quinta-feira, 26 de novembro de 2009

por enquanto, por encanto



ele deu uns dez passos e voltou correndo:
-o amor vence, por enquanto...

ela:
-por encanto...

lá em cima os pombos escutavam o amanhecer.

"E o dia amanheceu igual"?

Desigual.

(continuação do poema/conto abaixo, por instigação de Maria Teresa Hellmeister Fornaciari-http://mteresahf.blogspot.com/
Blog Ouvindo Meus Botões)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

...escutavam o entardecer...



por fim, ele disse:
...portanto...

e ela:
...por tão pouco...

e saíram, cada um para um lado.

lá em cima, os pombos escutavam o entardecer...

domingo, 15 de novembro de 2009

estranho invasor do meu quintal

quando vi, estava lá, vindo do quintal pelo beco, rumo à porta da cozinha. Veio se estirando, se arrastando pelo chão que nem cobra, crescendo como monstrinho de filme de terror. Eu quis correr. Ele dono do beco. Roupa verde com manchas embranquiçadas e flores amarelas. Tomou de algum surfista?...
Continuou avançando na minha direção, numa terrível ameaça silenciosa, esse invasor poderoso que me hipnotizava. Dentro de mim escutei a ordem: não falar nada a ninguém, não gritar, não chamar os vizinhos, muito menos a polícia. Que ele não me faria mal.

Fechei a casa e só voltei no dia seguinte. Chamei alguém para verificar comigo sinais do estranho.
Ele continuava lá, agora a um metro da porta da cozinha, prestes a entrar, andando tartarugalmente, do jeito mais amedrontador possível. Lembrei-me das histórias de monstros que a minha avó contava... Esse ali, tão real. E eu, sinceramente, já gostando da presença dele, assim, entre temor e começo de amor...

Falei baixinho à pessoa:
-Sequer posso ir ao quintal... Ele ocupou todo o espaço... E como está sobrevivvendo?... Aí é só cimento... Deve ter comido terra... e está com sede...
Por fim, falei alto:
-Que vamos fazer com esse pé de jerimum?!...


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

a voz do aluno



Os textos abaixo foram produzidos em sala de aula, na disciplina Redação Criativa (Departamento de Artes-UFRN). Sugeri à turma que escrevesse sobre algo vivido na infância.
Alguns textos:

LADRÃO DA LÍNGUA PINTADA DE ROXO
Vítor Bezerra (Comunicação Social) -17-09-2009

O pé de azeitonas roxas que existia no quintal é sempre a primeira imagem que me vem à mente quando penso em pôr num papel memórias dos tempos de criança. Imenso, frondoso, vivo, e, agora, em meus pensamentos, um imponente paradoxo: uma imagem que me toma na hora de escrever palavras. Não penso em letras.
Pura e simples, aquela árvore representa, para mim, a grandeza e a esperteza da natureza. Como pode atiçar o paladar do menino com o doce das azeitonas e o impedir de comê-las escondido, pintando sua língua de vileta-escuro? Ela não sabia, mas era proibição terrível a da minha mãe, que não me deixava, quase que por decreto, catar e comer as centenas de pontos roxos espalhados espalhados pelo chão nas tardes quentes. "Estão pegando fogo, vai gripar!", ela dizia.
Volto no tempo, revisito momentos, traduzo sentimentos em imagens e imagens em palavras: o quintal -um latifúndio-, o galinheiro abandonado, os coelhos -que Deus os tenha no céu dos animais-, e eu, ladrão das frutas, futuro hipocondríaco. Mas pouco me importava o que viria se contente eu griparia após uma bacia de azeitonas suculentas.

INFÂNCIA, OLFATIVA INFÂNCIA
Leandro Garcia (curso de Artes Visuais-UFRN)

Criança, infância, vida.
Era mais um mês de férias na casa da avó.
Dentro de casa aquele cheiro peculiar de naftalina. Por que será que velhos gostam tanto disso?
Me perguntava toda vez em que a visitava.
Do lado de fora os animaizinhos fediam, entre berros e mugidos.
Aquele cheiro de caju cobria todo o pomar.
Mais um entediante mês de férias na casa da vó...

A VIDA
Ana Débora (curso de Artes Visuais-UFRN)

Como era a vida na infância?
Era linda, alegre e tudo resplandecia.
A casa era colorida, de plástico, com móveis de plástico, que fazia "trec" quando apertava o botão; panelas de plástico e cama de plástico. Mas não era tudo de plástico, não! Tinha as cadeiras e mesas de madeira, mas não essa madeira pesada de hoje: uma bem levezinha que quase deixava a boneca cair.
E o tamanho, então? Enquanto hoje é tudo grande, tv de 47 polegadas e cama king size, antigamente era tudo bem pequetitinho.
Ai! E o chão? Como era bonito. O piso... era de AREIA e a casa nem ficava suja, hein!
Na infância era assim: a vida era alegre, não tinha chateação e durava cerca de meia hora. Agora, a vida dura uma vida toda e quase ninguém se lembra dela...

O MISTÉRIO DOS CADARÇOS
Ana Luíza Palhano (curso de Artes Visuais-UFRN)

Tomar banho, ligar e desligar o chuveiro, pentear os cabelos, usar garfos, escovar os dentes... Tudo isso eu já sabia fazer.
Depois do meu desenho preferido, de segunda a sexta, eu repetia as mesmas coisas, as mesmas sequências, mas uma coisa, apenas uma, me impedia de ser dona do meu processo.
Todos os dias me preparava, me arrumava, me alimentava, me perfumava para a chegada da hora, ora preguiçosa, ora gostosa, ora chorosa de ir à escola. Mas uma coisa me impedia de ser dona do meu processo: o danado do cadarço.
Pai, meu tênis... Assim eu apelava e me denunciava. Em segundos, painho, como gostava de chamá-lo, desvendava o mistério dos cadarços.
Mas foi assim, num dia qualquer, numa calçada, em direção à parada de ônibus, que decidi travar a batalha para a minha independência. Atenta aos movimentos dos dedos do meu pai, repeti e finalmente descobri o mistério dos cadarços.
Agora posso dizer que, naquele instante, me senti dona do meu processo.

domingo, 8 de novembro de 2009

a teoria das serras



as serras têm uma teoria.
uma teoria azul-distante
com assinatura de vento.

essa aí da imagem foi a minha primeira professora.
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