segunda-feira, 25 de maio de 2009

Quando a morte joga xadrez sozinha

Um dos contos de “Inventário de Pequenas Paixões”, de Geraldo Maciel, abre-se assim: “Dr. Abílio sempre jogava xadrez à sombra do fícus com seu parceiro imaginário. Jogava sozinho por falta de quem ali entendesse aquela arte estratégica de tão variadas possibilidades, tão traiçoeira nos ataques de viés, nas arremetidas saltitantes, nas combinações de movimentos.”
A morte, às vezes, é essa arte “tão traiçoeira nos ataques de viés”. Às vezes é um jogo de xadrez jogado sozinho pela própria. Ela e ela. Não há um médico por perto, não há tempo. Ela assim resolve: nocaute no coração. E fez isso com Geraldo Maciel, paraibano de Nova Palmeira, 59 anos, doutor em engenharia de produção pela USP, professor da Universidade Federal da Paraíba, mas, sobretudo, escritor que vinha se consagrando nos meios literários do nordeste e do Brasil por inteiro.
Publicou o primeiro livro – “Aquelas Criaturas tão Estranhas”- pela Editora Rio Fundo-RJ (um projeto de Assis Brasil), em 1995. Depois, “Inventário de Pequenas Paixões”, 2000, e “O Concertista e a Concertina”, ambos pela Editora Manufatura (selo do próprio autor). Recentemente, recebeu o Prêmio Literário Cidade do Recife, com o livro “Peccata Mundi”, prestes a sair pela Rocco, além de mais dois.
Geraldo foi um apaixonado pela leitura, desde cedo. Me lembro dele, um dia, de férias em Nova Palmeira, então uma cidade-rua-avenida de mão dupla, nossas casas olhando uma para a outra... Estava doido pra ler Clarice Lispector. Chegou perto e me perguntou: -Você tem “A maçã no escuro”?... Eu não tinha. Ofereci Camilo Castelo Branco, “Amor de Perdição”. Ele não se interessou, queria Clarice. E saiu olhando pra lugar nenhum... Acho que, nessa época, ele estudava em Catolé do Rocha (fez lá o antigo ginasial). Mas gostava também de ouvir os causos contados por Raminho de Zezé. Ria-se a valer, pois Raminho era uma mistura de contador de causos e humorista. Deve ter absorvido algo dessas narrativas orais, do mesmo modo como Guimarães Rosa aprendia com o sertanejo das Minas Gerais.
Mas Geraldo tempera a sua escrita também com um sabor de Gabriel García Márquez. Prosa da melhor. Enfim, se a morte jogou esse xadrez consigo mesma, nós jogaremos esse outro, dizendo que o seu coração continua pulsando nos livros que deixou.
Há poucos meses, convidou-me para ir a João Pessoa, participar de um projeto literário. Dois ou três e-mails. No último, escrevi (sobre ele):

O menino contava. Contava as casas da rua-quase-cidade. Contava as luas, que eram só uma, mas o olho da imaginação via às dezenas. Lua nova, lua velha, lua moça, meia-lua, lua-e-meia, lua vazia, lua cheia. Até a lua da poça d´água...Tanta lua! Contava nos dedos e contava os dedos. Contava os gols que (não) fazia nas peladas com outros meninos. Contava os dias de ir, os dias de vir. Quando cresceu, foi contar o incontável. Foi quando se tornou contista. Dos bons.

5 comentários:

  1. Detinha lindo o texto,Geraldo merece!!!

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  2. Nivaldete, belo texto, bela homenagem ao amigo que se foi, como que apanhado por armadilha da senhora sempre indesejada dos mortais. Grande abraço. Francisco Dantas.assis_dantas.zip.net

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  3. É, Francisco... Fica uma gagueira, um silêncio, apesar das palavras............Abraço você.

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  4. Conheci o Barreto (como o chamávamos) no Clube do Conto... gentil, amável, delicado, sempre com um elogio, mesmo que vc estivesse naquele dia tão desarrumada, tão apagadinha... ele sempre abria o seu melhor sorriso e nos recebia. Vai fazer falta nessa humanidade sem gentileza e carinho, um ser humano desse quilate. É dor, e saudade.

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