segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Os ventos dos eventos

Natal e arredores (Praia da Pipa) terão eventos literários importantes, neste setembro que se inicia cheio de luar e suave calor. Primeiro, o XIII Seminário Nacional e IV Seminário Internacional Mulher e Literatura, de 02 a 04, no Hotel Praia Mar, por iniciativa da UnP e apoio da UFRN, Anpoll, Fapern e Capes, entre outros. Serão homenageadas Maria Teresa Horta (jornalista, ficcionista, ensaísta e poetisa portuguesa) e Diva Cunha, natalense, autora de belos livros de poemas e pesquisadora da história da literatura do Rio Grande do Norte.
No dia 04, das 14 às 15h30, participarei, com muito gosto, de uma mesa-redonda sobre a produção poética de Diva, juntamente com os poetas Paulo de Tarso Correia de Melo e Márcio Dantas -também ensaísta, além de professor de literatura na UFRN. Minha abordagem será à Bachelard: "Porções cósmicas da poética de Diva Cunha".

Depois, de 24 a 26, será a vez do FLIPA- Festival Literário da Praia de Pipa, a 70 km de Natal, o recanto sabidamente mais badalado do Rio Grande do Norte.

Bons ventos tragam esses eventos.

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Um poema de Diva Cunha, que estará lançando, no dia 03, às 19h, mais um livro de poemas, "Resina", durante o evento:

Águas falem da sede
em cada molécula destilada

recordai a fluidez do amor
a intensa e dolorosa
carne magoada

(in
Armadilha de Vidro)

domingo, 23 de agosto de 2009

Pé de letra

Acho que escrever começa no útero do silêncio, vem de lá... Não é algo romântico, é trabalhoso, como os partos de que nascem crianças. Médicos e também parteiras analfabetas de letras (há analfabetos de outros saberes), aquelas que acodem mulheres para quem 'chegou a hora', lá nos pés-de-serra, costumam dizer ela entrou em trabalho de parto...

Quem escreve pode ter parto sem dor, mas há sempre uma contração/dilatação do espírito (ou da mente, se preferem), tudo semelhante ao que se passa com o próprio universo, que se dilata e se contrai, segundo os físicos. Talvez por isso nasçam estrelas, enquanto outras são sugadas pelos buracos negros e lá desaparecem...

Escrever é tanto trazer à existência quanto fazer desaparecer. O personagem que passa a 'existir' desaparece de dentro do escritor, ganha autonomia. O buraco negro é a ausência dele na alma/mente do autor, pois o movimento é ao contrário: o personagem não é sugado, mas lançado para fora. O mesmo deve acontecer com os poemas (suponho, aqui na minha ciência sem tubo de ensaio nem telescópio Hubble). Então se escreve mais, mais... Algo falta, algo vem, algo se vai, algo se inicia, algo se conclui... E, pensando com os pés agora no chão, é preciso recobrir o vazio que resta ao se arrancar, com raiz e tudo, cada pé de milho, quer dizer, cada pé de letra -poema, conto, romance... Se tudo dá certo, pode ser um pé de brilho.

Por tudo isso, escrever pode ir do gozoso ao triste, ao difícil. Como abraçar fogueira debaixo de chuva.

Mas é sempre uma necessidade... Necessidade de ordens diferentes: catarse, busca dos diferentes eus, como diz Maria José Quintela (e F. Pessoa?...). Talvez suprimento fantasioso para a viagem -nem sempre fácil- nesta Terra, onde muitos escrevem terríveis histórias com bombas e mísseis e... ponto (quase) final.

Já vou, mas depois volto pra plantar outro pezinho de ciberletra. Este aqui já está anunciando o vazio...
Vou tomar um café... E olhar o céu.

sábado, 15 de agosto de 2009

Car(ess)ências



Ontem um colega-e-amigo interpelou-me acerca do escrever. O que motiva, de onde parte, como se processa...
Mas quem sabe?... Queremos a palavra ou a palavra nos quer?... Que coisa é esse não-sei-quê?...

Tudo é narrativa: o em-branco, a paisagem, a água, o silêncio, o grito, o olhar, o fóssil, o primeiro choro do recém-nascido... Os sonhos, excelentemente -dispensada aqui qualquer sugestão freudiana.

Os ainda chamados loucos são loucos (alguns) porque criam narrativas incompatíveis com o discurso 'normal'. Mas o discurso 'normal' também pode ser uma forma de loucura: uma loucura aplainada. Uma paisagem que foi serrada onde havia montanha, e entupida onde havia abismo.
Questão velha, convenhamos. Platão não permitiria que Homero habitasse a sua cidade utópica porque..., bem, porque a imaginação do poeta poderia desestabilizar o psiquismo da comunidade.

Não sei se a linguagem é um ente, um ser, como dizem alguns mais metafísicos (não os abjuro).
Sei, sentindo, que é necessidade, vontade.
Vontade dessa outra água: não só beber, mas cavar um poço, nem que seja na palma da mão...

Acho, enfim, que escrever não contém nossa 'essência'.
Contém sobretudo nossas car(ess)ências.

E entre o que não sei e o que penso que sei/sinto, vou cavando a mão...

Deixo este dizer:

Toda palavra traz em si a não-palavra
o maior silêncio está por vezes
no que se diz, contido
(...)
Dizer e não-dizer coexistem.

____
(in
Sertania, 1979)

© Mencione a fonte, caso queira citar ou reproduzir.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

filha de escaldantes solidões


As ondas de fevereiro. O excessivo mar, tão excessivo que tudo se tornava demasiado pequeno. Até minhas aflições, meus terrores, minhas impressões quanto a Fausta, minha gana de fazer a minha história por outros caminhos, caminhos que eu mesma ia inventando a partir de condições tão difíceis e amargas e ásperas e quase suicidas. Mas ali eu descansava do meu fardo. Chorei um pouco e acabei adormecendo recostada entre o barco e o tronco do coqueiro. Algum tempo depois, acordei com vozes de pescadores que puxavam suas redes e suas esperanças. Alguns me olhavam curiosos, mas nada sabiam de mim. Nossos universos estavam separados por letras e números, pela instrução e pelo dinheiro. Pelos sonhos, pelos desejos. Por muitas coisas mais. Suas aflições eram outras, certamente. Sentia-me, porém, desmanchada neles. Ou por eles. Eles eram filhos do mar. Eu, filha de escaldantes solidões, dos matos e cactos e das cacimbas que secavam como peitos de mães desnutridas. Eles conheciam os segredos do mar. Eu, os segredos da terra árida, forrada de pedregulhos. Eles viajavam todos os dias por estradas de água, amplas e sem marcas. Eu vinha de andanças por caminhos estreitos e visíveis, de terra desbotada ou avermelhadas. O mundo deles não tinha cercas, o meu tinha...

Sim, as cercas...

As cercas!...

AS CERCAS!

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Trecho do fragmento 18 de "Memórias de Bárbara Cabarrús"

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

um deus rasgado



(...) "Senhor!", gritei. "Senhor!", repeti. Ele parou sem me olhar, depois virou um pouco a cabeça. Apressei-me para alcançá-lo antes que ele resolvesse continuar a caminhada. "Para onde vai?".
Olhando-me com um olhar próprio de quem pertence aos caminhos, disse baixo: "Não sei. Vou". Quis saber se havia algum lugar onde ele se demorava.
"Apenas passo. Onde já não se pode amar, deve-se passar... Esse dizer não é meu, mas me serve. Ando há anos, venho de muito longe, da casa de um homem que tinha muitos livros e gostava de ler em voz alta, principalmente um livro de um certo Zaratustra, ou esse era o nome do livro. Um dia resolvi partir. E adeus, moça".
Puxou a aba do chapéu bem para a frente e prosseguiu. Era perto do por-do-sol, seu corpo estava contornado por um perfil de luz dourada.Fiquei olhando o vulto diminuindo no caminho longo até não mais vê-lo. Quando voltei, o mundo estava escuro. Mas o andarilho deixara uma chama no meu espírito.
Fiquei repetindo mentalmente a frase que não era dele mas lhe servia e a mim também. Fui dormir pensando nele e com ele sonhei.

Sonhei que ele era um deus rasgado, e o deus rasgado soprou o pequeno farol que alumiava meu quarto e se mostrou contornado de luz, tal como eu o percebera lá no caminho. "Deixa-me ir junto", pedi. Ele sorriu e balbuciou com voz areenta:

-É preciso, primeiro, saber ser só, caminhar só. Um andarilho só anda com quem lhe é assemelhado, com aquele cuja presença quase não se percebe.
E evaporou.

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Trecho do fragmento 9 de "Memórias de Bárbara Cabarrús".

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Amorosidades do café


Nivaldete Ferreira


Para mim, o café é mais que um bebida.
É uma bebivida. Uma amorosidade.
Se o tomo só, ele me faz companhia. Uma companhia de bom aroma e bem morna, claro. É assim que o prefiro: não muito quente, que o excesso de quentura estraga a magia.

Se o tomo acompanhada, ele brilha mais, até à última gota. E a conversa é de ave em repouso. Su-ave, sem bicadas no estar-com.

Estranhamente bom é quando a inesperada estrela da amizade desce ao café, assim mesmo, de forma imprevista, misturando-se à terra de onde veio o grão.

Algo se acrescenta à existência, enquanto algo diminui: café perde uma sílaba. Vira fé.
Fé no Encontro, na amizade que, às vezes, parece ter sempre existido, só faltava aquele "ei, chegamos"...

E acontece uma espécie de felicidade boba, a melhor, a verdadeira. Nunca acreditei em felicidades glamurosas. Mas nessa do café...

Ops... é hora de dormir, mas... aceita um café?...

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Direitos Reservados-2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mais Bachelard: o vegetalismo humano

"O homem, em seus grandes signos, possui valor cósmico. Todo grande valor estético do corpo humano pode colocar sua marca sobre o universo. Uma cabeleira prova isso aqui. (...)
Então, ao sonhador cósmico, ao sonhador que completa e aumenta qualquer imagem, são revelados os valores cósmicos da cabeleira. As mais loucas metáforas são verdadeiras. A cabeleira é uma floresta, uma floresta encantada. Os dedos nela se perdem numa carícia infindável. Ela é moita, é cipó. É adorno, obra-prima feminina. Eis o vegetalismo animal, o vegetalismo humano, o tão profundo vegetalismo da mulher. "




IMAGEM: http://clubedolivro.files.wordpress.com/2009/01/gaston-bachelard.jpg
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