sábado, 15 de agosto de 2009

Car(ess)ências



Ontem um colega-e-amigo interpelou-me acerca do escrever. O que motiva, de onde parte, como se processa...
Mas quem sabe?... Queremos a palavra ou a palavra nos quer?... Que coisa é esse não-sei-quê?...

Tudo é narrativa: o em-branco, a paisagem, a água, o silêncio, o grito, o olhar, o fóssil, o primeiro choro do recém-nascido... Os sonhos, excelentemente -dispensada aqui qualquer sugestão freudiana.

Os ainda chamados loucos são loucos (alguns) porque criam narrativas incompatíveis com o discurso 'normal'. Mas o discurso 'normal' também pode ser uma forma de loucura: uma loucura aplainada. Uma paisagem que foi serrada onde havia montanha, e entupida onde havia abismo.
Questão velha, convenhamos. Platão não permitiria que Homero habitasse a sua cidade utópica porque..., bem, porque a imaginação do poeta poderia desestabilizar o psiquismo da comunidade.

Não sei se a linguagem é um ente, um ser, como dizem alguns mais metafísicos (não os abjuro).
Sei, sentindo, que é necessidade, vontade.
Vontade dessa outra água: não só beber, mas cavar um poço, nem que seja na palma da mão...

Acho, enfim, que escrever não contém nossa 'essência'.
Contém sobretudo nossas car(ess)ências.

E entre o que não sei e o que penso que sei/sinto, vou cavando a mão...

Deixo este dizer:

Toda palavra traz em si a não-palavra
o maior silêncio está por vezes
no que se diz, contido
(...)
Dizer e não-dizer coexistem.

____
(in
Sertania, 1979)

© Mencione a fonte, caso queira citar ou reproduzir.

13 comentários:

  1. Muito bom esse texto, Nivaldete. A mim me parece que escrever é um (também) tentar curar-se das dores da existência. Palavras, afinal, são solidárias. Abraço.

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  2. É isso... A vida dá os espantos e os en-cantos também. Às palavras! E boa semana, companheiro de linguagem!

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  3. Esse texto bem nos redime e quase nos salva. Um beijo, querida.

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  4. Obrigada, Sheyla, pela bela visita e as sensíveis palavras. um beijo pra ti!

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  5. Olá Nivaldete, que surpresa boa a sua visita! Uma das melhores coisas que a blogosfera me proporciona é conhecer pessoas incríveis, sensíveis como você. Adorei seu espaço! Mais ainda suas letras que são repletas de essências e caressências lindas.
    Eu também me sinto assim, escrevo sobre o que me toca a alma, seja um poste, um pássaro, um nascer de sol. A natureza fala comigo e eu apenas transcrevo, inclusive já me acusei de plágio, por copiar dela as sensações. "É necesidade, vontade" e, no meu caso, é cura também (leia o meu espaço: Fractais).
    Vou te seguir pelo Reader e voltarei certamente!
    Um beijo!

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  6. Obrigada, Claudinha! Muito bom que você tenha vindo ao meu terraço também. Vou pegar as sandálias e visitar você, agora! Um beijo.

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  7. Bem-aventurados os mestres da Palavra, como você.
    Bem-aventurados os que trabalham a Palavra, como você.
    Car(ess)ênsia é uma bela construção. Belíssima!

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  8. Entre o escrever e o dizer, o dizer e o não escrever há sempre um intervalo secreto, onde o tempo de catarse do escritor pode estar contido.

    Gostei desta reflexão, asserção.

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  9. Bosco, que lindo o que você deixou na parede! Tchi, você complementou belamente o texto... Um abraço grande!

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  10. A escrita não contém, ela liberta. Parcialmente, todavia.

    Segundo a Acústica, o som é composto de ruídos e silêncios inttercalados.

    Obrigado pela visita. :)

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  11. O silêncio da escrita é outro, Thiago. Você sabe... Não é físico. Um abraço.

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  12. BELÍSSIMA CONSYTRUÇÃO Care(sse)ncia.

    Só quem escreve entende.

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