sábado, 23 de maio de 2009

O poeta do Grande Ponto

Até fins da década de 1970, via-se sempre, numa das esquinas da rua João Pessoa ou Cel. Cascudo, ali pelo Grande Ponto (Natal-RN), um homem mal vestido, roupa preta, barba crescida e grisalha, conduzindo uma mochila com alça de corda. Estava sempre sentado no batente de uma porta fechada, parecendo um anjo velho e surrado, abençoando a rua. Pelo menos enfeitando. Mais que enfeitando, humanizando o quarteirão com lojas grudadas umas às outras -óticas, sapatarias, farmácias, lanchonetes...
Lembrava também um pássaro escuro que vinha ao chão comer. Não, não era bem assim. Vinha alimentar também: trocava poemas -escritos na hora- por algum dinheiro. Qualquer dinheiro. Ou dava o poema, simplesmente. Cheguei a 'comprar' alguns, que infelizmente não guardei. Sequer me lembro dos conteúdos. Na verdade, a poesia estava mais no seu gesto, nessa diferença, nesse insólito. E mesmo maltrapilho, tinha algo de solene, de respeitável. Evocava uma figura de contos, uma lenda...
Tudo quanto sei dele, para além dessa sua ocupação, é que se chamava MILTON..., portanto, xará do outro, aquele de O paraíso Perdido.

Sem MILTON, o nosso, perdeu-se também um pequeno paraíso. Tão pequeno que cabia no batente de uma porta fechada...

Que é de uma cidade sem esses personagens, sem essas quase-lendas?... E cada um tem o Milton que lhe cabe.

(se alguém souber mais sobre MILTON, o nosso, por favor escreva em Comentários. Ou mande para o meu e-mail (veja lá no final do blog). Agradeço)

4 comentários:

  1. Milton Siqueira, libertário, miserável e verdadeiro, produzia versos soltos, alucinantes e cheios de vontades planetárias. Rabiscava em ponta de esquina, dentro de igrejas ou a caminho do mar. Maltrapilho, pedinte vitalício, olhos refratários. Ajuizava e alucinava quem não soubesse do nú e do crú da própria vida. No café "São Luíz", tragava todos os fantasmas, medos e assombrações undeground da província. Atacava com o seu verbo solto, quem lhe apunhalasse desatinadamente. Confessor-mor da dor de quem pede o perdão e de quem trai o próprio sol. Solitário, beberrão e ermitão, navegava com os anjos mentais, atordoando diálogos inter-continentais.
    Vagando na noite feito sombra de nós mesmos, não se dispunha ao convívio fácil; gostava mais de besuntar seus cigarros loucos e roucos. Por pouco, em um dia, não extravassou toda a agonia de uma procissão cristã. Costurando corpos e com sua voz gutural, foi fazendo pilheria do que encontrava pela frente. Viveu como poucos. Morreu como todos nós. (Onthee.blogspot.com)

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  2. Minha cara,
    Acredito que você está se referindo a Milton Siqueira (irmão ou parente próximo de Esmeraldo Siqueira), que morava, sozinho, numa cabana - ou algo parecido - logo depois de Areia Preta. Parece-me que ele já faleceu.

    Um abraço.

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  3. “Um poema por uma moeda”! - dizia com sua voz gutural Milton Homem Siqueira o bardo libertário e verdadeiro, produzidos em versos soltos, alucinantes e cheios de vontades.
    Rabiscava-os nas folhas de papel almaço a caminho de Areia Preta ou no sentido inverso, a caminho do Grande Ponto, nas esquinas, dentro de igrejas ou nas praças.
    Morava no Morro do Pinto em Areia Preta.
    Maltrapilho, pedinte vitalício, olhos refratários. Ajuizava e azucrinava quem não soubesse do nu e do cru da própria vida. No café "São Luiz", tragava todos os fantasmas, medos e assombrações da província.
    Atacava com o seu verbo solto, quem lhe apunhalasse desatinadamente. Confessor-mor da dor de quem pede o perdão e de quem trai o próprio sol. Solitário, beberrão e ermitão, navegava com os anjos mentais, atordoando diálogos interplanetários.
    Vagando na noite feito sombra de nós mesmos, não se dispunha ao convívio fácil; gostava mais de besuntar seus cigarros loucos e roucos. Por pouco, em um dia, não extravasou toda a agonia de uma procissão cristã. Costurando corpos e com sua voz característica, foi fazendo pilheria do que encontrava pela frente.
    Viveu como poucos. Morreu como todos nós. Deixando sua marca como uma pessoa ímpar.

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  4. Grata a vocês -Moacy e Neto. Eu tinha realmente curiosodade em saber mais sobre Milton. Achava aquela presença bastante singular, em meio ao movimento de pedestres, ao vozerio... Estou satisfeita, um grande abraço. (Demorei a perceber os posts)

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