quinta-feira, 4 de junho de 2009

Oralidade na visão de um índio



"Oralidade não é apenas a palavra que sai da boca das pessoas. É uma coreografia que faz o corpo dançar. O corpo é a reverberação do som das palavras. (...) Na tradição africana, a palavra também ganha este status de ter um espírito próprio. "Ela tem o hálito, o elemento vital, que desaparece dela quando escrita" (Heloísa Prieto)."*

Tentando compreender, a palavra escrita é como se fosse uma fotografia da voz. Não é a voz. Mas é preciso ter nascido índio e conservado esse entendimento para sentir o sentido disso de verdade.

Nós-não-índios blá-blá-blamos tanto, por escrito e não-escrito...

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In O Banquete dos Deuses, de Daniel Munduruku, pertencente à nação Munduruku. O autor tem formação acadêmica em filosofia, história e psicologia. Pós-graduação em antropologia social.

Imagem: www.radarkids.com.br/

6 comentários:

  1. Mia Couto conta que uma mulher moçambicana lhe disse que não gostava de ouvir falar na rádio porque aquelas pessoas não estavam a falar mas a dizer coisas em que não acreditavam.

    Será necessário ser índia ou africana para escutar para lá daquilo que é dito?

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  2. Pensei não na captação do significado, propriamente, Almariada, mas na experiência do ato de contar. Nessa espécie de religião (=religação) da voz/corpo/sopro/cosmo... Pensei na mística do contar, que a tradição indígena-e-africana ainda conserva. 'Sentir o sentido disso', desse contar assim... Acho que vou fazer outra postagem sobre o assunto, tomando por mote sua interpelação oportuna, muito bem-vinda. Abraços.

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  3. Oh Nivaldete... como dizer? É verdade que me irritou o "é preciso ser índio" que me soou a racismo... é verdade, sim. No entanto não quis ser indelicada, de modo nenhum. Mas, já vês, escutaste para lá das palavras, embora elas sejam escritas... Lamento muito, muito, não ter sabido exprimir-me sem ofender! Desculpa.
    Bem hajas!

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  4. Não, não fiquei ofendida, asseguro. Acho que agora tudo se esclareceu. Na verdade, eu estava respeitando a condição 'índio', ao dizer 'é preciso ser índio'..., pois nós 'brancos' de cá não possuímos mesmo o sentido do sagrado-contar... Nem, talvez, do ouvir... Um beijo!

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  5. Quando eu era menino, aprendendo o mundo, tinha uma tia solteirona que vivia achando indecências. Hoje, mais velho e aprendido, tenho uma sobrinha mãe-solteira que vive procurando incorreçõe políticas... Será que ela "puxou" a essa tia?

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  6. Olá, Bartolomelo!Acho que a sua situação não tem a ver com o que Minduruku diz, você não acha?... Isso de descobrir indecência em tudo pode ser, em parte, produto dos valores morais aprendidos . E há um provérbio que diz "quem disso cuida disso usa"... Quanto à sua sobrinha, talvez ela esteja se recriminando ao apontar constantemente coisas politicamente incorretas neste mundo de imperfeições gerais... Um abraço e obrigada pela visita!

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