domingo, 23 de agosto de 2009

Pé de letra

Acho que escrever começa no útero do silêncio, vem de lá... Não é algo romântico, é trabalhoso, como os partos de que nascem crianças. Médicos e também parteiras analfabetas de letras (há analfabetos de outros saberes), aquelas que acodem mulheres para quem 'chegou a hora', lá nos pés-de-serra, costumam dizer ela entrou em trabalho de parto...

Quem escreve pode ter parto sem dor, mas há sempre uma contração/dilatação do espírito (ou da mente, se preferem), tudo semelhante ao que se passa com o próprio universo, que se dilata e se contrai, segundo os físicos. Talvez por isso nasçam estrelas, enquanto outras são sugadas pelos buracos negros e lá desaparecem...

Escrever é tanto trazer à existência quanto fazer desaparecer. O personagem que passa a 'existir' desaparece de dentro do escritor, ganha autonomia. O buraco negro é a ausência dele na alma/mente do autor, pois o movimento é ao contrário: o personagem não é sugado, mas lançado para fora. O mesmo deve acontecer com os poemas (suponho, aqui na minha ciência sem tubo de ensaio nem telescópio Hubble). Então se escreve mais, mais... Algo falta, algo vem, algo se vai, algo se inicia, algo se conclui... E, pensando com os pés agora no chão, é preciso recobrir o vazio que resta ao se arrancar, com raiz e tudo, cada pé de milho, quer dizer, cada pé de letra -poema, conto, romance... Se tudo dá certo, pode ser um pé de brilho.

Por tudo isso, escrever pode ir do gozoso ao triste, ao difícil. Como abraçar fogueira debaixo de chuva.

Mas é sempre uma necessidade... Necessidade de ordens diferentes: catarse, busca dos diferentes eus, como diz Maria José Quintela (e F. Pessoa?...). Talvez suprimento fantasioso para a viagem -nem sempre fácil- nesta Terra, onde muitos escrevem terríveis histórias com bombas e mísseis e... ponto (quase) final.

Já vou, mas depois volto pra plantar outro pezinho de ciberletra. Este aqui já está anunciando o vazio...
Vou tomar um café... E olhar o céu.

17 comentários:

  1. Parto, necessidade e suprimento, Nivaldete. Você o disse bem. E parto normal, sem anestésico e sem parteira. Muito bom seu post.
    Abraço.

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  2. gostei sobretudo do reconhecimento de que somos analfabetos de muitos saberes, além de o sermos de tantas escritas.

    um grande abraço!

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  3. Eduardo e Almariada, obrigada pela passagem. Vocês sempre complementam esses textos ricamente. Acho que vale por isso também o trabalho de ficar partejando uma idéia/sentimento. Sejam meus co-autores sempre! Um beijo duplo!

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  4. O parto do silêncio!
    Escrever talvez até seja fácil. Difícil é saber o que fazer com a escrita. Você o sabe, senhora das palavras.
    Abraços.

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  5. oh, Bosco... Você dizer isso... Você, que tem palavras tão densas e tão certeiras... Fico co-movida. Um abraço.

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  6. Nivaldete: gosto muito e acompanho seus escritos. Aproveito para agradecer sua visita.
    Abraço, Luiz Assunção.

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  7. É bom saber que minhas pequenas produções aqui tem agradado. O outro é o eco da nossa palavra. Fico sinceramente feliz por tê-lo como leitor. Gostei também da sua página. Vamos nos visitando... (Já acessou Criança do Futuro? Na lateral do blog. É muito interessante) Um abraço!

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  8. amo os "pezinhosde ciberletra" que vc planta
    bj

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  9. "como abraçar fogueira debaixo de chuva" foi algo que tornou minha semana melhor, moça.
    vai ser boa assim lá em casa! (risos).
    um beijo, S.

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  10. Nossa, moça! Que belo texto! Bom demais...
    Parabéns, Nivaldete!
    Sou sua mais nova "seguidora"! Posso colocar seu link no meu blog?
    Grande beijo,
    Cláudia.

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  11. Nonato, você é um Dom Nato, nem se discute... Fico feliz por você amar meus pezinhos de ciberletra...Obrigada!

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  12. Mme. S., olha só quem fala!... És a dos divinos achados... Fico feliz pelos seus sinais na minha parede... Beijos!

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  13. Cláudia, obrigada pelas palavras tão boas, exuberante contista! Fico orgulhosa de ter você entre meus 'seguidores'.Um abraço grande!

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  14. As palavras me deixam como filhos mal ouvidos.

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  15. Francisnaldo Borges28 de agosto de 2009 11:26

    Quando Genésio chegou do sul, começou um festival de risadas: "Lá eu conto muitas presepadas daqui. Esses 'beraderos'dizem que só tomam banho com água quebrada a frieza"... Mas um vizinho de leitura, deixou a risadagem baixar para não fazer feio nem repreender o homem na bucha: "Mas é frase muito bem feita Seu Genézio. Dessas ditas por todos, lembradas nesse falatório, foi nessa metáfora aonde achei tão profunda conotação. Isso é poesia, que lá pra dentro dos prédios ninguém tem tempo de sentir.O senhor esqueceu do tempo que tomava água dormida"?

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  16. o silêncio escorre lírico na ponta deste lápis virtual...

    beijos...

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  17. Ai dos lápis virtuais (e reais) não fosse essa sensibilidade do/a leitor/a... É um excelente estimulante esse retorno.Muito obrigada, Mulher na Janela. Já passei na sua calçada e vou de novo. Dentro de casa tem muita coisa bonita também! Um abraço forte.

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