domingo, 24 de maio de 2009

Sobre Milton Siqueira (resposta à postagem O poeta do Grande Ponto)

Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto, criador do interessante blog Natal de Ontem, tentou deixar informações sobre Milton Siqueira (v. postagem abaixo) em Comentários, mas, por razões desconhecidas, seu texto -rico em detalhes- não apareceu aqui. Diante disso, mandou-me por e-mail e aqui o reproduzo, agradecendo pela atenção.

" “Um poema por uma moeda”! - dizia com sua voz gutural Milton Homem Siqueira, o bardo libertário e verdadeiro, produzindo versos soltos, alucinantes e cheios de vontades.
Rabiscava-os nas folhas de papel almaço a caminho de Areia Preta ou no sentido inverso, a caminho do Grande Ponto, nas esquinas, dentro de igrejas ou nas praças.
Morava no Morro do Pinto em Areia Preta.
Maltrapilho, pedinte vitalício, olhos refratários. Ajuizava e azucrinava quem não soubesse do nu e do cru da própria vida. No café "São Luiz", tragava todos os fantasmas, medos e assombrações da província.
Atacava, com o seu verbo solto, quem lhe apunhalasse desatinadamente. Confessor-mor da dor de quem pede o perdão e de quem trai o próprio sol. Solitário, beberrão e ermitão, navegava com os anjos mentais, atordoando diálogos interplanetários.
Vagando na noite feito sombra de nós mesmos, não se dispunha ao convívio fácil; gostava mais de besuntar seus cigarros loucos e roucos. Por pouco, em um dia, não extravasou toda a agonia de uma procissão cristã. Costurando corpos e com sua voz característica, foi fazendo pilheria do que encontrava pela frente.
Viveu como poucos. Morreu como todos nós morreremos. Deixando sua marca como uma pessoa ímpar."

4 comentários:

  1. O MERCADOR DE SONETOS

    Laélio Ferreira, Poeta e Pesquisador

    Milton Homem de Siqueira era de família importante, tradicional, fidalga. Irmão de Esmeraldo e Oscar Siqueira. O primeiro, professor, médico, poeta, uma das maiores culturas do Estado, uma espécie, em termos literários e filosóficos, de irmão siamês do meu pai, Othoniel Menezes. Oscar, o outro irmão, homem seríssimo, desembargador, jurista de renome, grave, sisudo. Milton, coitado, foi a ovelha negra da família.

    Menino - aos cinco, seis anos, por aí, papai, vez por outra, levava-me - eram tempos de guerra - à base de Parnamirim Field, onde trabalhava. Na "sopa" (leia-se ônibus), no caminho, apontou-me, certa feita, um homem com um enorme chapelão de palha, detento no Esquadrão de Cavalaria - prédio que ficava onde hoje é a Escola Doméstica de Natal. Era Milton Siqueira. Assassinara, a facadas, barbaramente, uma infeliz prostituta no Areal, com requintes de selvageria. Arrumou-lhe o corpo ensangüentado, cobrindo-o com trapos e saiu, como se nada tivesse acontecido, para beber cachaça nas Rocas. Antes disso, fizera uma palhaçada com Othoniel e com o próprio irmão, Esmeraldo. Ambos tinham um curso de francês para moças ricas e jovens estudantes do belo idioma de Hugo na Rua XV de Novembro (depois virou puteiro, a rua, ressalvo). Milton, embriagado, da janela da sala de aula, na rua, passou a criticar e a ofender aos dois mestres - que, segundo ele, exploravam a boa-fé dos pais dos alunos, não sabiam francês etc., etc. Não deu outra: Esmeraldo e Othoniel quebraram-lhe as ventas. Na maior cara-de-pau, saiu Milton para a Tavares de Lira e no famoso Bar "Cova da Onça", subindo num tamborete, fez inflamado discurso contra os "agressores". Na peroração exaltada, não deixou de pedir aos fregueses da casa um "auxílio financeiro para curar os ferimentos" - ou seja, para continuar a encher a cara nos botecos do Beco da Quarentena. O certo é que, enquanto durou o curso de francês dos dois poetas amigos, nunca mais apareceu, deu as caras, lá pela XV.

    Por volta de 1948 - lembro mais vivamente -, egresso da prisão, meio desconfiado, cheio de vênias, apareceu lá por casa (morávamos na Rio Branco). Vinha com um livro de versos (era bom poeta) para Othoniel prefaciar. Foi bem recebido, conversou sobre literatura e pediu para voltar dentro de uns quinze dias, para receber a encomenda, o tal antelóquio - coisa que Othoniel não gostava de fazer, mas consentira, penalizado. Não tinha mesmo jeito o homem. Dois ou três dias após, apareceu "puxando fogo", embriagado. Meu velho já fechou a cara, aborrecido. Loquaz, valentão, Milton caiu na besteira de, na frente de mamãe, de mim e de um irmão mais velho do que eu um ano, no meio da conversa fiada, puxar da cintura e exibir, acintosamente, para se mostrar, por certo, uma pistola de fogo-central - aquela de dois tiros e uma carreira. Não deu outra: Othoniel, de bengala em punho, botou o rebento dos Siqueira pra correr com pistola e pernas pra que te quero, ladeira abaixo, no azimute da Ribeira velha de guerra.

    O tempo passou e passei eu muitos anos fora de Natal. Quando vinha, de férias, ouvia, no Grande Ponto, notícias - muitas delas jocosas - das presepadas de Milton. Depois, de volta à taba, cheguei a comprar-lhe sonetos na calçada do Café São Luiz. Tinha a fama de pedófilo, de pederasta depois de velho. Tenho por cá, no bestunto, a impressão de que fazia isso para chocar a opinião pública e, principalmente, para ofender os parentes, os irmãos. Sei, também, por outro lado, que era ajudado - sem que o marido soubesse - pela esposa de Esmeraldo, Íris, uma santa criatura, vivinha-da-silva, irmã do meu amigo João Meira Lima (desembargador, falecido), mãe do poeta e tribuno Juliano e de Mano Siqueira, este, cirurgião-dentista e o último cavaleiro andante desta terra de Poti. E eu os peguei no colo, quando meninos, bebês, na rua Felipe Camarão, numa Natal sem Carnatal, graças a Deus! - faz tempo...

    É verdade e dou fé.

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  2. OBRIGADA, LAÉLIO! Agora está completo o quadro...

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  3. Elogio a referêcia feita ao poeta Milton Siqueira, poeta andante das ruas de natal, o qual, quando aqui cheguei,nos idos de 1970,ainda exercia seus dots poéticos.

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