quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

"Como mudar o mundo"

Amigos e amigas que por aqui passaram, em 2009, e quem pela primeira vez passa: o tempo não tem tempo, a terra gira, anoitece e amanhece, os galos cantam e emudecem na devida hora. Calendários foram criados para organizar a vida e, claro, para fazer celebrações. Então celebro com vocês a entrada de 2010, desejando-lhes contentamentos gerais, de preferência coletivos, no próximo ano. Que cesse essa espécie de exaustão moral a que o país tem sido submetido por sabidas razões. Que venham escândalos, sim, mas de beleza! Que impunemente criativos sejam os artistas, em todas as linguagens. Que maravilhosos e autênticos palhaços -aqueles dos circos - encham de alegria suas meias e calçolas e nos façam rir o riso da bem-aventurança, ajudando-nos a reencontrar a nossa criança, ainda que ela passe de meio século.
Da minha parte, prosseguirei, buscando oferecer, neste espaço, alguma coisa, um qualquer não-sei-quê, talvez quase-nada, uma folha perdida nos campos da net... Uma fo(a)lha..., mas sempre aromada da possível sensibilidade.

Um beijo a vocês.
Não resisto e deixo este conto zen
- metáfora, utopia, possibilidade só no papel, mas lá vai...:




"Era uma vez um cientista que vivia preocupado com os problemas do mundo e decidido a encontrar meios de melhorá-los. Passava dias e dias no seu laboratório à procura de respostas.

Um dia, o seu filho de sete anos invadiu o seu santuário querendo ajudar o pai a trabalhar. Claro que o cientista não queria ser interrompido e, por isso, tentou que o filho fosse brincar em vez de ficar ali a atrapalhá-lo. Mas, como o menino era persistente, o pai teve de arranjar forma de entretê-lo, ali mesmo no laboratório. Foi então que reparou num mapa do mundo que vinha numa página de uma revista. Lembrou-se de cortar o mapa em vários pedaços e depois apresentou o desafio ao pequenote:

- Filho, vais ajudar-me a consertar o mundo! Aqui está o mundo todo partido. E tu vais arranjá-lo para que ele fique bem outra vez! Quando terminares chamas-me, ok?

O cientista estava convencido que a criança levaria dias a resolver o quebra-cabeças que ele tinha construído. Mas surpreendentemente, poucas horas depois, o filho já chamava por ele:

- Pai, pai, já fiz tudo. Consegui consertar o mundo!

O pai não queria acreditar, achava que era impossível um miúdo daquela idade ter conseguido montar o quebra-cabeças de uma imagem que ele nunca tinha visto antes. Por isso, apenas levantou os olhos dos seus cálculos para ver o trabalho do filho que, pensava ele, não era mais do que um disparate digno de uma criança daquela idade. Porém, quando viu o mapa completamente montado, sem nenhum erro, perguntou ao filho como é que ele tinha conseguido sem nunca ter visto um mapa do mundo anteriormente.

- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando tiraste o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando me deste o mundo para eu consertar, eu tentei mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os pedaços de papel ao contrário e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que tinha consertado o mundo."

(Fonte: http://conto-zen-do-dia.blogspot.com/)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

homem do amor

Tantas religiões, tantos livros de ensinar a amar-inclusive os bichos, tantas frases célebres sobre o amor, tantos poemas, tantos crimes e sacrifícios em nome desse sentimento e, de repente, vê-se o amor em ato, generoso, autêntico, sem teorias, sem palavras.

O homem não era nenhum monge budista, nenhum pastor/empresário de alguma igreja, nenhum gritador do nome Deus em praça pública.

Era um carroceiro -e dele já falei aqui, numa das primeiras postagens deste blogue. Mas eis que sua imagem retorna à minha mente, neste período em que chovem mensagens de paz e amor e as lojas festejam faturamentos aumentados.

Ao sair de casa, percebi o homem junto à calçada, ajeitando calmamente uma flor vermelha, de plástico, na cabeça da égua que puxava a carroça já vazia. Pareceu uma forma de amoroso agradecimento. Ou era um cuidado rotineiro.
A mulher esperava, junto ao muro. Também fiquei esperando... O que, exatamente, não sei. Foram instantes de absoluta ignorância, daquela ignorância boa que demite todos os conceitos aprendidos, que nos deixa absolutamente inocentes, como se estivéssemos no mundo pela primeira vez. Algo que aconteceria ao cego de Rudin: "É preciso ver como um cego veria se, de repente, pudesse ver".

Foi assim. Nada glamuroso, nenhuma conferência com uma sumidade internacional, defensora de um princípio para mudar conceitos e salvar da violência e do egoísmo a humanidade. Ou da tolice.

O carroceiro talvez até fosse analfabeto. E se tivesse diante de si um repórter de TV, provavelmente baixaria a cabeça, sorriria sem jeito, iria embora em silêncio, sem entender o que lhe perguntavam nem por que lhe perguntavam.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Lembrando outra vez: 50 anos de O Arado, de Zila Mamede

Zila Mamede (1928, Nova Palmeira-PB /1985, Natal-RN) publicou o terceiro livro de poemas -O Arado- em 1959. Portanto, há 50 anos (quando também foi nomeada bibliotecária da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, cuja biblioteca leva seu nome, hoje). Dedicou esse livro à memória do avô e à terra onde nasceu: "terra mãe, fonte raíz, chão do meu chão".

"... Era uma fazenda, uma vila, hoje é mais um município brasileiro, mas não é como município e, sim, como sítio do meu avô que permanece na minha geografia sentimental."

A casa do Alto, hoje.
Visão do terraço.


Zila em visita à casa do Alto (década de 1980?)


Também minha terra de nascimento, lá estive há um mês, mais ou menos. E fui visitar a casa do Alto Branco, onde morou seu avô (e meu bisavô). Por ser verão, da terra brotam cactos, macambiras, juremas. A casa está restaurada, uma caixa d´água azul aponta do telhado. Do terraço, acrescentado depois, vêem-se as serras longínquas, paixão do meu olhar.


Os milharais de Zila, ah... Retornarão, talvez, no próximo inverno. Talvez... Porque tudo mudou. Nova Palmeira tem minérios. Sempre teve, e agora exporta-os ( isso me traz uma lembrança: quando eu era criança, costumava passar lá, todos os sábados à tarde, uma camionete vinda de Campina Grande. Era 'seu' Limeira, que vinha comprar pedras -shelita, colombita, berilo... Trazia uma maquininha que detectava urânio, dando um sinal verde. Sim, urânio, aquilo que se utiliza em armamento bélico e que Tio Sam, dizem os mais informados, mandou buscar no nordeste brasileiro, na Segunda Guerra).

Convenhamos: nada poético...
...

Melhor é ler um poema de Zila Mamede:

O Alto (o avô)

Dum anteavô tivera na colina
os alicerces, que de avô ganahara
açude, pastos, farinhada, chão.

Guardara na cacimba os aguaceiros
e de seu sono sacudira ovelhas,
meninos, maravalhas, plantação.

Multiplicara à mesa concha e mel:
moinhos que teceram do amarelo
de tanta espiga, madrugada e pão.

Em campo arado repartira mudas
que mãso infantes modelaram sob
plantio manso e vesperal de grão.

De terra e de meninos comporia
(na velha bolandeira da tapera)
essa marca de suor numa canção.

(in
O Arado, reunido, com outros livros, em Navegos, 1978)

Veja imagens de Nova Palmeira:

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

silêncio, luz e cachorro

... silêncio. mestres disso, há-os excelentes, espalhados pelo mundo. nem é preciso viajar para o tibete para encontrá-los. há poucos dias observei alguns. estavam reunidos, imóveis. o sol do entardecer batia sobre eles, que permaneciam indiferentes até mesmo aos meninos que circulavam entre um e outro, como se procurassem qualquer coisa que não perderam -mas achariam, porque sempre acham.

quando escureceu, a luz de um holofote caiu sobre aquelas criaturas milenares, que talvez preferissem a escuridão natural da noite. mas, enfim, os homens inventaram a segunda luz e, dela, nem os rochedos escapam. ficam -não mais bonitos, mas bonitos de outra maneira, talvez menos silenciosos, porque a luz dos homens os obriga a falar qualquer coisa. talvez 'silêncio'..., e ficam mesmo bonitos de outro modo. e continuam serenos enquanto a noite avança e os bêbados urinam apoiados em algum deles...

"E quando é madrugada até um cachorro na praça da República fica mais belo. Luz elétrica joga calma em tudo".

Parece que é, João Antônio (ele escreveu assim no conto Cidade, in Malagueta, Perus e Bacanaço).

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