terça-feira, 27 de outubro de 2009

ou a vida é, às vezes, uma ficção


Quando movi a cabeça buscando um garçom, flagrei, sem querer, a cena estranha e nada ficcional (ou a vida é, às vezes, uma ficção): uma moça almoçava sozinha e conversava com... ninguém. Com ninguém propriamente, não: com o copo de suco. Vez por outra, sorria, gesticulava, abria a folha das mãos para ele. Uma conversa amorosa, simpática. Que será que dizia?... Não parecia ser uma atriz (e dificilmente uma atriz iria ensaiar suas falas ali). Talvez sofresse de transtorno mental... Talvez estivesse exercendo o direito de amainar uma crise de solidão. Talvez achasse mais interessante conversar com um copo de suco do que com uma pessoa.

Ah, essa mania de querer compreender e explicar tudo...
A moça parecia em estado de graça, isso devia bastar. Quantos, naquele momento, estavam assim, tão bem, conversando com pessoas?...
Enfim, ela se levantou, esticou a blusa, arrumou o cabelo e foi pagar a conta. Notei que tinha um lado do corpo meio torto.

Mais torta, fiquei pensando, é essa vontade de encontrar resposta até para algo inofensivamente diferente.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

nem ela sabe


Para Sheyla Azevedo
.
.
por que será que uma mulher chora sem motivo aparente?
talvez porque um passarinho comunicou-se com ela, na hora de morrer
talvez para dissolver um pouco a solidez das coisas
talvez por saudade da não-existência que a precedeu
talvez porque o barco de papel não esperou por ela, naquele dia em que choveu na infância
talvez porque
talvez


nem ela sabe
se soubesse talvez nem chorasse

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

um som do universo na infância

.
.

não foi no alto de uma montanha, não foi numa concha do mar, não foi numa cachoeira nem mesmo num trovão que ouvi, pela primeira vez, o som do universo.

foi do casco de um cavalo deixando a areia e pisando num lajedo.
eu vinha na garupa, tinha uns sete anos. Meu avô, na sela, vez por outra dizia "durma não, pequena".
...

hoje, quando tenho insônia, às vezes escuto na memória o casco do cavalo deixando a areia e pisando no lajedo...

domingo, 11 de outubro de 2009

Dia da Criança


meninos de rua
sabem coisas
que os de casa
não, talvez

não ganham brinquedos
apenas tem asa

e menos medos

domingo, 4 de outubro de 2009

A montanha que canta(va)


 




A montanha que canta(va)
foi cantar num tom acima

sob um teto inda mais alto


Mercedes!


agora estamos mais
Sos
aaa...

Ay este azul...
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

o maior brilho
é quando o olho
vê o filho

um filho

é um fio
confiado
à vida
tecelã








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