quarta-feira, 9 de setembro de 2009

De 'coisário' e chapéu


Especialmente para Sheyla Azevedo

Todos nós temos o nosso coisário*, aquele bocado de objetos que chamamos de 'minhas coisas', troços que guardamos mesmo quando não tem mais serventia. Faz mal, dizem vozes orientais. Energia retida. Jogar fora, dar a quem precise. Criar o vazio, para que outras coisas venham.

Mas há coisas que ganham personalidade, uma espécie de alma.
Minhas coisas-com-alma são meus chapéus. Ficam gastos, manchados, molinhos, e lá..., guardados, um dentro do outro. Assim conservo essas criaturas por longo tempo, até que fiquem bem feinhos e minha ajudante diga, no meio de uma risada, mas pra quê a senhora quer essas marmotas??...

Marmotas? Meus chapéus?? Sim: marmotas!, ela repete. Horríveis!
E lá se vão uns três, no lixo...

Dois, não, nunca irão embora: um que ganhei de Vicente Vitoriano, quase branco, aba ondeada. O outro, presenteado por Sônia Othon, italiano, bem vermelho.

Verdade é que, com todo o desapego que tento vivenciar, ao jeito oriental, ainda fico meio nostálgica quando chapéus meus vão-se embora sem olhar para trás.

Gosto de senti-los integrados a mim. Um chapéu é Deus segurando meu juízo. O céu tornado uma concha agarrada à minha cabeça.

Quando eles partem, parece que alguéns sairam de casa pra não voltar mais...

..........
'Coisário' está em A Poética do Devaneio. O velho e bom Bachelard assim diz: "(...) Um bom escritor da Champagne, Grosley, diz que sua avó, quando não sabia responder às suas perguntas de criança, dizia: Deixe estar, quando você crescer, verá que existem muitas coisas num coisário". BACHELAR, Gaston. A poética do Devaneio. S. Paulo: Martins Fontes, 1988, pp. 159-160

17 comentários:

  1. pois, esta é um um problema que também não consigo resolver... às vezes pergunto-me se não devia deitar-me fora a mim... ;)

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  2. Rsss.. Eu às vezes também faria isso, com chapéu e tudo.... Ou sem. Abraço!

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  3. Nunca os usei, mas tenho uma ligação muito forte com chapéus...
    Se eu os tivesse usado, certamente fariam parte de meu "coisário"!

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  4. "Um chapéu é Deus segurando meu juízo."
    Se tivesse jeito, eu ia encher prateleira com frases como esta. Prateleira de chapelaria, claro.
    Ótimo!
    Abraço.

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  5. Adorei a palavra "coisário"... E gostei do texto também, claro.

    Um abraço.

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  6. Obrigada, Bosco, Eduardo, Moacy... Tiro o chapéu pra vocês! Um abraço.

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  7. Nivaldete,

    Adirei este texto por todo seu simbolismo. Frases lindas e cheias de poesia e significado.

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  8. Minha amgiga, nem me fale de coisários, as minhas tralhas são tantas que nem penso em me desfazer delas: só isso já me cansa. Meu beijo.

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  9. Rsss... Mas no meio das tralhas há sempre umas coisas-com-alma... Mire e veja, como diz G. Rosa. Um abraço e obrigada pela visita e os riscados na parede.Vou gostar de você voltar mais...

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  10. Coisário caiu-me assim como "santuário". Não sei explicar. As coisas que nos tomam de jeito são quase ou tão ou mais importantes como as pessoas. E assim, Nivaldete, a gente se coisa por aí. Você me coisa aqui. Eu fico toda coisada de tanta emoção quando chego aqui hoje e vejo esse texto. A propósito, eu adoro chapéus. Tenho dois, de pano. Um branquinho, cheio de vaquinhas. Um outro meio jeitão de menino, italiano, veio bater no meu quengo por esquecimento do dono que foi-se faz tempo. Um outro mais chique, dado por uma amiga que mora em Brasília, ficou velho e amarmotou-se. Sinto saudades dele.
    que mais? obrigada! você é linda, mais que demais, linda assim.
    S.

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  11. parabéns pelo blog, pelo presente a sheyla, também tiro meu chapéu do coisário imaginário, pra vocês duas, o meu lápis de cor'sário, por onde erro meu berro, e do barro fez-se manoel, por onde espia mia, coutos e coitos, eu rogo, eu jogo, de apoito!

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  12. Que lindezas, vocês aqui! Uma chapeuzada de carinho! Retornem...

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  13. Voltei só pra lembrar, Sheyla: foi o seu texto sobre a (velha) bolsa que me levou a escrever sobre os meus (velhos) chapéus... E Carito... Misturar logo Mia e Manoel... esse gato arranha bem o barro e mia ainda melhor..rss... abração!

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  14. Nivaldete, eu achei isso mesmo: que fora a velha bolsa de couro que boceja mais que tudo agora que a havia impelido ao coisário... beijos,

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  15. Nivaldete, seu texto falou forte, pois algum coisário todo mundo tem. Eu mesma tenho tantos, que mesmo com as triagens de todos os anos, ainda ficam muitas coisas inflando meu coisário. Abraços.

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  16. As coisas também ganham corações transplantados e assim se aliam a seus donos. Às vezes somos flagrados dialogando com os objetos, mesmo que deles não escorra sentimento. "O chapéu é o céu e todos nós temos nosso 'coisário'", mas o que tem maior espaço é aquele que amontoa as coisas no bisaco interior. Chapéu-proteção, teto dos sem tetos:"Deus segurando meu juizo".

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