quarta-feira, 12 de agosto de 2009

um deus rasgado



(...) "Senhor!", gritei. "Senhor!", repeti. Ele parou sem me olhar, depois virou um pouco a cabeça. Apressei-me para alcançá-lo antes que ele resolvesse continuar a caminhada. "Para onde vai?".
Olhando-me com um olhar próprio de quem pertence aos caminhos, disse baixo: "Não sei. Vou". Quis saber se havia algum lugar onde ele se demorava.
"Apenas passo. Onde já não se pode amar, deve-se passar... Esse dizer não é meu, mas me serve. Ando há anos, venho de muito longe, da casa de um homem que tinha muitos livros e gostava de ler em voz alta, principalmente um livro de um certo Zaratustra, ou esse era o nome do livro. Um dia resolvi partir. E adeus, moça".
Puxou a aba do chapéu bem para a frente e prosseguiu. Era perto do por-do-sol, seu corpo estava contornado por um perfil de luz dourada.Fiquei olhando o vulto diminuindo no caminho longo até não mais vê-lo. Quando voltei, o mundo estava escuro. Mas o andarilho deixara uma chama no meu espírito.
Fiquei repetindo mentalmente a frase que não era dele mas lhe servia e a mim também. Fui dormir pensando nele e com ele sonhei.

Sonhei que ele era um deus rasgado, e o deus rasgado soprou o pequeno farol que alumiava meu quarto e se mostrou contornado de luz, tal como eu o percebera lá no caminho. "Deixa-me ir junto", pedi. Ele sorriu e balbuciou com voz areenta:

-É preciso, primeiro, saber ser só, caminhar só. Um andarilho só anda com quem lhe é assemelhado, com aquele cuja presença quase não se percebe.
E evaporou.

.............
Trecho do fragmento 9 de "Memórias de Bárbara Cabarrús".

8 comentários:

  1. 'Olhar próprio de quem pertence aos caminhos...' A solidão está toda contida aí.
    Parabéns!

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  2. Um gosto oriental. Um sabor da antiga sabedoria, da cor da solidão. Belo texto, minha cara Poeta.
    O que fazer para ter acesso ao livro?
    Parabéns!

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  3. Eduardo, tenho fascínio pelos andarilhos. Há uma postagem, entre as mais antigas, sobre um que já passou duas vezes perto da minha casa. Veja lá... E se quiser receber um exemplar do livro, mande um endereço para nivaldete@yahoo.com.br
    Enviarei com prazer.Grande abraço

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  4. Bosco, meu poeta, mande um endereço para nivaldete@yahoo.com.br
    Bárbara deplora as cercas, ensina sua boneca de pano a viajar num cavalinho de sabugo, viaja em sonhos... Certamente gostará muito de chegar ao Ceará... Abraços!

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  5. Francisnaldo Borges13 de agosto de 2009 00:50

    Nivaldete (ou Mil): de imediato senti passar o espírito de D.Juan, como descrevia Carlos Castañeda em suas experiências com o "mescalito". Os andarilhos nos dizem muito. Mesmo assim, fragmentado, já gosto da personagem Bárbara. E acabo de sentir um cheiro Rosas.

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  6. OBRIGADA PELO "MIL"... QUEM MULTIPLICA O OUTRO É JÁ UM MULTIPLICADO... Interessante essa relação com Castañeda... Curioso é que, nestes últimos dias, andei lendo algo dele na net. Até quero adquirir. Sincronia, hein?... Abração!

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  7. Francisnaldo Borges13 de agosto de 2009 08:48

    Sempre gostei de caminhar na escuridão, improvisando textos e encenações. Os lugares ermos me atraíam: romantismo e misticidade. À época da leitura, a sabedoria do velho índio me assombrou um pouco, mas nossos espíritos se abraçaram nesse universo. Viagem a Ìxtlan foi o último livro lido. Quando o Jornal Nacional noticiou sua morte, eu já estava em ritmo de competição e seus ensinamentos vieram em retrospectiva. "Precisamos da disposição de guerreiro pra todos os atos. Um guerreiro pode ser ferido, mas não ofendido..."

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