quinta-feira, 13 de agosto de 2009

filha de escaldantes solidões


As ondas de fevereiro. O excessivo mar, tão excessivo que tudo se tornava demasiado pequeno. Até minhas aflições, meus terrores, minhas impressões quanto a Fausta, minha gana de fazer a minha história por outros caminhos, caminhos que eu mesma ia inventando a partir de condições tão difíceis e amargas e ásperas e quase suicidas. Mas ali eu descansava do meu fardo. Chorei um pouco e acabei adormecendo recostada entre o barco e o tronco do coqueiro. Algum tempo depois, acordei com vozes de pescadores que puxavam suas redes e suas esperanças. Alguns me olhavam curiosos, mas nada sabiam de mim. Nossos universos estavam separados por letras e números, pela instrução e pelo dinheiro. Pelos sonhos, pelos desejos. Por muitas coisas mais. Suas aflições eram outras, certamente. Sentia-me, porém, desmanchada neles. Ou por eles. Eles eram filhos do mar. Eu, filha de escaldantes solidões, dos matos e cactos e das cacimbas que secavam como peitos de mães desnutridas. Eles conheciam os segredos do mar. Eu, os segredos da terra árida, forrada de pedregulhos. Eles viajavam todos os dias por estradas de água, amplas e sem marcas. Eu vinha de andanças por caminhos estreitos e visíveis, de terra desbotada ou avermelhadas. O mundo deles não tinha cercas, o meu tinha...

Sim, as cercas...

As cercas!...

AS CERCAS!

.........
Trecho do fragmento 18 de "Memórias de Bárbara Cabarrús"

8 comentários:

  1. Francisnaldo Borges13 de agosto de 2009 11:12

    Invenção dos próprios caminhos:"inventando a partir de condições difíceis, amargas, ásperas e quase suicidas. Mas alí eu descansava meu fardo. Chorei"...Conheço bem essas brenhas em estradas de se perder. Preocupa-me um homem não mais chorar/sorrir, enrijecido pelas contingências de um tempo férreo. A racionalidade às vezes embrutece. Minhas "escaldantes solidões" foram além dos cactos e cacimbas, onde me criei. Nem sei mais cantar na acústica do banheiro: voz em(bacia)da. Mas sei que estou diante de um texto avassalador: Bárbara não se cala.

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  2. Que lindo!... Um beijo meu/de Bárbara!

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  3. Francisnaldo Borges15 de agosto de 2009 00:00

    "Precupa-me um homem não mais chorar/sorrir, enrijecido pelas contingências"...Somente agora escuto a voz de Adriano, o imperador, como narrou Margueritte Yourcenar em suas memórias. Bárbara, essa mulher, não pode nunca cruzar com Chico Buarque!(risos).

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  4. Rsssssssssss.....!!! Você é demais.... Bjs

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  5. O que dizer depois da maravilha de comentário do Francisnaldo?
    Escaldante!
    Bom domingo, Poeta!

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  6. É..., vocês... Maravilhosos. E aí, Bosco?... Manda um endereço pra que eu possa enviar Bárbara pra você... Manda pra aquele e-mail que indiquei lá no seu blog... Ou bastam essas porções que deixo cair por aqui?... Um abração e bom domingo.

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  7. Eu já enviei.Quinta-feira.
    O endereço deve estar correto, uma vez que não me foi devolvido.
    Bom domingo e uma semana de muita luz.

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  8. Francisnaldo Borges16 de agosto de 2009 06:32

    Agradeço a Bo(u)sco pelas lin(h)das palavras em comentário nesse "lápis"... fran.borg@hotmail.com.

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