sábado, 16 de maio de 2009

De coisas 'pequenas'

O primeiro comentário feito para a postagem Feira de Falas, diz "Tenho acompanhado sempre os textos do seu blog e gostado muito, pois estão sempre captando as sutilezas do cotidiano, nos levando a olhar com outros olhos essa vida tão rica que passa diante de nós." É de Arabescos e Nacaras, um blog de uma universitária (Psicologia e Artes Visuais), Mariana Zulianeli.
É por respostas assim que ainda insisto em escrever alguma coisa aqui. É o que chamo de eco responsável. Lembro que responsável, ao pé da letra, quer dizer que responde, de onde vem a palavra responsabilidade (daí se dizer, por exemplo, que pessoas de menor idade não respondem por seus atos -o que leva certos criminosos a aliciar adolescentes e crianças para atos delituosos).
Mas é mesmo verdade que tenho mais olhos para as coisas 'miúdas', aquelas que, via de regra, passam despercebidas, pois fomos ensinados a perceber 'grandezas', a reconfirmar o já mil vezes confirmado. Gosto de muita coisa dita pelos que não foram à universidade, muitas vezes nem à escola. Gosto de muitos dos gestos dessas pessoas, pois têm uma espontaneidade que nós, graduados e pós-graduados, muitas vezes perdemos, artificializados por conceitos, teorias, erudição...
Felizmente, não estou só. O uruguaio Eduardo Galeano, que já recebeu importantes prêmios e faz a própria erudição ajoelhar-se diante de coisas 'pequenas', recria belamente, em As Palavras Andantes, contos e dizeres do povo (dando nome a esse povo), com ilustrações/gravuras do brasileiro/nordestino J. Borges. Em outro livro -O Teatro do Bem e do Mal-, fala das escritas de paredes. Diz que, para o dicionário da Real Academia Espanhola, essas escritas '"são de caráter popular e ocasional, sem transcendência"'. Comenta a 'tolerância zero' contra a malandragem, em Nova York, há alguns anos, e que incluiu os escritores de paredes, tidos como protocriminosos.
Galeano defende os grafitos: "As paredes, acho eu, têm outra opinião. Elas nem sempre se sentem violentadas pelas mãos que nelas escrevem ou desenham. Em muitos casos, estão agradecidas. Graças a essas mensagens, elas falam e se divertem. Bocejam de tédio as cidades intatas, que não foram rabiscadas por ninguém nos raros espacinhos não usurpados pelas ofertas comerciais."
E oferece uma amostra de frases que leu em diferentes cidades. "Nas paredes, que vêm a ser algo assim como as mais democráticas de todas as imprensas."
Aqui uns exemplos dessas frases:
"E se houver uma guerra e ninguém for?"
"Um parto na rua é iluminação pública?"
"Por que os cemitérios têm muros, se os que estão dentro não podem sair e os que estão fora não querem entrar?"

Coisas assim, anônimas, não têm, de fato, a mesma respeitabilidade dos livros. Mesmo que muitos destes, dentre os mais famosos, sejam, por assim dizer, apropriações (belas apropriações, diga-se) de mitos e contos populares, a exemplo da Odisséia e do Édipo.

5 comentários:

  1. Oi professora. Que lisonja que o meu comtário apareça no seu texto. É um prazer ser resposta e beber das perguntas e apontamentos gerados neste espaço.
    Essas frases das paredes são maravilhosas mesmo, tão perspicazes!
    Também tenho notado que a academia, apesar de uma ótima organizadora do pensamento, pode nos embotar, tolher, se deixarmos. É aquele equilíbrio entre o Dionísio e o Apolo que não esqueço, posto na sua aula, que devemos buscar, não é?
    Na verdade, percebo, no curso de Psicologia, que o que a erudição pode fazer é dar roupas elegantes e finas às percepções cotidianas, à sabedoria do simples...Tudo uma questão de linguagem, um discurso. Os dois lugares são importantes, ambos ricos, de formas diferentes.
    As pinturas do blog são minhas sim, alguns estudos. Estou tentando exercitar a idéia de se libertar da censura, e dar importância a nossa sensibilidade natural, ao que brota do inconsciente, o puro...que daí que surgem as coisas genuínas, realmente originais. Essa liberdade maravilhosa, mas que nãó é fácil, porque tudo, inclusive nós mesmos, nos cobra, nos exige o Apolo, Apolo, Apolo...Lição muito importante que aprendi com a senhora, e tento exercitar nas produções.
    Obrigada pelos comentários. Que bom que gostou!

    Lembrei deste poema do Fernando Pessoa:

    "(...)
    Meu fado é o de não saber quase tudo.
    Sobre o nada eu tenho profundidades.
    Não tenho conexões com a realidade.
    Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
    Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias
    (do mundo e as nossas)."
    Manoel de Barros

    Até mais! Bjs!

    ResponderExcluir
  2. Minha cara,
    há um poema seu no Balaio.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  3. Ah, vou lá, ver. Obrigada, Moacy. Tenho curtido muito as imagens do seridó-sertão que aparecem no Balaio. São maravilhosas. beijos pra você!

    ResponderExcluir
  4. Li numa parede, no Porto: "Passei a maior parte da vida com medo de coisas que nunca me aconteceram."

    ResponderExcluir

Escreva aqui na parede seu comentário. Venho ler depois.Obrigada.

Divulgue seu blog!
Informe o código: 956
Faça pontos, ganhe brindes