terça-feira, 29 de setembro de 2009

Filosofia dos garranchos



rumo à vida
quando eu ia
estava lá
Sertania

filosofia dos garranchos
escrita no corpo que passava

o olhar salgado da cacimba
o livro aberto da estrada

água do primeiro banho
da criança alfazemada

mas um dia veio o circo
e o Trapézio estava lá

compreendi que a vida é
salto mortal todo dia

então cavei a janela
e depois saltei por ela...

_________
Letra de música composta em 2005, reunindo os títulos de dois livros- Sertania e Trapézio e outros movimentos, como forma de responder à inclusão desses livros num projeto de recital poético que o poeta Eduardo Gosson então desenvolvia. Dedico a ele esta postagem.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

lu´água


descobriram água na lua
há pouco

descobri lua na água
há muito

______
Imagem: http://1.bp.blogspot.com/

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Real é o que vira pássaro...


Um blogue é "uma casa muito engraçada", que não tem teto, não tem nada, a não ser imagens e palavras. E música, eventualmente. Mas moramos intensamente nessa casa, durante os minutos ou horas em que escrevemos ou deambulamos pelos seus labirintos.
Com o tempo, vem a sensação de cafezinho partilhado com alguém que pode estar a milhares de quilômetros. Há respiração e calor. Voyerismo. Escolha de alimentos, cantinhos mais visitados, olhadas, passagens-quase-correndo, retornos... E tudo é importante. Às vezes até perdemos as sandálias, o sono, o siso (velho nome de bom-senso).

Mas ganhamos aurorinhas quando lá fora ou cá dentro faz escuro. Um poema (bonito, impertinente, irônico...), um devaneio, uma imagem, um dito engraçado, uma informação sobre culturas diferentes... Assim fica difícil separar virtual e real. Eles se con-fundem, no verdadeiro sentido da expressão: um se funde com o outro.

Ao perceber, por exemplo, o desaparecimento dos 'seguidores' deste blog, hoje de manhã, desabafei na hora, sem conjeturar que podia se tratar de algo mais global. E era -constatei logo após. Mas a sensação foi mesmo de uma debandada sem despedida. Porque aprendi a querer bem a todos que estavam lá... Como microretratos de pessoas amigas numa parede intangível. Algumas dessas talvez eu nunca venha a encontrar fisicamente. Não importa.

Então, real é o que vira pássaro no céu do nosso imaginário.

Virtual é o que espoca por aí afora e a gente nem percebe.

Meus 'seguidores' sumiram...

Certo: não defendo nenhuma seita ou coisa equivalente. Mas eu gostava de ver os pequenos ícones indicando os leitores que me seguiam, ou melhor: que me 'adotaram'. De repente..., nada! Ninguém! Abro o gadget e nada há lá, a não ser o código de cores. Bateu solidão... Pra onde foram?... Desistência em massa?... Nada fiz para essa deserção...
Será que estão sequestrando até inocentes seguidores de um mero blog de devaneios??...
Não sossego enquanto não achar meus amigos e amigas.
Espero que o blogger devolva esse agrado. Já já.
Estou sentindo falta... São presenças estimadas na minha cibersala.
Quero todo mundo de volta!

sábado, 19 de setembro de 2009


um lado alado

o outro, abismo

mas é na asa

o sismo

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Mi(ni)stério das palavras



Às vezes é assim: elas não querem comparecer... Escolhem descansar no sem-lugar do silêncio.
Vou devagar... Espio. Vontade de soprar uma gaita de taquara, que comprei de um índio na última feira internacional de artesanato, aqui. Quem sabe, as enfeitiço. Não, não vai adiantar, desisto. Elas vão se enfurecer, não sei tocar esse instrumento. Mal sei tocar o teclado do PC. É nele que as convoco e as retiro da Possibilidade para o Ato, e com elas dou alguma forma ao caos cá de dentro. Mas hoje elas estão roucas, birrentas e malcriadas. E esfriadas. Criaturinhas malucas! Volúveis! Bipolares! Abandonantes de maiores que as tem como companhia mais constante! Então me deixam assim, sem cais nem Vênus?...
...

Talvez eu tenha de fazer outra coisa: olhar os descascados da parede, golejar o vento mais bem in-ventado por estas bandas: o de agosto a setembro. Mas vou lá de novo, feito criança que quer acordar a mãe, aí passa a mão no seu cabelo, assim assim...

Uma me olha e me joga uma dura interjeição, com rapidez maior que a de Muntazer al-Zaidi jogando seus sapatos em Bush.

-Nem doeu!, me vingo.

-Hoje não fazemos blog-blog no seu teclado. Estamos bem decepcionadas e mal recepcionadas. Pensa que somos escravas? Vamos acionar o Ministério das Palavras!

-E eu vou acionar o Mistério das Palavras.
-...

Depois se enche de dengo.

-Pelo menos cante pra nós...

-Canto... "Outras palavras... Outras palavras"...

-Cante mais...

-Oito palavras... Outonais palavras... Outrora palavras...

...Oitavas palavras..
. Octogonais palavras...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

15 de setembro de 1928: nascimento de Zila Mamede



Zila Mamede completaria hoje 81 anos, não fosse o adormecer para sempre no abraço das águas da praia do Forte.

"(...)
Passai, marujos, passai,
que não voltarei do mar:
oceânica persisto;
sou produto desse mar
que compus nas minhas mãos
da verdura do meu sangue,
das águas dos olhos meus.

Como pois ser continente
Se fui nascida no mar?
(...)"



__________
In Rosa de Pedra, 1953. Em 1959, publicou O Arado, que agora completa 50 anos.

O mar e Nova Palmeira-PB, onde nasceu, são duas geografias de intensa força para a poeta...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

De 'coisário' e chapéu


Especialmente para Sheyla Azevedo

Todos nós temos o nosso coisário*, aquele bocado de objetos que chamamos de 'minhas coisas', troços que guardamos mesmo quando não tem mais serventia. Faz mal, dizem vozes orientais. Energia retida. Jogar fora, dar a quem precise. Criar o vazio, para que outras coisas venham.

Mas há coisas que ganham personalidade, uma espécie de alma.
Minhas coisas-com-alma são meus chapéus. Ficam gastos, manchados, molinhos, e lá..., guardados, um dentro do outro. Assim conservo essas criaturas por longo tempo, até que fiquem bem feinhos e minha ajudante diga, no meio de uma risada, mas pra quê a senhora quer essas marmotas??...

Marmotas? Meus chapéus?? Sim: marmotas!, ela repete. Horríveis!
E lá se vão uns três, no lixo...

Dois, não, nunca irão embora: um que ganhei de Vicente Vitoriano, quase branco, aba ondeada. O outro, presenteado por Sônia Othon, italiano, bem vermelho.

Verdade é que, com todo o desapego que tento vivenciar, ao jeito oriental, ainda fico meio nostálgica quando chapéus meus vão-se embora sem olhar para trás.

Gosto de senti-los integrados a mim. Um chapéu é Deus segurando meu juízo. O céu tornado uma concha agarrada à minha cabeça.

Quando eles partem, parece que alguéns sairam de casa pra não voltar mais...

..........
'Coisário' está em A Poética do Devaneio. O velho e bom Bachelard assim diz: "(...) Um bom escritor da Champagne, Grosley, diz que sua avó, quando não sabia responder às suas perguntas de criança, dizia: Deixe estar, quando você crescer, verá que existem muitas coisas num coisário". BACHELAR, Gaston. A poética do Devaneio. S. Paulo: Martins Fontes, 1988, pp. 159-160

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Criança/criar



Sou duas
sempre que me olho
no espelho

quando saio

a outra vai
pra onde?


*

A luz é uma água
amarela e seca

clareando

a cara das coisas...


(in Psilinha Cosmo de Caramelo, 1997 -infantil (?), Menção Especial em concurso da União Brasileira de Escritores-1997)

..............

Escrever, em ficção ou poesia, e seja para quem for (criança ou adultos, nós mesmos... ou para ninguém...), parece exigir que passemos do "eu devo" ao "eu quero", até chegarmos à "criança", como sugere Nietzsche, ao falar do Espírito das Três Transformações (Assim Falava Zaratustra). O camelo é o que se limita aos deveres, à obediência, e disso se orgulha. O leão inventa seu caminho, anda só, ruge os seus desejos, combate. A criança é o estado de inocência, "a roda que gira em torno de si mesma". É, por assim dizer, a falta de lembranças, um dar-se a si mesmo, uma entrada na zona do Criativo, sem medos, sem autovigilância castradora. Sem obediência nem combate.

Essa psicanálise alegórica não é uma receita de como se escrever -principalmente para crianças. Pois receita não há.
Mas talvez ajude a entender os movimentos necessários à 'autopermissão' para criar, em qualquer linguagem, em qualquer área.

Criança é zen. Criar também.
Criança lembra criar, como bonança vem de bom.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

ProVocante


Para Almariada e Moacy Cirne

ditos comuns:
gatos pardos
em noite cinza

que se moa a cy
até se ter
o mínimo:

gota

não sangria
desa(s)t(r)ada

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Arte


Uma gente sem arte
não arde:
cinza-se.
Divulgue seu blog!
Informe o código: 956
Faça pontos, ganhe brindes