quarta-feira, 11 de novembro de 2009

a voz do aluno



Os textos abaixo foram produzidos em sala de aula, na disciplina Redação Criativa (Departamento de Artes-UFRN). Sugeri à turma que escrevesse sobre algo vivido na infância.
Alguns textos:

LADRÃO DA LÍNGUA PINTADA DE ROXO
Vítor Bezerra (Comunicação Social) -17-09-2009

O pé de azeitonas roxas que existia no quintal é sempre a primeira imagem que me vem à mente quando penso em pôr num papel memórias dos tempos de criança. Imenso, frondoso, vivo, e, agora, em meus pensamentos, um imponente paradoxo: uma imagem que me toma na hora de escrever palavras. Não penso em letras.
Pura e simples, aquela árvore representa, para mim, a grandeza e a esperteza da natureza. Como pode atiçar o paladar do menino com o doce das azeitonas e o impedir de comê-las escondido, pintando sua língua de vileta-escuro? Ela não sabia, mas era proibição terrível a da minha mãe, que não me deixava, quase que por decreto, catar e comer as centenas de pontos roxos espalhados espalhados pelo chão nas tardes quentes. "Estão pegando fogo, vai gripar!", ela dizia.
Volto no tempo, revisito momentos, traduzo sentimentos em imagens e imagens em palavras: o quintal -um latifúndio-, o galinheiro abandonado, os coelhos -que Deus os tenha no céu dos animais-, e eu, ladrão das frutas, futuro hipocondríaco. Mas pouco me importava o que viria se contente eu griparia após uma bacia de azeitonas suculentas.

INFÂNCIA, OLFATIVA INFÂNCIA
Leandro Garcia (curso de Artes Visuais-UFRN)

Criança, infância, vida.
Era mais um mês de férias na casa da avó.
Dentro de casa aquele cheiro peculiar de naftalina. Por que será que velhos gostam tanto disso?
Me perguntava toda vez em que a visitava.
Do lado de fora os animaizinhos fediam, entre berros e mugidos.
Aquele cheiro de caju cobria todo o pomar.
Mais um entediante mês de férias na casa da vó...

A VIDA
Ana Débora (curso de Artes Visuais-UFRN)

Como era a vida na infância?
Era linda, alegre e tudo resplandecia.
A casa era colorida, de plástico, com móveis de plástico, que fazia "trec" quando apertava o botão; panelas de plástico e cama de plástico. Mas não era tudo de plástico, não! Tinha as cadeiras e mesas de madeira, mas não essa madeira pesada de hoje: uma bem levezinha que quase deixava a boneca cair.
E o tamanho, então? Enquanto hoje é tudo grande, tv de 47 polegadas e cama king size, antigamente era tudo bem pequetitinho.
Ai! E o chão? Como era bonito. O piso... era de AREIA e a casa nem ficava suja, hein!
Na infância era assim: a vida era alegre, não tinha chateação e durava cerca de meia hora. Agora, a vida dura uma vida toda e quase ninguém se lembra dela...

O MISTÉRIO DOS CADARÇOS
Ana Luíza Palhano (curso de Artes Visuais-UFRN)

Tomar banho, ligar e desligar o chuveiro, pentear os cabelos, usar garfos, escovar os dentes... Tudo isso eu já sabia fazer.
Depois do meu desenho preferido, de segunda a sexta, eu repetia as mesmas coisas, as mesmas sequências, mas uma coisa, apenas uma, me impedia de ser dona do meu processo.
Todos os dias me preparava, me arrumava, me alimentava, me perfumava para a chegada da hora, ora preguiçosa, ora gostosa, ora chorosa de ir à escola. Mas uma coisa me impedia de ser dona do meu processo: o danado do cadarço.
Pai, meu tênis... Assim eu apelava e me denunciava. Em segundos, painho, como gostava de chamá-lo, desvendava o mistério dos cadarços.
Mas foi assim, num dia qualquer, numa calçada, em direção à parada de ônibus, que decidi travar a batalha para a minha independência. Atenta aos movimentos dos dedos do meu pai, repeti e finalmente descobri o mistério dos cadarços.
Agora posso dizer que, naquele instante, me senti dona do meu processo.

5 comentários:

  1. Nossa, que alegria ler esses textos que me fizeram ver o chão de areia, as azeitonas roxas, o cadarço perdido, sentindo aquele cheiro de naftalina que deixa tudo bem marcado e bem limpo na memória! Neste tempo quando as palavras ficam escondidas, porque desprezadas, no final da leitura deles percebi que se tinha formado um sorriso bom na alma, mais disposta do que nunca agora para pensar na rotina cinza deste dia pós-apagão.
    Beijos.

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  2. Amiga Nivaldete,
    Venho do Sempre Jovens agradecer-lhe a visita.
    Li só o primeiro conto, o do Vítor que apanhou uma barrigada de azeitnas "roxas".

    Amanhã volto para ler tudo, prometo.
    Gostei muito do seu Blogue, tenho que "cuscar" tudo :)))

    Beijinho

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  3. Obrigada, Maria Teresa!
    Bem-vinda, Ná!
    Um abraço grande.

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  4. "Língua de calango": a gente dizia com quem estava de boca tingida pelas amoras, jabuticabas e outra frutas agrestes. O ato de colhê-las nunca vai cair em desuso. Muito bons. Abç

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  5. Você sempre co-respondendo, Francis, e acrescentando... Beleza! Um abraço.

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