sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Falhamos sempre que falamos..."

Coisas das palavras: elas sempre trazem lacunas...
(Roland Barthes diz que falhamos sempre que falamos de amor. Acho que falhamos sempre que falamos de qualquer coisa...)

Citei Daniel Munduruku na postagem anterior a esta e comentei que é necessário ter nascido índio (faltou dizer: ou africano) para sentir o sentido disso... Eu quis dizer: da oralidade, tal como ele fala (falhei...).
E como ele fala, a palavra pronunciada tem espírito, é sopro, não uma mera articulação de sons com determinados significados.
Hoje se tenta (re)construir a figura do contador de história. Há oficinas, vivências. Bom, muito bom, até porque as crianças se livram, por algum tempo, desses onipresentes lábios eletrônicos -sem espírito e sem sopro, a TV.
Bom mesmo, ainda que se trate de uma contação teatralizada, um tanto quanto espetáculo. E tinha de ser, já que não se está imbuído do sentido do sagrado que ainda persiste nas tradições indígena e africana, segundo mostra Munduruku.

No mais, ainda bem que falhamos, pois assim voltamos à palavra. Ao contato. Isso também é bom. Parece que tomamos um cafezinho pra conversar de novo. Pra con-versar.

E vejam: o Profeta Gentileza, com toda a sua defesa do bom trato entre humanos, tinha lá suas intolerâncias machistas, como obervou Moacy Cirne, que o viu muitas vezes no Rio de Janeiro: não suportava as garotas usando minissaia...

De contradições somos feitos também. E não só "da matéria dos sonhos" (Shakespeare).

De tudo isso e muito mais. E não será essa a beleza do humano?...

5 comentários:

  1. Eu também falhei! Queria eu dizer que a oralidade humana é sempre, independentemente das culturas, essa vibração sagrada dos mantras, ainda que não seja reconhecida como tal.

    E caí no mesmo erro de usar as palavras ideologicamente, sem atender à sua vibração.

    Desculpa!

    Terá sido necessário para que eu compreendesse... e por isso te agradeço humildemente.

    Bem hajas por me teres ajudado a abrir o coração!

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  2. Oh, Almariada... Não precisa se desculpar... Eu realmente, na primeira postagem, parei de repente no blá-blá-blamos, um neologismo de última hora. Mas foi bom assim, pois se ampliou a compreensão, para mim também. Contar, nessas tradições, deve ser como rezar. Orar a oralidade..., deixando-se de lado a aparente redundância... Grande abraço!

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  3. De alguma forma tudo já estava dito, ainda que nas entrelinhas. Não há interpretações diversas para um mesmo texto/frase...? E, de fato, não seria preciso ser para ter a dimensão do sentir ou saber? Nada sei.

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  4. Francisnaldo Borges24 de julho de 2009 23:50

    ...Belíssimas palavras: "lábios eletrônicos". Eu alcancei o contador de histórias e ele ainda vive. E em mim ainda vivem as palavras dramatizadas de Francisco. A leitura era ouvir: meninos em círculo debulhando safras. Palavras em paiol.

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  5. bela participação, Francis!Bela lembrança... Abração!

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