quinta-feira, 11 de junho de 2009

Gosto de telhado

Viveram até então no sítio. No mato, como diziam. O filho estudou, se fez doutor e os trouxe para a cidade grande. Tempo de inverno, os dois se olhavam em silêncio, uma estranheza no peito. Saudade do roçadinho, das pedras, do cabelo das espigas de milho. Até da pouca água. A de beber, colhida das bicas e guardada na cisterna.

Agora bebiam água mineral.
Hora do remédio. Ela foi pegar um copo pra ele.
-Essa água é boa, é pura, mas falta uma coisa nela...
-Deixa de inventar, homem. Falta o quê?...
-Falta gosto de telhado.

5 comentários:

  1. Nossos telhados perdidos no tempo... Ou guardados no 'escaninho da alma'? Quase um poema, ou história de acalanto. Que bonito!

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  2. Sua leitura é um acalanto para a autora...

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  3. Sua leitura é um acalanto para a autora...

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  4. Francisnaldo Borges22 de julho de 2009 23:58

    Você é autora à altura. Escrevi coisa parecida: sítio e cidade. E o gosto de água de telhado é muito questionado por aqui: telhado é canto de gato se coçar(risos). Isso é desculpa, quer mesmo é voltar para o sítio...

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  5. Francisnaldo Borges30 de agosto de 2009 13:17

    Dona Bentinha veio morar na cidade, à revelia. Só fala em fogão à lenha, "boca de fogo", que é fogão a carvão e tem saudade da vida rural. Mas tem quatro bocas a gás de fogão comprado em loja, chega alumia, que evita usá-lo: "danado engole um bujão todo mês. Quero uma 'boca de fogo' pra assar carne de sol". Usou uma vez e está lá, a boca aberta, e ela com cara de insatisfeita: "do jeito que aqui venta, vai comer um saco carvão por semana". Uma casa com três pessoas com tantos fogões apagados? Então tem boca com fome.

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