quarta-feira, 27 de maio de 2009

É preciso ser gentil com a dor pessoal também


Estou aqui me lembrando do Profeta Gentileza, aquele homem barbudo lá do Rio de Janeiro, vestido com uma túnica, escrevendo mensagens de amor em pilastras da cidade e pregando isso mesmo: a gentileza.

Tornou-se praticante e defensor público das atitudes gentis a partir de uma contingência dolorosa: ao saber do incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói, perto do Natal de 1961, pegou um de seus caminhões e correu para ajudar a salvar pessoas.
Viveu sua epifania naquele momento. Como um cego de repente vê...
Nunca mais foi empresário de transportes... Plantou flores no lugar do incêndio. Tornou-se um andarilho da paz, um "louco de Deus", transportando agora apenas estandartes com palavras de amizade.

Então me ocorre pensar que precisamos ser gentis com a nossa dor também. Deixar que atravesse o nosso corpo sem tentar sufocá-la e sem nos apegarmos a ela.

A dor pode ser escura, mas o sol é teimoso como a água: acaba entrando por uma fresta mínima...

É... Essa talvez seja a gentileza mais difícil...

terça-feira, 26 de maio de 2009

Silêncio...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Quando a morte joga xadrez sozinha

Um dos contos de “Inventário de Pequenas Paixões”, de Geraldo Maciel, abre-se assim: “Dr. Abílio sempre jogava xadrez à sombra do fícus com seu parceiro imaginário. Jogava sozinho por falta de quem ali entendesse aquela arte estratégica de tão variadas possibilidades, tão traiçoeira nos ataques de viés, nas arremetidas saltitantes, nas combinações de movimentos.”
A morte, às vezes, é essa arte “tão traiçoeira nos ataques de viés”. Às vezes é um jogo de xadrez jogado sozinho pela própria. Ela e ela. Não há um médico por perto, não há tempo. Ela assim resolve: nocaute no coração. E fez isso com Geraldo Maciel, paraibano de Nova Palmeira, 59 anos, doutor em engenharia de produção pela USP, professor da Universidade Federal da Paraíba, mas, sobretudo, escritor que vinha se consagrando nos meios literários do nordeste e do Brasil por inteiro.
Publicou o primeiro livro – “Aquelas Criaturas tão Estranhas”- pela Editora Rio Fundo-RJ (um projeto de Assis Brasil), em 1995. Depois, “Inventário de Pequenas Paixões”, 2000, e “O Concertista e a Concertina”, ambos pela Editora Manufatura (selo do próprio autor). Recentemente, recebeu o Prêmio Literário Cidade do Recife, com o livro “Peccata Mundi”, prestes a sair pela Rocco, além de mais dois.
Geraldo foi um apaixonado pela leitura, desde cedo. Me lembro dele, um dia, de férias em Nova Palmeira, então uma cidade-rua-avenida de mão dupla, nossas casas olhando uma para a outra... Estava doido pra ler Clarice Lispector. Chegou perto e me perguntou: -Você tem “A maçã no escuro”?... Eu não tinha. Ofereci Camilo Castelo Branco, “Amor de Perdição”. Ele não se interessou, queria Clarice. E saiu olhando pra lugar nenhum... Acho que, nessa época, ele estudava em Catolé do Rocha (fez lá o antigo ginasial). Mas gostava também de ouvir os causos contados por Raminho de Zezé. Ria-se a valer, pois Raminho era uma mistura de contador de causos e humorista. Deve ter absorvido algo dessas narrativas orais, do mesmo modo como Guimarães Rosa aprendia com o sertanejo das Minas Gerais.
Mas Geraldo tempera a sua escrita também com um sabor de Gabriel García Márquez. Prosa da melhor. Enfim, se a morte jogou esse xadrez consigo mesma, nós jogaremos esse outro, dizendo que o seu coração continua pulsando nos livros que deixou.
Há poucos meses, convidou-me para ir a João Pessoa, participar de um projeto literário. Dois ou três e-mails. No último, escrevi (sobre ele):

O menino contava. Contava as casas da rua-quase-cidade. Contava as luas, que eram só uma, mas o olho da imaginação via às dezenas. Lua nova, lua velha, lua moça, meia-lua, lua-e-meia, lua vazia, lua cheia. Até a lua da poça d´água...Tanta lua! Contava nos dedos e contava os dedos. Contava os gols que (não) fazia nas peladas com outros meninos. Contava os dias de ir, os dias de vir. Quando cresceu, foi contar o incontável. Foi quando se tornou contista. Dos bons.

domingo, 24 de maio de 2009

Sobre Milton Siqueira (resposta à postagem O poeta do Grande Ponto)

Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto, criador do interessante blog Natal de Ontem, tentou deixar informações sobre Milton Siqueira (v. postagem abaixo) em Comentários, mas, por razões desconhecidas, seu texto -rico em detalhes- não apareceu aqui. Diante disso, mandou-me por e-mail e aqui o reproduzo, agradecendo pela atenção.

" “Um poema por uma moeda”! - dizia com sua voz gutural Milton Homem Siqueira, o bardo libertário e verdadeiro, produzindo versos soltos, alucinantes e cheios de vontades.
Rabiscava-os nas folhas de papel almaço a caminho de Areia Preta ou no sentido inverso, a caminho do Grande Ponto, nas esquinas, dentro de igrejas ou nas praças.
Morava no Morro do Pinto em Areia Preta.
Maltrapilho, pedinte vitalício, olhos refratários. Ajuizava e azucrinava quem não soubesse do nu e do cru da própria vida. No café "São Luiz", tragava todos os fantasmas, medos e assombrações da província.
Atacava, com o seu verbo solto, quem lhe apunhalasse desatinadamente. Confessor-mor da dor de quem pede o perdão e de quem trai o próprio sol. Solitário, beberrão e ermitão, navegava com os anjos mentais, atordoando diálogos interplanetários.
Vagando na noite feito sombra de nós mesmos, não se dispunha ao convívio fácil; gostava mais de besuntar seus cigarros loucos e roucos. Por pouco, em um dia, não extravasou toda a agonia de uma procissão cristã. Costurando corpos e com sua voz característica, foi fazendo pilheria do que encontrava pela frente.
Viveu como poucos. Morreu como todos nós morreremos. Deixando sua marca como uma pessoa ímpar."

sábado, 23 de maio de 2009

O poeta do Grande Ponto

Até fins da década de 1970, via-se sempre, numa das esquinas da rua João Pessoa ou Cel. Cascudo, ali pelo Grande Ponto (Natal-RN), um homem mal vestido, roupa preta, barba crescida e grisalha, conduzindo uma mochila com alça de corda. Estava sempre sentado no batente de uma porta fechada, parecendo um anjo velho e surrado, abençoando a rua. Pelo menos enfeitando. Mais que enfeitando, humanizando o quarteirão com lojas grudadas umas às outras -óticas, sapatarias, farmácias, lanchonetes...
Lembrava também um pássaro escuro que vinha ao chão comer. Não, não era bem assim. Vinha alimentar também: trocava poemas -escritos na hora- por algum dinheiro. Qualquer dinheiro. Ou dava o poema, simplesmente. Cheguei a 'comprar' alguns, que infelizmente não guardei. Sequer me lembro dos conteúdos. Na verdade, a poesia estava mais no seu gesto, nessa diferença, nesse insólito. E mesmo maltrapilho, tinha algo de solene, de respeitável. Evocava uma figura de contos, uma lenda...
Tudo quanto sei dele, para além dessa sua ocupação, é que se chamava MILTON..., portanto, xará do outro, aquele de O paraíso Perdido.

Sem MILTON, o nosso, perdeu-se também um pequeno paraíso. Tão pequeno que cabia no batente de uma porta fechada...

Que é de uma cidade sem esses personagens, sem essas quase-lendas?... E cada um tem o Milton que lhe cabe.

(se alguém souber mais sobre MILTON, o nosso, por favor escreva em Comentários. Ou mande para o meu e-mail (veja lá no final do blog). Agradeço)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ensino i-móvel

Houve um tempo em que o ensino se fazia de forma peripatética...
Caminhava-se. As idéias vinham... E não havia tédio.
E hoje?
-Todos sentados!

Nietzsche: "Não escrevo apenas com a mão: o pé também quer sempre participar".
Era um caminhante. Andava quilômetros por dia. Confessou que as idéias de "Assim falava Zaratustra" lhe chegaram durante essas andanças.

Muitas crianças preferem a rua à escola. Em parte, talvez seja para fugirem da cela de aula...
Uma utopia: escolas em grandes terrenos, com bosques...
Quem dá mais?...

terça-feira, 19 de maio de 2009

Tome esse sonho...

Chegou perto do homem entristado e perguntou o que ele tinha. Ele balançou a cabeça no negativo, como se dissesse "nada não...". Ela calçava uma sandália tipo japonesa e outra sertaneja, dessas de couro cru, e as duas bem gastas. A sertaneja era a do pé esquerdo, como a japonesa. A mochila estava um tanto pesada e ela arriou na calçada, perto do homem. "Que é tu tens?". O silêncio do homem tinha umas cem páginas de palavras indecifráveis. "Fique assim não, tudo passa, como se diz", ela insistiu com voz morna, feito lençol recém-passado a ferro. Depois pensou em convidá-lo a segui-la e partilhar com ela o abrigo de papelão azul e amarelo, mas compreendeu que tristeza às vezes é um estado impartilhável, não importa a razão dela nem quem seja o acometido.
Antes de se retirar, puxou alguma coisa da mochila e ofereceu.
-Tome esse sonho. É de padaria, é bom...
E se foi, vez por outra olhando para trás. Na qinta vez, o homem ainda segurava o sonho, sem comer.
Ela foi andando... No caminho se distraiu com um enorme outdoor que mostrava um casal jovem com sorrisos ainda mais enormes, tão enormes que passavam dos limites do outdoor. Por trás dos dois, a imagem de uma casa bonita e a legenda: Seu sonho está aqui: em 360 suaves prestações.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Escrito numa parede...

"Li numa parede, no Porto: "Passei a maior parte da vida com medo de coisas que nunca me aconteceram."'
Comentário de Almariada (v. blog na lateral) à postagem depois desta.
Mínimos dizeres máximos.

sábado, 16 de maio de 2009

De coisas 'pequenas'

O primeiro comentário feito para a postagem Feira de Falas, diz "Tenho acompanhado sempre os textos do seu blog e gostado muito, pois estão sempre captando as sutilezas do cotidiano, nos levando a olhar com outros olhos essa vida tão rica que passa diante de nós." É de Arabescos e Nacaras, um blog de uma universitária (Psicologia e Artes Visuais), Mariana Zulianeli.
É por respostas assim que ainda insisto em escrever alguma coisa aqui. É o que chamo de eco responsável. Lembro que responsável, ao pé da letra, quer dizer que responde, de onde vem a palavra responsabilidade (daí se dizer, por exemplo, que pessoas de menor idade não respondem por seus atos -o que leva certos criminosos a aliciar adolescentes e crianças para atos delituosos).
Mas é mesmo verdade que tenho mais olhos para as coisas 'miúdas', aquelas que, via de regra, passam despercebidas, pois fomos ensinados a perceber 'grandezas', a reconfirmar o já mil vezes confirmado. Gosto de muita coisa dita pelos que não foram à universidade, muitas vezes nem à escola. Gosto de muitos dos gestos dessas pessoas, pois têm uma espontaneidade que nós, graduados e pós-graduados, muitas vezes perdemos, artificializados por conceitos, teorias, erudição...
Felizmente, não estou só. O uruguaio Eduardo Galeano, que já recebeu importantes prêmios e faz a própria erudição ajoelhar-se diante de coisas 'pequenas', recria belamente, em As Palavras Andantes, contos e dizeres do povo (dando nome a esse povo), com ilustrações/gravuras do brasileiro/nordestino J. Borges. Em outro livro -O Teatro do Bem e do Mal-, fala das escritas de paredes. Diz que, para o dicionário da Real Academia Espanhola, essas escritas '"são de caráter popular e ocasional, sem transcendência"'. Comenta a 'tolerância zero' contra a malandragem, em Nova York, há alguns anos, e que incluiu os escritores de paredes, tidos como protocriminosos.
Galeano defende os grafitos: "As paredes, acho eu, têm outra opinião. Elas nem sempre se sentem violentadas pelas mãos que nelas escrevem ou desenham. Em muitos casos, estão agradecidas. Graças a essas mensagens, elas falam e se divertem. Bocejam de tédio as cidades intatas, que não foram rabiscadas por ninguém nos raros espacinhos não usurpados pelas ofertas comerciais."
E oferece uma amostra de frases que leu em diferentes cidades. "Nas paredes, que vêm a ser algo assim como as mais democráticas de todas as imprensas."
Aqui uns exemplos dessas frases:
"E se houver uma guerra e ninguém for?"
"Um parto na rua é iluminação pública?"
"Por que os cemitérios têm muros, se os que estão dentro não podem sair e os que estão fora não querem entrar?"

Coisas assim, anônimas, não têm, de fato, a mesma respeitabilidade dos livros. Mesmo que muitos destes, dentre os mais famosos, sejam, por assim dizer, apropriações (belas apropriações, diga-se) de mitos e contos populares, a exemplo da Odisséia e do Édipo.
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