terça-feira, 19 de maio de 2009

Tome esse sonho...

Chegou perto do homem entristado e perguntou o que ele tinha. Ele balançou a cabeça no negativo, como se dissesse "nada não...". Ela calçava uma sandália tipo japonesa e outra sertaneja, dessas de couro cru, e as duas bem gastas. A sertaneja era a do pé esquerdo, como a japonesa. A mochila estava um tanto pesada e ela arriou na calçada, perto do homem. "Que é tu tens?". O silêncio do homem tinha umas cem páginas de palavras indecifráveis. "Fique assim não, tudo passa, como se diz", ela insistiu com voz morna, feito lençol recém-passado a ferro. Depois pensou em convidá-lo a segui-la e partilhar com ela o abrigo de papelão azul e amarelo, mas compreendeu que tristeza às vezes é um estado impartilhável, não importa a razão dela nem quem seja o acometido.
Antes de se retirar, puxou alguma coisa da mochila e ofereceu.
-Tome esse sonho. É de padaria, é bom...
E se foi, vez por outra olhando para trás. Na qinta vez, o homem ainda segurava o sonho, sem comer.
Ela foi andando... No caminho se distraiu com um enorme outdoor que mostrava um casal jovem com sorrisos ainda mais enormes, tão enormes que passavam dos limites do outdoor. Por trás dos dois, a imagem de uma casa bonita e a legenda: Seu sonho está aqui: em 360 suaves prestações.

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