quinta-feira, 2 de julho de 2009

Só queria estourar uns balões...


Havia balões coloridos desde a calçada até ao portão. Um toldo de balões. Mães chegando com suas crianças para a festa de aniversário do sobrinho da prima da secretária do tio do presidente de qualquer coisa. Microlâmpadas enroladas no tronco das árvores davam uma graça especial ao jardim sem muros. Por não haver muros, a menina de rua foi até lá. Queria entrar também. Um parente do sobrinho da prima etc fazia as vezes de porteiro.
-Ô menina, vá se afastando.
-Por que não posso também?...
-Você nem sandália tem. Dê o fora.
A menina se foi, mas meia hora depois voltou.
-Pronto. Eu tenho sandália.

E mostrou as sandálias brancas. Eram tirinhas de papel coladas nos pés com chiclete, à maneira das sandálias havaianas.
O porteiro, um rapaz de uns 18 anos, alegou que o cabelo dela era assanhado.
-Mas é do jeito do cabelo daquela atriz da novela... Eu vi na tv da lanchonete. Gostei, mandei fazer igual.
-Não encha a minha paciência. Aqui você não entra.
-Mas moço, não é você que toca e canta, todo sábado, uns raps pra Deus, naquela igreja ali embaixo?
-É. Como é que você sabe?
-Minha mãe, que não tem dinheiro nenhum, pega o dinheiro nenhum que ela tem e dá pra vocês... Aí eu fico sem roupa e sem sandália de mesmo.

Um tanto envergonhado, o moço foi buscar uns doces para a insistente.
-Tome. Fique satisfeita e vá.
-Não, moço, quero não. Doce engorda e estraga os dentes. Pode comer. Eu só queria estourar uns balões.
Rasgou as sandalinhas de papel e saiu feliz. Como se fosse ela mesma a festa.

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