sexta-feira, 24 de julho de 2009

O poeta Adriel Lopes Cardoso: um desconhecido?


Para Jarbas Martins, estudioso do soneto no RN

Sempre faltam nomes às histórias literárias dos lugares... Impossível saber tudo.
Porque me foi dado fazê-lo, trago a público notícia de um poeta sobre o qual jamais ouvi/li qualquer referência nos meios literários locais.

Numa Acta Diurna de 1947, publicada no jornal Diário de Natal, Luís da Câmara Cascudo assim escreve:

"ADRIEL...
Na praia de Areia Preta um grupo acompanha meu filho. Um dos rapazes é alto, esguio, de olhos claros. Pergunto-lhe o nome. Adriel Lopes Cardoso! Não pode ser, Adriel Lopes Cardoso está morto. Morto há dezessete anos. Quase não viveu. Esse outro Adriel retoma no Mundo a missão social do primeiro. É seu filho. Nele, o Pai viverá.
(...) Adriel Lopes Cardoso era irmão de Pierre Sá -Poty, o meu companheiro de jornalismo n´IMPRENSA, exilado, falecido no Recife. O irmão era mocinho, menino de buço, fazendo versos, riscando desenhos, sonhando, tendo planos, idéias, um programa de esforço que a vida não lhe consistiu à realização. Quando Pedro Lopes Júnior, o Pierre, viajou, Adriel substituiu-o na camaradagem literária. Sua juventude estava muito próxima dos meus primeiros anos de mocidade. (...) Adriel nasceu no dia de São João do último ano do século XIX, 24 de junho de 1900. Estudou preparatórios e vadiou, gloriosamente, como todo natalense que se oficializava estudante no meu tempo. Empinou corujas, cafunou castanhas, deu gamba-pé no Potengi, comeu sequilho no Passo da Pátria e bebeu garapa de cana a vintém o copo. Quem quizer (sic) acreditar acredite. (...) Era uma inteligência cuja força passava pelo coração antes de positivar-se na forma. Um boêmio de 1830. Rodolfo, figura de Muger, saudoso da moldura literária de sua sensibilidade. Morreu a 20 de janeiro de 1930. Viveu e morreu depressa. Como uma luz serena e tímida num altar silencioso. Naquela noite-paisagem que Adriel amava, luar, praia, mar, serenata, violão, modinhas, o filho evocou-o na minha memória. Nem tudo passa sobre a terra, responde o destino à jandaia de Iracema. O Amor vence o Tempo e prolonga para o infinito, na cadeia de seres, a vida que nele confinou..."


Obs. Essa Acta Diurna foi reproduzida, à guiza de prefácio, no livro SONETOS (1988), onde está reunida parte da produção poética de Adriel Lopes Cardoso. Na apresentação, a filha -Eliane Lopes Cardoso- diz:
"Este é o livro do meu Pai. Livro que ele tanto ansiava publicar em vida. Não contém toda a sua obra. Um terço dela foi publicado na imprensa. Outro, está disperso."
................

São 129 poemas. A grande maioria, sonetos. Alguns, escritos em Serra do Martins.Um, longo, ocupando cinco páginas -"Cleópatra". O último, do ano de sua morte, em forma livre. Uns estão datados ou trazem dedicatória.
Como descobri esse material? Moro no mesmo quarteirão em que reside uma descendente do poeta. Ela me ofereceu um exemplar do livro.
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"SONETO
Adriel Lopes Cardoso

Entre as hórridas formas indecisas,
o olhar aguço do sepulcro ao plinto;
e ouvindo o harpejo lâmure das brisas,
o mesmo anseio flebil triste eu sinto...

Fitando as frias lágeas de Corinto,
sob o franxol do luar, brancas e lisas,
-ó tétrico Nirvana, eu te pressinto
os dedos com que as cousas eternizas!

E, ai de mim se de espanto e medo tremo,
procurando, entre os túmulos gelados,
do atro mistério o epíteto supremo!

Ai de mim que ante o Grifo, ardendo em febre
ululando, blasfemo em altos brados
para que o elo do Enigma atroz se quebre!"

D. QuixoteAdriel Lopes Cardoso

E intrépido cavalga, à ilharga adaga afiada...
Fulge, ao sol, no seu peito, uma antiga medalha,
com a propícia legenda em císculo gravada.
"Por ti, por teu amor, esta nobre batalha".

E pensava:-Lutar, de alvorada a alvorada,
batalhar, sem que a Sorte, um momento, me valha,
e investir, sem tremer, a legião negra e alada
de monstro, cuja espada, atra, um peito retalha,

e a Morte, vis a vis, enfrentar na peleja,
vendo partir-se o escudo ao golpe do inimigo,
e sentir, num milagre, a Glória, ígnea, na idéia...

Ao largo há de brilhar esse nome que adeja
aqui dentro do peito e que arrasta comigo,
os troféus da vitória, -ó pura Dulcinéia!

30.09.920"
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CARDOSO, Adriel Lopes. Sonetos. Natal: Nodeste Gráfica Ltda., 1988 (p. 44 e 55)

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