bem disposto.
    Bom te ler.
    Um abraço afetuoso.

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  2. Já senti muitas saudades de mim, querida. Encontrei muita correspondência nesse texto. Beijos, bom vir aqui!

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  3. Olá Nivaldete! Acho que este texto tem a ver com este post:

    There seem to two kinds of searchers: those who seek to make their ego something other than it is, i.e. holy, happy, unselfish (as though you could make a fish unfish), and those who understand that all such attempts are just gesticulation and play-acting, that there is only one thing that can be done, which is to disidentify themselves with the ego, by realizing its unreality, and by becoming aware of their eternal identity with pure being. - Fingers Pointing Toward the Moon by Wei Wu Wei

    Bem hajas!

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  4. Venho acompanhando seus textos e é tão maravilhoso que me calo por um bom tempo...basta o silêncio para falar.....
    Abraços!
    Thatiana.

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