quinta-feira, 30 de julho de 2009

a árvore e o homem



Gaston Bachelard:

Uma botânica imaginária, feita da invocação aos ramos, à madeira, às folhas, às raízes, à casca, às flores e às ervas, pôs em nós um fundo de imagens de espantosa regularidade.
Valores vegetais nos comandam. Cada um de nós ganharia em fazer o levantamento desse herbário íntimo, no fundo do inconsciente, onde as forças suaves e lentas de nossa vida encontram modelos de continuidade e perseverança. Uma vida de raízes e de rebentos está no coração de nosso ser. Na verdade, somos plantas muito velhas. (...) A árvore possui mão, uma longa mão branca. E o braço do homem expande-se como uma palma. Uma raiz de árvore é já uma perna. Uma perna de homem assume uma torção perfurante para se instalar, como uma raiz, profundamente na terra.

quarta-feira, 29 de julho de 2009


Este blog foi indicado para o selo Blog de Ouro por Manoel de Oliveira Cavalcanti Neto:
nataldeontem.blogspot.com/

Indicamos estes:
ERA UMA VEZ, OUTRA VEZ
valeriamenina.blogspot.com/
A MEUS AMIGOS
ameusamigos.blogspot.com/
BICHO ESQUISITO
bichoesquisito.blogspot.com/
NATAL DE ONTEM
nataldeontem.blogspot.com/

A indicação deste último não se deve a nenhum jogo retribuitivo, mas ao fato de se tratar de um site de grande importância para o conhecimento da história recente de Natal, seja através de imagens arquitetônicas, seja por meio de referências a fatos e pessoas. As escolas, certamente, terão uma boa fonte de pesquisa nesse blog. Eu, pelo menos, curto adoidado...

Os indicados devem cumprir as regras:
1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;
2. Poste o link do blog de quem te indicou;
3. Indique 4 blogs entre os de sua preferência;
4. Avise seus indicados;
5. Publique as regras;
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.

sábado, 25 de julho de 2009

O poeta Adriel Lopes Cardoso: um desconhecido?-2






De Laélio Ferreira (filho de Othoniel Menezes, foto à esquerda), a quem agradeço pela colaboração:

"Abaixo, um soneto de Othoniel Menezes, dedicado a Adriel Lopes Cardoso (in "Othoniel Menezes - Obra Reunida", Editora UNA, no prelo).
As notas de pé de página são minhas.
Saudação,
Laélio Ferreira

MAIO
Para o romantismo de Adriel Lopes[1]

Maio vai se acabar! - punge dizê-lo!
Quem não ama, este, só, não se envenena
de saudade, esperando o pesadelo
da última noite clara da novena!

Tu, se não tens motivo de escondê-lo,
tu, que me lês, dize se não faz pena
não mais rezar aquela flor morena,
sob o incenso pagão do seu cabelo!

O amor, no mês de maio é suave prece:
gorjeia trinta dias corda a corda[2],
e, igual aos outros cânticos, fenece...

Só o coração, turíbulo vivente
- tanto de aroma ao pé do altar recorda...
Fica esperando maio novamente!


1) Adriel Lopes Cardoso (Natal-RN, 24/01/1900 – Natal-RN, 20/01/1930). Poeta, desenhista, funcionário do Estado, grande boêmio no seu tempo. “Morreu e viveu depressa, como uma luz serena e tímida num altar silencioso” – escreveu sobre ele Câmara Cascudo. Na fase mais boêmia de OM, nos primeiros anos da década de 20, Adriel foi seu companheiro constante de farras. No carnaval de 1926, por exemplo, fizeram parte de um famoso bloco, “Os Quatro Perdidos”. Os outros dois componentes da borrachera quadra eram Olímpio Batista Filho e César Pelinca. A marcha-enredo da “agremiação”, com música de Olímpio Batista, foi registrada no livro Falenas (Natal, 2007,impressão da Natal Gráfica Editora), organizado por Walter Batista de Andrade, filho do musicista, e apresentada pelo Professor Cláudio Galvão.
2) Corda a corda – no sentido de série, cadeia, fileira."
--------Foto de Othoniel Menezes: http://www.minhahistoria.com.br/othoniel/foto_278_37

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O poeta Adriel Lopes Cardoso: um desconhecido?


Para Jarbas Martins, estudioso do soneto no RN

Sempre faltam nomes às histórias literárias dos lugares... Impossível saber tudo.
Porque me foi dado fazê-lo, trago a público notícia de um poeta sobre o qual jamais ouvi/li qualquer referência nos meios literários locais.

Numa Acta Diurna de 1947, publicada no jornal Diário de Natal, Luís da Câmara Cascudo assim escreve:

"ADRIEL...
Na praia de Areia Preta um grupo acompanha meu filho. Um dos rapazes é alto, esguio, de olhos claros. Pergunto-lhe o nome. Adriel Lopes Cardoso! Não pode ser, Adriel Lopes Cardoso está morto. Morto há dezessete anos. Quase não viveu. Esse outro Adriel retoma no Mundo a missão social do primeiro. É seu filho. Nele, o Pai viverá.
(...) Adriel Lopes Cardoso era irmão de Pierre Sá -Poty, o meu companheiro de jornalismo n´IMPRENSA, exilado, falecido no Recife. O irmão era mocinho, menino de buço, fazendo versos, riscando desenhos, sonhando, tendo planos, idéias, um programa de esforço que a vida não lhe consistiu à realização. Quando Pedro Lopes Júnior, o Pierre, viajou, Adriel substituiu-o na camaradagem literária. Sua juventude estava muito próxima dos meus primeiros anos de mocidade. (...) Adriel nasceu no dia de São João do último ano do século XIX, 24 de junho de 1900. Estudou preparatórios e vadiou, gloriosamente, como todo natalense que se oficializava estudante no meu tempo. Empinou corujas, cafunou castanhas, deu gamba-pé no Potengi, comeu sequilho no Passo da Pátria e bebeu garapa de cana a vintém o copo. Quem quizer (sic) acreditar acredite. (...) Era uma inteligência cuja força passava pelo coração antes de positivar-se na forma. Um boêmio de 1830. Rodolfo, figura de Muger, saudoso da moldura literária de sua sensibilidade. Morreu a 20 de janeiro de 1930. Viveu e morreu depressa. Como uma luz serena e tímida num altar silencioso. Naquela noite-paisagem que Adriel amava, luar, praia, mar, serenata, violão, modinhas, o filho evocou-o na minha memória. Nem tudo passa sobre a terra, responde o destino à jandaia de Iracema. O Amor vence o Tempo e prolonga para o infinito, na cadeia de seres, a vida que nele confinou..."


Obs. Essa Acta Diurna foi reproduzida, à guiza de prefácio, no livro SONETOS (1988), onde está reunida parte da produção poética de Adriel Lopes Cardoso. Na apresentação, a filha -Eliane Lopes Cardoso- diz:
"Este é o livro do meu Pai. Livro que ele tanto ansiava publicar em vida. Não contém toda a sua obra. Um terço dela foi publicado na imprensa. Outro, está disperso."
................

São 129 poemas. A grande maioria, sonetos. Alguns, escritos em Serra do Martins.Um, longo, ocupando cinco páginas -"Cleópatra". O último, do ano de sua morte, em forma livre. Uns estão datados ou trazem dedicatória.
Como descobri esse material? Moro no mesmo quarteirão em que reside uma descendente do poeta. Ela me ofereceu um exemplar do livro.
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"SONETO
Adriel Lopes Cardoso

Entre as hórridas formas indecisas,
o olhar aguço do sepulcro ao plinto;
e ouvindo o harpejo lâmure das brisas,
o mesmo anseio flebil triste eu sinto...

Fitando as frias lágeas de Corinto,
sob o franxol do luar, brancas e lisas,
-ó tétrico Nirvana, eu te pressinto
os dedos com que as cousas eternizas!

E, ai de mim se de espanto e medo tremo,
procurando, entre os túmulos gelados,
do atro mistério o epíteto supremo!

Ai de mim que ante o Grifo, ardendo em febre
ululando, blasfemo em altos brados
para que o elo do Enigma atroz se quebre!"

D. QuixoteAdriel Lopes Cardoso

E intrépido cavalga, à ilharga adaga afiada...
Fulge, ao sol, no seu peito, uma antiga medalha,
com a propícia legenda em císculo gravada.
"Por ti, por teu amor, esta nobre batalha".

E pensava:-Lutar, de alvorada a alvorada,
batalhar, sem que a Sorte, um momento, me valha,
e investir, sem tremer, a legião negra e alada
de monstro, cuja espada, atra, um peito retalha,

e a Morte, vis a vis, enfrentar na peleja,
vendo partir-se o escudo ao golpe do inimigo,
e sentir, num milagre, a Glória, ígnea, na idéia...

Ao largo há de brilhar esse nome que adeja
aqui dentro do peito e que arrasta comigo,
os troféus da vitória, -ó pura Dulcinéia!

30.09.920"
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CARDOSO, Adriel Lopes. Sonetos. Natal: Nodeste Gráfica Ltda., 1988 (p. 44 e 55)

terça-feira, 21 de julho de 2009

...bonito pra chover


nestes dias de inverno, de repente me pego olhando o céu e dizendo "tá bonito pra chover"... eu mesma me espantei pelo longo tempo sem ouvir essa expressão tão comum em Nova Palmeira do tempo d´eu menina.
era a meteorologia de todos. qualquer criança sabia. aliás, deve ser a meteorologia de todos os interiores do Brasil, das cidades pequenas, sem edifícios, mas guardo a lembrança daquela de lá. e dos muitos braços de mulheres arrancando roupas dos varais, depressa, depressa
...
Bonito pra chover é mais bonito do que previsão do tempo para todo o Brasil, amanhã, na tv.

havia outros falares: vou dormir uma madorna... a chave? deixei em cima do atajé... remédio bom pra tosse é leite ferrado...

madorna, atajé, leite ferrado com pedra incandescente...

e o Kirie eleison nas missas. talvez ninguém soubesse que estava cantando senhor, tem piedade (de mim, de nós)

uma prima -Maria -, ávida por ler o Adoremus no mês de maio, diante dos devotos, esquece o som do PH e diz, bem alto: então o Pilho de Maria...

ah, essas lembranças que o inverno traz...

e continua bonito pra chover.
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Imagem: http://www.osmais.com/index.php?ver=NTExMg==

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Roberto Carlos para além de RC

Para Tetê Bezerra

sempre tive resistência a tudo que 'pega' demais, a tudo que vira (quase) unanimidade, talvez por achar que esse fenômeno tem muito de contágio mental, rebanhismo. por isso mesmo nunca li Freud de baco a barro ou, se é preferível, de cabo a rabo (cabo a rabo não sei de quê...), quando ele era O Autor...
foi assim com Roberto Carlos. nunca comprei um disco dele, embora goste bastante de algumas canções suas, não sei se pela singeleza, pela forma como traduz nossos troços sentimentais.

noite dessas ouvi "Alô", tocando ao longe, num rádio, na vizinhança lateral da casa. fui à janela para ouvir melhor. era a primeira vez que escutava de verdade a canção, que já deve ter umas duas décadas. e ouvi como quem deixou o café na mesa mas, de súbito, olha e diz "ah, tinha esquecido", e verifica que está bem morno, ao ponto, e bebe com gosto.

sábado passado ele estava lá, naquele palco-céu, feito o santo da música popular deste Brasil tresvariado musicalmente e em outros aspectos.
parecia um totem diante do qual cessaram, por duas horas, todas as agonias de um povo que diariamente sangra.

escutei tudo em estado de inocência, sem julgamentos, comparações, sem me importar com a logomarca do canal, sem adjetivos.

pela primeira vez escutei Roberto Carlos para além de Roberto Carlos.

parecia um velho da aldeia, meio místico e sem cachimbo, contando histórias de amor cantando.

demorei a adormecer, mas dormi bem.

sábado, 11 de julho de 2009

...fui olhar Júpiter e já venho


esses tomates..., espalhe por aí, lave o rosto com esse licor, transforme essas toalhas em pássaros e solte pela janela, esses livros -ponha pra dormir, essas roupas: forre o chão com elas. essas contas, ponha na água que ferve, esse relógio, derreta como Dali, se descalce, passe de uma margem à outra de olhos fechados, seja sem palavras: recém-nascido, apenas grite dentro d´água na travessia salgada e ardente, eu não espero do outro lado, eu não espero, quem deve esperar você, agora, é você!

não volte normal, não volte com os mesmos cuidados, não volte com as regras polidas, não volte como quem reaparece, não volte com caixas do passado nem com mercados de futuro, não volte num falso 'neo' de recém-analisando, não volte, não volte...

se for possível, apenas venha...

se eu não estiver, é que fui olhar Júpiter e já venho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Foto histórica: Zila Mamede em Nova Palmeira . Começo dos anos 1960(?)


Zila Mamede em sua terra natal (ao centro, em pose de violonista. Foto do arquivo de Tetê Bezerra).
Lembremos as dedicatórias de O Arado, publicado em 1959:
"A meu avô Caçote

A Nova Palmeira,
terra mãe, fonte raiz,
chão do meu chão"
.................

O ALTO* (O AVÔ)

Dum anteavô tivera na colina
os alicerces, que de avô ganhara
açude, pastos, farinhadas, chão.

Guardara na cacimba os aguaceiros
e de seu sono sacudira ovelhas,
meninos, maravilhas, plantação.

Multiplicara à mesa concha e mel:
moinhos que teceram do amarelo
de tanta espiga, madrugada e pão.

Em campo arado repartira mudas
que mãos infantes modelaram sob
plantio manso e vesperal de grão.

De terra e de meninos comporia
(na velha bolandeira da tapera)
essa marca de suor numa canção.

(In O Arado, 1978)
-----
A casa onde o velho Caçote morava ficava num alto (daí a toponímia), a cerca de 1,5 km da então vila de Nova Palmeira. Morou lá, depois, Francisco Bezerra de Medeiros, tio de Zila pelo lado materno.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Loja de inconveniência



De repente encontro você na loja de conveniência... Às vezes acontece assim: apresso-me para sair, como se tivesse um encontro marcado e o relógio mental dissesse que estou atrasada. Você, com uma cara de sapato molhado, sem jeito, pedindo uma ponta de sol, como aquela que nos acordou algum dia. Parte do meu chocolate derreteu na boca, enquanto a outra caía da mão. Você se abaixou rápido, num gesto de quem vai salvar um pequeno tesouro. Um cuidado tardio de quem, antes, se distraiu por muito mais. Muito mais?... Pensando bem, que muito mais?... Quando se vive algo denso, não há muito mais. É isso, foi isso, só isso. Experiência de montanha russa num parque imprevisto. Ou de acordar num deserto, agulhas de areia impedindo que se abram os olhos e assim mesmo ri-se. Muito mais é aquele pedacinho de chocolate que você tentou salvar. Esse salvamento foi uma salvação definitiva.
Em segundos, a loja ficou inconveniente para nós.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Só queria estourar uns balões...


Havia balões coloridos desde a calçada até ao portão. Um toldo de balões. Mães chegando com suas crianças para a festa de aniversário do sobrinho da prima da secretária do tio do presidente de qualquer coisa. Microlâmpadas enroladas no tronco das árvores davam uma graça especial ao jardim sem muros. Por não haver muros, a menina de rua foi até lá. Queria entrar também. Um parente do sobrinho da prima etc fazia as vezes de porteiro.
-Ô menina, vá se afastando.
-Por que não posso também?...
-Você nem sandália tem. Dê o fora.
A menina se foi, mas meia hora depois voltou.
-Pronto. Eu tenho sandália.

E mostrou as sandálias brancas. Eram tirinhas de papel coladas nos pés com chiclete, à maneira das sandálias havaianas.
O porteiro, um rapaz de uns 18 anos, alegou que o cabelo dela era assanhado.
-Mas é do jeito do cabelo daquela atriz da novela... Eu vi na tv da lanchonete. Gostei, mandei fazer igual.
-Não encha a minha paciência. Aqui você não entra.
-Mas moço, não é você que toca e canta, todo sábado, uns raps pra Deus, naquela igreja ali embaixo?
-É. Como é que você sabe?
-Minha mãe, que não tem dinheiro nenhum, pega o dinheiro nenhum que ela tem e dá pra vocês... Aí eu fico sem roupa e sem sandália de mesmo.

Um tanto envergonhado, o moço foi buscar uns doces para a insistente.
-Tome. Fique satisfeita e vá.
-Não, moço, quero não. Doce engorda e estraga os dentes. Pode comer. Eu só queria estourar uns balões.
Rasgou as sandalinhas de papel e saiu feliz. Como se fosse ela mesma a festa.

Lançamento de A Nação Guesa de Sousândrade

Será logo mais às 19h, na Poty Livros da av. Salgado Filho, o lançamento de A Nação Guesa de Sousândrade, autoria de Ana Santana Souza (sua pesquisa de doutorado).
Como poeta (e grande poeta), a autora assina-se Ana de Santana. Aqui vai um poema seu, de Em Nome da Pele:

Autoria

Para fazer uma casa,
cubra o pé
com areia molhada
e o tire bem devagar
Depois é só alisar as arestas

A escritura de posse
não é lavrada em cartório
O dote do chão
é para João-de-barro
que em todo lugar
eleva seu canto
e constrói um lar
Divulgue seu blog!
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