segunda-feira, 29 de junho de 2009

Textos de Teresa Vergani* -1

"Não sei se as árvores têm angústias. Elas nunca mudam de raiz.

História de mim, (sucessivas aberturas de casulos escapando à clissificação de velho e novo -ventoso reconhecimento da minha identidade) a alteridade que me noto será só alargamento? E esta consistência de sol - paz que me percorre já sem crispação - garantia de uma diversa igualdade?"

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"NÃO, NÃO TOMEI OUTRO CAMINHO.
SIGO-ME NO MESMO ESTREITO ATALHO,
ONDE A RECONCILIAÇÃO DOS IRRECONCILIÁVEIS
DESPONTOU.

O PRIMEIRO CAMINHO NÃO MUDOU.
FOI TALVEZ O SOL QUE SE ALARGOU."

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"Achas as rosas complicadas?
Eu não conheço rosas rectilíneas...

Não, não tenho problemas.
Buraco invadido de janelas,
sou simplesmente
opressão de alegrias
demasiadamente vastas
e só busco a resolução
das minhas evidências."

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"ponho os pés nas badaladas
tantas letras a voar...
grito à procura do chão,
mas não sei para quem escrevo:

ESKRÊVU PRAKEM MAPAÑAR..."

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"(...)
-qual é a cor do azul onde?

VOU. EM TODO O LADO É MUNDO.

as estrelas lavram a terra"
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Teresa Vergani, portuguesa,além de poeta e artista plástica, é teóloga, antropóloga, matemática... Ao se aposentar, em 2004, disse que iria se tornar andarilha. Não usa telefone celular nem tem e-mail. Não sei se gostará de saber que publiquei esses poemas aqui... São do seu livro Rigor e Água, de 1987.

Cesária Évora e Marisa Monte

terça-feira, 23 de junho de 2009

O que tem sentido, mãe?...

a mãe havia combinado uma saída com a filha de 8 anos.
-vamos, estamos atrasadas.
-ah, mãe, tenho algo muito importante pra fazer antes. Só vou quando fizer isso...
-mas filha..., vamos perder a hora! Que coisa tão importante é essa?...
-...o nome da iguana macho, mãe... preciso escolher um nome, pela internet.
-que iguana?!
-a iguana do Butantan...
-mas isso não é tão importante...
-como não, mãe?!... A iguana, quero dizer, o iguano precisa de um nome.
-mas ela já tem: iguana.
-ora, mãe!, eu sou uma menina... Então basta que me chamem de menina? E a você de 'mulher'?
-continuo achando que isso não é importante...
-importante é o que a gente acha importante...
-parece coisa do Pequeno Príncipe...
-que pequeno príncipe?...
-nada não...
-já volto, mãe...

daí a pouco retornou, sem graça.

-e então?...
-votei não, mãe...
-por que desistiu?...
-tinha uma lista de nomes..., mandam escolher um... tem até "Barach Obama"... Assim não vale. Eu tinha escolhido um nome..., mas a votação é como pra candidato a deputado, a vereador... não se pode votar em qualquer pessoa, em qualquer nome...
-você é meio anarquista... mas qual foi o nome que você tinha escolhido?
-anaugi..., papai anaugi... achei a franja dele parecida com o cabelo punk do meu pai...
-não tem sentido...
-vocês adultos..., professores principalmente, adoram falar de sentido.

a menina calou-se por uns segundos.

-o que tem sentido, mãe?
-...muita preocupação com você... e agora uma dorzinha de cabeça...
-não foi isso que perguntei... é melhor a gente dar mesmo uma saída...



segunda-feira, 22 de junho de 2009

O dia chorou o dia...


...começo da noite ele ligou.
-como foi o dia?
-o dia chorou o dia todo...
-hein?...

a linha caiu.

retornou:

-quem foi que chorou o dia todo?
-o dia...
-eu também quase...
-hein?...

a linha caiu.

não retornou.

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Imagem: achamarteblogspotcom.blogspot.com/

domingo, 21 de junho de 2009

Leitura com tapa-olho


-Pois o que acho, ela foi concluindo, é que as leituras da Odisséia têm sido feitas geralmente com um tapa-olho daqueles de pirata...

Eu estava perto, tomava meu último gole de café no balcão e sentia o gosto bom do bolinho de goma desmanchando na língua. Foi difícil rir sem uma ameaça de engasgo.

-É simples, ela continuou explicando ao colega. O industrioso Ulisses só é industrioso como é por conta de Palas Atena, que faz um bocado de milagres para que ele se saia bem de cada enrascada. Assim..., até você, Marquinho, que fica assombrado só de ver o açude Gargalheiras...

Saí do café da livraria escutando a gargalhada da mocinha... Gargalhada de aprendiz de bruxa, não de deusa.
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Imagem: www.esdc.com.br/imagens/atena.jpg

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Onde tem céu é mundo

Música que compus e entreguei (só a letra) a Liz Rosa, cantora potiguar que se mudou para o Rio de Janeiro:

Onde tem céu é mundo, pois é.
A pele é rasa, o coração é fundo.

O caminho me espera,
É só caminhar...
Se tem pedra viro água

Mas não vou parar,
Não vou parar.
Se o desejo é forte faz acontecer.
É preciso ter a arte de afagar vulcões
Sem se queimar.
Não trago nada que não seja meu,
Não trago nada que não seja eu.

Às vezes é preciso a gente transtornar
A vida besta que quer galopar,
Ganhar o mundo feito ventania
Sem mais parar,
Sem mais parar...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Doido. Doido?

Ele dirigia o seu carro com muito gosto, próximo a uma barraca onde se vendia água de coco, nas imediações do conjunto residencial Mirassol. Fazia curvas repentinas num espaço de três metros. Freava repetidas vezes, estacionava, dava partidas bruscas... E como o carro fazia barulho!
Muitas vezes o vi transpirando, após uma dessas viagens redondas e impetuosas.
Por onde será que anda?...
Chamavam-no de doido, pois o carro era imaginário.

Doido. Doido?...
Pelo menos nunca atropelou ninguém...

domingo, 14 de junho de 2009

Confiança de bicho

William Burroughs conta, em O gato por dentro:
"
4 de maio de 1985. Enquanto faço as malas para uma rápida viagem a Nova York, onde vou discutir o livro dos gatos com Brion, na sala da frente, onde ficam os gatos, Calico Jane amamenta um filhote preto. Pego minha valise, que parece pesada. Olho dentro e encontro seus outros quatro filhotes.
"Cuide dos meus bebês. Leve-os junto com você, aonde quer que vá."

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Gosto de telhado

Viveram até então no sítio. No mato, como diziam. O filho estudou, se fez doutor e os trouxe para a cidade grande. Tempo de inverno, os dois se olhavam em silêncio, uma estranheza no peito. Saudade do roçadinho, das pedras, do cabelo das espigas de milho. Até da pouca água. A de beber, colhida das bicas e guardada na cisterna.

Agora bebiam água mineral.
Hora do remédio. Ela foi pegar um copo pra ele.
-Essa água é boa, é pura, mas falta uma coisa nela...
-Deixa de inventar, homem. Falta o quê?...
-Falta gosto de telhado.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Janela sobre a palavra III"

"No Haiti, não se pode contar histórias de dia. Quem conta de dia merece desgraça: a montanha jogará uma pedra em sua cabeça, sua mãe só conseguirá andar de quatro.
Os contos são contados de noite, porque na noite vive o sagrado, e quem sabe contar conta sabendo que o nome é a coisa que o nome chama."
(...)
Em guarani, ñé ~ e significa "alma".
Crêem os índios guaranis que os que mentem a palavra, ou a dilapidam, são traidores da alma."

Está no belo livro As Palvras Andantes, do uruguaio Eduardo Galeano.

Então, em vez de dilapidar a palavra, que a lapidemos: limpando o excesso, pondo o que falta, retornando a ela até que brilhe na noite das con-versações...

("...o nome é a coisa que o nome chama"... Desconfio de que alguma ciência emergente (se não for coincidência) está bebendo dessa sabedoria ancestral... A Programação Neurolinguística, por exemplo. Ou mesmo da Bíblia: "Pedi e recebereis; batei e abrir-se-vos-á". )

sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Falhamos sempre que falamos..."

Coisas das palavras: elas sempre trazem lacunas...
(Roland Barthes diz que falhamos sempre que falamos de amor. Acho que falhamos sempre que falamos de qualquer coisa...)

Citei Daniel Munduruku na postagem anterior a esta e comentei que é necessário ter nascido índio (faltou dizer: ou africano) para sentir o sentido disso... Eu quis dizer: da oralidade, tal como ele fala (falhei...).
E como ele fala, a palavra pronunciada tem espírito, é sopro, não uma mera articulação de sons com determinados significados.
Hoje se tenta (re)construir a figura do contador de história. Há oficinas, vivências. Bom, muito bom, até porque as crianças se livram, por algum tempo, desses onipresentes lábios eletrônicos -sem espírito e sem sopro, a TV.
Bom mesmo, ainda que se trate de uma contação teatralizada, um tanto quanto espetáculo. E tinha de ser, já que não se está imbuído do sentido do sagrado que ainda persiste nas tradições indígena e africana, segundo mostra Munduruku.

No mais, ainda bem que falhamos, pois assim voltamos à palavra. Ao contato. Isso também é bom. Parece que tomamos um cafezinho pra conversar de novo. Pra con-versar.

E vejam: o Profeta Gentileza, com toda a sua defesa do bom trato entre humanos, tinha lá suas intolerâncias machistas, como obervou Moacy Cirne, que o viu muitas vezes no Rio de Janeiro: não suportava as garotas usando minissaia...

De contradições somos feitos também. E não só "da matéria dos sonhos" (Shakespeare).

De tudo isso e muito mais. E não será essa a beleza do humano?...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Oralidade na visão de um índio



"Oralidade não é apenas a palavra que sai da boca das pessoas. É uma coreografia que faz o corpo dançar. O corpo é a reverberação do som das palavras. (...) Na tradição africana, a palavra também ganha este status de ter um espírito próprio. "Ela tem o hálito, o elemento vital, que desaparece dela quando escrita" (Heloísa Prieto)."*

Tentando compreender, a palavra escrita é como se fosse uma fotografia da voz. Não é a voz. Mas é preciso ter nascido índio e conservado esse entendimento para sentir o sentido disso de verdade.

Nós-não-índios blá-blá-blamos tanto, por escrito e não-escrito...

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In O Banquete dos Deuses, de Daniel Munduruku, pertencente à nação Munduruku. O autor tem formação acadêmica em filosofia, história e psicologia. Pós-graduação em antropologia social.

Imagem: www.radarkids.com.br/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Coisas da lingua(gem)

Falando do desaparecimento do avião que fazia, ontem, a rota Rio/Paris, uma autoridade disse, diante das câmeras de TV: "os parentes estão muito tristes, mas é uma tristeza civilizada".
A interpretação é óbvia. É fácil entender o que ele quis dizer.
Depois fico pensando, sem meus botões... Só a violência tem livre curso...

Mas, para não ficar só no triste, lembro a fala da doméstica que chegou perto da patroa e avisou:
-Estou com azia. Hoje não passo de uma velha aziática. Vou me encolher no meu quarto. Se precisar de mim, arrombe a porta ponto com.

Coisas da indomável lingua(gem).
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