segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Natal na passarela



sentindo um certo vazio melancólico, saiu discretamente da sala em que parentes bebiam, trocavam presentes e risadas, despejou na pia a segunda dose de uísque 12 anos, desarrumou o cabelo lambido de gel, arrancou a roupa de marca, vestiu uma camiseta velha, branca e bem passada, olhou a torta de bacalhau sobre a mesa da cozinha, os salgadinhos, o remédio para azia e dor de cabeça -que o pai  certamente tomaria às 10 da manhã-, quis levar a torta, mas achou dispensável -a quem a daria?-, quis se vestir de papai noel, palhaço ou bicho e também desistiu -para quem iria assim se mostrar?-, pensou em comprar a algum camelô solitário todo o seu estoque de presentinhos made in china para dar a quem lhe parecesse necessitado, e de novo abriu mão de mais uma ideia, que não fazia questão de encontrar ninguém, talvez nem a si próprio.
Enfim, saiu de mansinho pela porta de serviço e ganhou a rua. Foi andando, andando, e três quarteirões depois percebeu que trazia a sacola com os presente que ganhara, então abandonou-a num banco de praça e continuou andando.  Subiu na primeira passarela e, não havendo qualquer transeunte além dele, parou para contemplar a cidade, que estava se acalmando como um animal que começa a recolher seus barulhos e seus botões de luz corrente. Depois olhou o céu, a lua cheia, os tufos de nuvens lembrando o algodão-doce da infância. Deitou-se na passarela com as mãos cruzadas sob a cabeça e continuou mirando a lua, as nuvens, e foi ficando agradavelmente tonto. Em casa, pensou, se estivessem todos bêbados ninguém notaria sua ausência. Se notassem, iriam ao seu quarto e veriam o cobertor sobre os travesseiros e pensariam que ele estava dormindo. Claro, no dia seguinte o chamariam de descortês. Mas, pela primeira vez, tinha sido gentil com seu espírito.

adormeceu e acordou com o sol no rosto.
e viu: um papai noel de papelão, trazido pelo vento, e que devia ter passado a noite lhe fazendo companhia, acabava de sair voando pelo gradil da passarela.

um menino, desses chamados 'de rua', medalhas de sujo pelo peito, apareceu, rasgou o pão que trazia e lhe ofereceu dizendo come, que é bom.

domingo, 19 de dezembro de 2010

...mulher tem lua

-...você percebe que os objetos da noite são mais bonitos nessa claridade azulada? Eles ficam recém-pintados.  Parece que nem existiam antes. Mas vamos andando, vamos nos sentar na areia seca e esperar. Quando o brilho da lua bater nas águas, entraremos nelas e capturamos um punhado dele, o suficiente para você fazer o meu anel e eu fazer o seu. Depois esperamos que a lua tome a forma de barco. Se você achar que é mais perto pegar o barco ali no horizonte, vai lá. Ou aguarda que ele se ponha sobre as nossas cabeças, dá um salto e o traz aqui para baixo. Então partiremos nele numa viagem que vai durar o tempo do tempo do tempo. 

-...pois vamos logo apanhar o punhado de brilho, antes que a lua feche a janela. Lua é mulher. Mulher tem lua...

-sol é homem. Homem tem sol?


 e se foram.

dizem alguns pescadores da praia de Ponta Negra que os dois se transformaram em brilho. Outros, que viajam até hoje nesse barco feito de lua, ou nessa lua que tomou forma de barco.

verdade? mentira?
lenda, que não é verdade nem mentira.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

a linguagem é



a linguagem não pertence a ninguém
a linguagem é

a linguagem é um ente
que invocamos quando estamos doentes do mundo

os que estão curados silenciam

os que gritam estão rasgados por dentro

escrevemos porque sofremos do descompleto,
da falha, de insondáveis inanições

escrevemos porque queremos soletrar Deus
e Deus não tem nome

("Deus" é um apelido para o que não compreendemos)


escrevemos porque não estamos vazios
mas cheios de implosões
detritos

estar vazio é a grande graça:
não há mãos para fuzis nem aneis nem agarro de moedas
nem boca para palavras de areia

estar vazio é estar garça
e o lago não é logo ali.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

em que sentido se vai?


e esse vozerio do mundo
essa normalidade louca
tudo apressado e apreçado
o custo da veste e da água
       da luz e da alma

qual mesmo o endereço?
em que sentido se vai?

quer um café
yoga música travesseiro
cortar distâncias com faca,
mansão gruta ou estrada?
um cachorro uma tv
seu nome lido no mundo?
nada disso preenche
a gula enorme da mente?


o que fez o amor?
como se faz o amor?

e o contentamento?
-este é dos passarinhos


e essa cruz das aparências
em que todos estão pregados?

a cachaça disfarça
a solidão de cada um?

quem inutiliza os tambores da dor?
a dor será um congênito engasgo?

um shopping é um atestado
da nossa miséria interna
que nos faz necessitar tanto?

-quero dez caixas de... nada:



preciso é de transcendência...

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

"você é a escritura"

"você é a escritura"- assim falou Osho. 


seu coração é o caminho. 
ele sabe mais do que tudo quanto foi escrito como regra para a existência.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

solidão vermelha

em dias calados
horas de vaguidão 
olhava o ar 
que de tão quente tremia 
e dele voavam
pequenas almas que falavam
cactês

e nada era tão vasto
quanto a solidão vermelha
da terra des-

matada


sábado, 25 de setembro de 2010

o amor é água

o amor é água
que se bebe sempre
pela primeira vez

não importa quantas

domingo, 19 de setembro de 2010

bandeirinhas de Volpi



ao meu tão destituído amor

manda pelo menos

duas bandeirinhas de Volpi


se for mais fácil,

um girassol de Van Gogh


mas

sem intervenção de falsário
que apurei os sentidos
e o melhor deles
-a cegueira,
depois que passa



______
Imagem: rafaelpiffer.spaceblog.com.br

domingo, 5 de setembro de 2010

casa de água

por enquanto sonho
uma casa de água
não congelada
saborosamente fria,
venha de montanhas
ou potes de barro

portas de brisa
nuvens no telhado
redes de ramagens

sem condomínio
sem relógio de medir luz
que a luz será toda
desmesuradamente
pela graça
da usina cósmica

e a noite
sem assombro
será apenas 
ombro de dormir

as visitas virão
de pé no chão
ao chão de água
e seremos todos
transparentes

sem pressa
sem vantagens
sem vinagres
sem bagagem

puros amigos de água

domingo, 29 de agosto de 2010

pela claridade

Pela claridade
estou pela claridade

essa é a minha festa
e qualquer pano serve
qualquer flor dissolve qualquer bijuteria
dispensados castiçais e vinho

bebo na vasilha das mãos 
água
essa água
que faz na garganta 
um primitivo som,

o do primeiro gole
na primeira sede
no primeiro sol
no primeiro trepidar
sobre o mundo

no primeiro g-rito
no primeiro estalo da primeira dor
no primeiro fogo que acendeu meus pés
no primeiro deserto que me lavou das multidões
no primeiro erro mastigado na saliva do "por quê?"
na primeira acetona sobre o corte do primeiro engano
no primeiro e permanente não-saber
na primeira santidade que a ternura deu

Pela claridade
estou pela claridade

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

fogo sem dono



e pois, meu amor, 


a vida é esse fogo sem dono

terça-feira, 17 de agosto de 2010

os remédios do escuro

os remédios do escuro
encontro
no lume da lamparina
que a vó acendia
pra contar histórias

ela sempre sorria depois de imitar a voz de um rei mau e eu não entendia aquele pouco caso e até achava que a vó fosse muito amiga do rei mau, talvez até namorada, porque rindo ela perdoava, e eu não entendia que ela só falava: é tudo arte da fantasia...

era uma vez a vó
era uma vez a lamparina
mas é sempre essa pro-cura:
apagar
soprar os medos
beijando a tisna
que eles deixam
-sua assinatura

que livre não é 
quem nunca teve medo,
o perigo é nunca
deslamparinar
o velho assombro
ou ele fica
no lugar da luz
aceso







conte mais, vó













Imagem: http://www.programamomentoscomjesus.com/Reflex_tex1/Reflex%C3%B5es/a_lamparina.htm

domingo, 15 de agosto de 2010

A terra sabe

 



A Terra sabe a diferença

entre uma mina que se enterra nela


e os passos de uma criança


clique aqui

terça-feira, 10 de agosto de 2010

toda uma casa se contorce






Toda uma casa se contorce
canta, dança
beija a rua
sorri, se desmagoa
cria cetim nas paredes

vira barco se preciso
ou põe asas à janela
cambalhota, silencia

se não há, inventa vento
diz ao telhado: assovia!
em três partes cresce um terço
quando entra nela



um berço...


seja de vime ou madeira
seja rede ou puro (a)braço.





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Imagem: http://aimagemdapaisagem.nireblog.com/post/2009/05/29/271-andorinhas-no-ninho

domingo, 1 de agosto de 2010

...porque não sou mar

 

 O que murmura o mar tão continuamente?


ao esgotar-se
a onda apenas cospe
uma primeira sílaba
e as próximas jamais
completarão qualquer palavra


escrevo porque não sou mar

muito menos montanha


tenho o defeito da escrita
que não consegue ser água
funda nem altura,
só rasura

escrevo porque sou frágil,
frásil

Praia de Búzio-RN


domingo, 25 de julho de 2010

paz das pedras

a chuva desfez a goma da lua
e agora chove branco nesta parte do mundo.
claro também é o silêncio apenas cortado ao meio por um grilo

e este domingo

e este longo domingo
de livros abertos e largados
porque o domingo é por si só
um texto que me inteiramente ocupa
quando me distraio
da solene paz
das pedras
mesmo
sob
a

c
h
u
v
a

Imagem bonita: Pedras no surf

terça-feira, 20 de julho de 2010

uma palavra sem lar

ando buscando uma palavra
com um mínimo de barulho
que tenha um som
menos que arrulho


menos, menos
que os amenos
dos acenos
infantis

ando buscando uma palavra
só aroma
uma palavra que se toque e seja
ar, goma

uma palavra abandonada
que ainda não sabe falar

uma palavra que seja duas em cada

uma palavra sem lar
uma palavra de água



e para encontrar
sei,  preciso 

silêncio e ar
silenciar...

domingo, 18 de julho de 2010

era em azul














era em azul o lago
eram em azul as árvores
era em azul o tempo
era em azul o silêncio

era em azul depois a voz longínqua e perto
em azul era a grande solidão do mundo
em azul era minha presença sem corpo

era em azul

em azul acabado de nascer
era um azul como só pode ser o verdadeiro azul
era um azul sonorizado pela vastidão
era o azul de nenhum pintor

era um azul que por falta de outro nome
chamo de azul

era um azul respirante mas sem dor

era um azul que nunca verás...
nem eu acordada
a cor dada

quinta-feira, 15 de julho de 2010

ganhando a madrugada

Quem perde o sono ganha alguma coisa. No mínimo, a madrugada, essa companhia incorpórea e não mais angustiante como o foi de outras vezes. Devo ter aprendido o amor fati da contingência: amar a ocasional impossibilidade de adormecer como devia e queria.

E já que não consigo achar o sono, aproveito prazerosamente o quase frio da hora ainda escura, depois de tanto verão afogueado. 
Cantam grilos perto e um galo ao longe. Até parece que estou em Nova Palmeira... Lá, tarde da noite, às vezes se ouvia alguém assoviando uma canção qualquer, e o assovio ia se  d i s t a n c i a  n   d   o...  até não se escutar mais. Um dia explicaram: quem assovia assim fora de hora está com medo... O assovio serve para disfarçar.  -Então quando o assovio pára é porque a pessoa chegou em casa?...

Não sei o que responderam, mas penso agora nos medos sem assovio, sem poesia. Nesses medos urbanos. Homens com medo de outros homens.

No vilarejo o medo parecia ser medo de alma. Medo de visagem nas travessias.


E já que acontinuo sem achar o sono, vou esperar aquele azul magnífico que antecede o nascer do sol.
E dizem que é bom ver o dia amanhecer, pelo menos uma vez ao ano.

terça-feira, 13 de julho de 2010

esse formidável amor

em tempos de reencenação de crimes nas TVs,  quando o sangue piche da violência é repetidas vezes derramado na tela  para que o vejam adultos, jovens e crianças,  faz bem ver algo que evoque as sutilezas do amor, por lugares incertos deste planeta.

faz algum tempo, vi, também pela TV, uma bióloga numa gruta fazendo maternagem a filhotes de morcegos que estavam sem mãe, sabe-se lá por quê. Não me lembro.

hoje, vi no canal History: a egiptóloga tratava com tal encantamento o seu obejto de estudo que ele já não era um objeto de estudo mas um objeto de amor. "Esplêndido", "maravilha", dizia enquanto deslocava cuidadosamente a lupa para lá e para cá, examinando detalhes, descobrindo sentidos, adivinhando razões para isto e para aquilo. Gestos não puramenre técnicos, mas amorosos, de respeito pelo passado do "objeto", retirado dos solos fundos do tempo para um retorno à claridade.

será um amor vão, em ambos os casos? Melhor seria dá-lo a crianças abandonadas?...

Mas o Amor ama tudo. Há corações para todos os amores.


Para os morcegos e para o que, um dia, foi um ser humano, amou e foi amado. Se não foi, está sendo agora.
Sim, a múmia da egiptóloga...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Walter Benjamin para começar a semana

"Ser feliz significa poder tomar consciência de si mesmo sem susto."

"O olhar é o fundo do copo do ser humano."

CRAVINA- Para quem ama, o ser amado aparece sempre como solitário."

"MIOSÓTIS- A recordação vê o ser amado sempre em miniatura."

______
In: Obras Escolhidas III-Rua de Mão Única.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

gole de chuva












um gole de chuva
e verga
o tempo interior
sempre inconcluído

umas frases cegas
tateiam-me as mãos
saltam como
rãs incendiadas
desmentindo o inverno

*
o tempo branco
-parece
casou-se com a noite passada
ela se foi e ele agora as-
sina um poema líquido

esse
da chuva fina

que leveza e gradações
ensina?

domingo, 4 de julho de 2010

para não dizer que nada aprendi com o futebol

Um comentarista de futebol falou algo assim na TV: a equipe do Paraguai não constroi o jogo, vai, vai, vai no improviso, ao sabor do acaso, vai no risco, vai com força, é perigosa.
E as equipes que jogam segundo uma técnica apurada, que constroem o jogo?
Estas também perdem. Caso do Brasil.

Não será na vida assim também?...



...mas há a 'existência'. Viver é mais rotineiro. Atendem-se as demandas do corpo, desenham-se projetos para o futuro, desenvolvem-se estratégias para chegar lá, consome-se.

Existir pede mais.
Ou pede diferente.
Ou pede menos.
Pede a suspensão (eventual que seja) das regras. Pede o risco, o improviso, o aqui-e-agora, pede também o alheamento, aquele estar-sem-pensamento, o temido vazio.
Pede  não esperar, não contar-com.
Pede não-pedir.


Ao fim e ao cabo, nada se perde, nada se ganha, apenas se vive. Ou se existencia quando possível...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

bruxo de si mesmo

a dor
esse vento escuro parado
no fundo
do abismo

                          urge ser
                          bruxo de si mesmo


inverter o abismo

dançar chorando
ao redor
desse vento morto
até que ele se co-
mova
até que aceite
e-
levar
a dor

deitá-la
aos vales
do universo
                          e esperar
                          que nasça
                          outra  a-ventura

domingo, 27 de junho de 2010

de vuvuzelas e Nietzsche

Por estes dias,  a voz que mais se ouve no mundo é a Voz do Futebol. Aglomerações públicas e privadas. Festejos, libações, alegrias, decepções.  Esquecimento de outros dramas, da 'invenção' da crise global para (dizem), para que o Lucro seja o governante único e absoluto do Planeta. Pessoas? Cidades para uma coexistência saudável? Comunidades?... Ah, miragens...

E nos estádios as vuvuzelas de plástico -inspiradas nos chifres de antílopes antigamente usados na África para convocar reuniões-  soltam seu estranho som..., semelhante ao emitido pelos elefantes..., sempre que o balé dos craques provoca a sua intervenção.

Mas o que isso tem a ver com Nietzsche?
Pouco, alguma coisa, nada... Ocorre que as vuvuzelas provocaram-me um delírio...  E como ele, Nietzsche, era/é um grande defensor da existência criativa, fico à vontade para contar:  transportei-me num passe de mágica ao Parque das Dunas, onde o encontrei a caminhar sossegadamente, nesta manhã de domingo. Apressei o passo para alcançá-lo. Ele pressentiu, parou e esperou gentilmente sob uma árvore (sua filosofia é irada, mas sempre foi respeitoso com os alunos, mesmo com os mais relapsos, e também o seria com as pobres criaturas que entram em delírios vuvuzeloides...). Bem, declarei que não gosto do que ele fala sobre a mulher, mas que presto atenção a outros dizeres seus. Ele sorriu meio contristado como se esperasse mais queixas, então mudei de assunto, escolhi palavras-senha, ele entendeu e foi colaborando...

O ESTADO

"Vêm ao mundo homens demais, para os supérfluos inventou-se o Estado!"

PRAÇA PÚBLICA
"Tudo quanto é grande passa longe da praça pública e da glória. Longe da praça pública e da glória viveram sempre os inventores de valores novos.
Foge, meu amigo, para a soledade; vejo-te aqui aguilhoado por moscas venenosas.
Foge para onde sopre um vento rijo."


O SOLITÁRIO
"Um solitário é como um poço profundo. É fácil lançar nele uma pedra; mas se a pedra vai ao fundo, quem se atreverá a tirá-la?
Livrai-vos de ofender o solitário; mas se o ofendestes, então matai-o também!"
 
CRIAR
"Criar é a grande emancipação da dor e do alívio da vida; mas, para o criador existir são necessárias muitas dores e transformações."
Os criadores, num princípio, foram povos, e só mais tarde indivíduos. Na verdade, o indivíduo é a mais recente das criações." 
 
AMOR
"Haja valentia no vosso amor! Com o vosso amor deveis afrontar o que vos inspire medo."
"Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura." 
 
O HOMEM
"O homem é um rio turvo. É preciso ser um amr para, sem se toldar, receber um rio turvo."
"O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar."

CONHECIMENTO 
"Eis o que eu chamo o imaculado conhecimento de todas as coisas; não querer das coisas mais do que poder estar diante delas."

A VIDA
"A vida é uma carga pesada; mas não vos mostreis tão constristados. Todos somos jumentos carregados.
Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque a oprime uma gota de orvalho?"

FELICIDADE
"... eu, que estou de bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens.
Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções."


Depois dessas últimas palavras, uma borboleta  passou e o levou embora, sem mais nem menos.
Quanto a mim, não tive alternativa a não ser acordar do delírio ao som de outra vuvuzela...
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Nota: todas essas passagens foram retiradas de
NIETZSCHE. Assim falava Zaratustra. Trad. José Mendes de Souza. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967

Imagens-borboleta: :http://www.obuscar.com/search/10/borboleta+voar.htm
Nietzsche:http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://jonatassouza.files.wordpress.com

sábado, 26 de junho de 2010

dínamo do Tempo

O antes descrido
Aglomera-se,
Fonte adensada,
Fé.

Vales. Plena
É a paisagem.

O dínamo do Tempo
Trouxe-nos aqui.
O acaso,
Sua folha,
A ranger em novas
Letras.

Não foi rasa
A hora. Cavou-se:
Relha. Justo
Trigal.
Não mais
A fome.


Ou será outra.

________
in Trapézio e outros movimentos (revisto)



terça-feira, 22 de junho de 2010

A noite

        A noite é um exercício
De nascer.

                       Os vidros
                       E o jasmim do quarto
                      O espelho
                      Úmido das conversas
                      Entre o rosto e o rosto

O corpo legislado para si
Rege re-
Banhos da memória

O nome entra pela janela
-Prima vegetal do Tempo

Recém-lido ofega
Um livro de poemas
(A beleza suspende
O saber do mundo)

Por longe a tavernagem
Arrota seus vazios...

O poeta, inofensiva roupa de criança,
Não serve às sempre
Perdidas guerras.

A noite é um exercício.

________

(in Trapézio e Outros Movimentos, 1994)

domingo, 20 de junho de 2010

sem goiva ou bússola

saber-se convertido em espera...
e saber ainda
que havia um trabalho
-sem método
 sem aço
 sem esquadro ou giz
 sem água ou barro
 sem goiva
 ou bússola
 sem matéria:

 cavar uma janela
 onde não há parede
 e por ela saltar
 no próximo instante

 Encontrar é assim.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

a vida não se sabre

calço então umas san-dálias de fogo e salvo a canção enterrada no asfalto, solto-a no ar, que vá, que vá -que o destino das canções é o ar...-, enquanto outros hóspedes do mundo vociferam lógicas agrisalhadas e berram "sou..." e não entendo o que são, o que vem depois de "sou", ou é algo a que falta vital sonoridade, ou é o sopro da Palavra que se nega a proclamar o que não é...


prossigo..., um embriagado do álcool-dos-outros  quase me atropela ao perguntar o que sabres da vida?, e antes que eu tente responder uma grande pedra surge entre nós, abre sua boca milenar e diz por que tanto corte?, a vida não se sabre nem se sabe, ó deserdado que não não conhece a mornura e o aroma que pode ser o estar na vida sem perguntas!  


e ela vai diminuindo até que se perde entre os grãos de areia, e ele se torce e se contorce, mostro um copo d´água, diz que não, olha para trás querendo retornar à pequena multidão, convido  em silêncio a andar comigo (em silêncio), diz que isso é quase-solidão, quero saber por que tem medo, por que só encontra sua alma junto a muitos, ele diz porque... porque eles me dizem que eu sou, quem eu sou..., então também me reconheço, ganho um rosto, mais alguma coisa?, digo que pode se tornar íntimo da pessoa mais interessante deste mundo para ele, então se anima, sorri: quem? Tu?!..., afasto-me pensando: tu mesmo...


a canção que joguei ao ar retorna mais bonita aos meus ouvidos. Alguém por certo a ouviu e acrescentou algumas notas...
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Imagem:http://www.lunaeamigos.com.br 

quarta-feira, 16 de junho de 2010

o camelo, o leão e a criança de Nietzsche

Vez por outra retorno a essas alegorias; é inevitável. Estão em Assim Falava Zaratustra ( O Espírito das Três Transformações).
O camelo representa aquele que se restringe ao "eu devo", obedece, vive sobrecarregado e disso se ufana. É a sua glória, ainda que se esgote e morra disso, sem ter conhecido a existência.

O leão, em vez de "eu devo", diz "eu quero". Combate, rasga com as unhas o próprio caminho mas vive segundo o que escolhe, tem um programa.

A terceira transformação é significada pelo espírito da criança e está além disso tudo. Representa o autocontentamento, a inocência -que não deve ser tomada como modo ingênuo/tolo de estar no mundo, mas como espontaneidade, ausência de julgamentos, liberdade, 'esquecimento'. Aqui é possível criar, e em sentido amplo, pois não se está colado a normas, a conceitos petrificados. A criança, pensada idealmente, é não-luta, abertura. Arrisco-me a dizer: vive o Tao, se na roda deste signo -que tudo e nada abrange- cabe o acontecimento não forçado, não programado, apenas acontecimento...
Como em Van Gogh, que dizia "eu não procuro, acho". Picasso também.

(Nietzsche, afinal, era um conhecedor da tradição oriental. Seu livro Aurora traz como epígrafe versos do RigVeda -se não estou enganada-, sem esquecer o nome "Zaratustra", inspirado no Zoroastro persa, sabemos todos)

sábado, 12 de junho de 2010

no livro da chuva


sempre que chove me lembro de de Nova Palmeira, onde nasci. A chuva lá era uma celebração, uma visita querida (e às vezes perigosa, pois podia levar os açudes e deixar todos à mercê de cacimbas salobras). Se não havia trovoada, tomávamos banho nas calçadas, debaixo das bicas de zinco, depois das súplicas às mães: - deixa, deixa!
E jamais uma festa foi tão boa!

De lembrança em lembrança, chego às falas, às expressões...

-...cortar batatas e encher as gamelas dos bichos...
-...buscar um alguidar no jirau...
-...menina, pare com essa lacuchia...
-...trocar o paninho do atajé...
-...pedindo dinheiro? Pensa que sou Rotichile?

E a mais bonita:

-...dormir uma madorna...

Com o passar do tempo, as palavras vão dormir -não uma madorna, que queria dizer um sono breve, mas um sono de pedra. Então quem as busca faz um trabalho de arqueólogo até localizá-las e trazê-las de novo à luz, não mais como instrumento de fala, mas como objeto agora estranho, posto ao sol no jirau da curiosidade.
"Alguidar" certamente é de origem árabe. "Lacuchia" e "atajé", talvez espanhola. E "Rotichile" deve vir de "Rothschild", família judaica que se tornou a mais rica da Europa, no século XVIII. Como o nome chegou ao interior da Paraíba é que não sei... Notícias correm e até viram lenda.

Mas "madorna", ah... Não quero saber de onde vem.
Coisas belas não devem ser pesquisadas, só compreendidas como quem sente.
Ou tem esta origem: vem do sono mesmo. Ou do sonho que se tem no sono breve, na própria madorna.

Achei essa explicação no livro da chuva...

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Imagem: achamarteblogspotcom.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de junho de 2010

"arelha"


Às vezes é preciso falar de outras coisas, mas tudo está interligado mesmo, grãos do todo das areias. Ou arelhas...
Captei ontem a imagem acima, na construção de um anexo de uma instituição de ensino.
Chamou-me a atenção a palavra escrita no carrinho: ARELHA.
Como palavra puxa palavra e acaba se gerando uma arborescência de ideias (ideias sem acento já, e tantas vezes sem assento no banco do razoável), lembrei-me de um texto que me foi enviado e cujo autor é nada menos que Luiz Costa Lima (site Sibila), professor universitário, escritor, teórico/crítico de literatura com vasta produção. Disse:

"Há poucas semanas, participava de uma reunião em que a palavra seria tomada por uns tantos especialistas nos critérios de qualificação adotados, pelas instituições federais, quanto às revistas acadêmicas. Impressionado com a suposição de que, conforme depreendia da exposição do maioral, uma publicação feita no estrangeiro rendia maior pontuação do que uma feita por aqui, perguntava-lhe se havia entendido direito.
Muito afável, respondeu-me que sim. E a razão, acrescentava, era bastante simples: como as principais revistas científicas são publicadas fora e, geralmente, em inglês, o critério era inquestionável. Portanto, concluo agora, coleguinhas das mais diversas academias: não percam seu tempo aprendendo, por exemplo, a nova ortografia. Vão direto ao pote: passem a escrever em inglês."

Sem anestésico na palavra, ele trata esse comportamento, e outros assemelhados, de "complexo de vira-lata", e se refere ao tratamento jubiloso dado a uma biografia de Clarice Lispector, produzida por um pesquisador norte-americano, argumentando que não é o mesmo dado a uma fotobiografia sobre a mesma autora, realizada pela brasileira Nádia Gotlib.

Nosso “vira-latismo” está no tratamento diferenciado dado a uma obra publicada no estrangeiro e escrita em inglês quanto à outra semelhante, que antes tinha saído em português. (...)."

Volto à carrocinha do operário e imagino a cena (com o perdão daquele trabalhador): alguém lhe diz que a palavra está escrita de forma incorreta. Ele responde:  
-Faz de conta que é ingrês!
-Em inglês é sand.
-Então não fiz minha sandice direito...
. . .
É... Parece que continuamos operários intelectuais do que tomamos pelo Grande Outro...

(Para Costa Lima, somos "nomeados" lá fora principalmente pela trindade café-carnaval-Pelé.
Poderíamos acrescentar outros itens...)

sábado, 5 de junho de 2010

solitude


Falei de solidão na postagem anterior, mas de uma solidão benfazeja, condição aceita para que algo importante se faça, seja o trabalho do faroleiro ou o da pastora de pássaros.  Mas há quem faça distinção entre solidão e solitude. Sobre esta última, diz Osho*:

"Ela é abençoada, um profundo preenchimento, que nos mantém centrados e enraizados. Ela é independente. Todos são um fim em si mesmos. Ninguém existe para ser usado. Quem está no pico da solitude só se atrai por quem também esteja só. Dois solitários olham um para o outro, mas dois que conheceram a solitude olham para algo mais elevado. Se estão felizes consigo mesmos, tornam-se companheiros."

 Ele pensa a solidão não nas condições dos personagens que referi, mas como aquele estado mórbido de quem é só porque, afinal, não tem, primeiro, a companhia de si mesmo.

E a solitude não está para uma circunstância interior rasa, é estado que talvez não se atinja sem alguma dor, aquela das travessias. Do outro lado entra-se, enfim, na própria casa. 

"Depois de cada experiência profunda nos sentimos sós e tristes: seja um grande amor ou uma meditação. Por isso muitos evitam experiências profundas. A solitude é bela e livre. É um momento em que o outro não é necessário. Após essa liberdade o amor é possível. O amor traz solitude e a solitude traz amor. Já a solidão não cria amor; apenas necessidade. Ela pode matar. Dois solitários não conseguem se relacionar porque isso não ocorre a partir da necessidade. Solitude é uma flor desabrochando, é positiva, saudável. Só o amor dá a coragem de sermos sós. Só assim acumulamos energia até transbordar e transformar-se em amor."(Osho)

Não custa pensar sobre essas idéias de pouca afinidade com o discurso-nosso-de-cada-dia acerca do tema.

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*Fonte: http://sombradainternet.blogspot.com/2010/01/solidao-e-solitude-osho.html

sexta-feira, 4 de junho de 2010

criaturas sem medo

hoje foi feriado e, de manhã cedo, pensei nos faroleiros. Eles vivem da solidão, profissionalmente, e dessa solidão depende o destino dos que cruzam os mares. Faroleiros não costumam ter um só dia para si. 
Pensei também na moça potiguar, aquela bióloga que cuida(va) de uma reserva de pássaros no litoral.  Meses sozinha, convivendo apenas com os seus protegidos e com o vento, o sol, a noite, o sal. Nenhum conforto urbano, tudo enferruja rapidamente e a função se perde: televisão e geladeira, em particular. E ela, de corpo frágil, mas tão serenamente feliz, sem nenhum heroísmo, como foi possível perceber na entrevista que deu, poucos anos atrás, a uma TV local. 

Poderosas, para mim, são essas criaturas sem medo, que parecem plenamente identificadas com o Universo, com o ar, com o descampado, com as vastidões...
Sabem fazer companhia a si mesmas e, por certo, sentir a presença dos que lhes são caros e estão longe.

Ainda bem que há dessas belas diferenças -para desconforto dos aferrados à ideia de uma humanidade em homogeneidade psíquica.
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Imagem: praia de Búzio, litoral do Rio Grande do Norte-Brasil.

terça-feira, 1 de junho de 2010

silêncio

         1

o som do silêncio
-de si cansado
vai crescendo em sussurro
como o do ventre cortado
da laranja

até que se gera o grito
e se alonga
ao infinito
onde tudo se torna
silêncio de novo

         2

a vida começa e termina
em silêncio

por isso falamos
(far)falhamos
no intervalo

sábado, 29 de maio de 2010

vídeo eterno

a vida
não é um vídeo
que pára
(não) é um vídeo
que se repara
a vida é um vídeo
eterno
em que só de relance aparece
a nossa cara

sábado, 22 de maio de 2010

a morada do sutil

a morada do sutil talvez seja
esse cair da pétala
o espaço
entre a areia e a sombra
de uma asa que desliza
talvez seja
o respirar da folha
o que profundamente existe
sem visibilidade
e nome

quarta-feira, 19 de maio de 2010

a pequena visita verde

madrugada, 3 horas, o sono acabou. Olho o céu pela janela, há estrelas, tomo água, escuto o silêncio da casa e do mundo ao redor, de novo me deito, fecho os olhos, nada de sono, caminho descalça pela casa, retorno ao quarto, espero, espero..., uma hora se passa, ouço uma batidinha seca vindo dos lados da porta, não dou atenção, deve ser um dos gatos, e essa insônia tão calma e decidida..., a batidinha recomeça, olho outra vez pela janela, o mundo está escuro e me lembro de alguma coisa que li: "a hora mais escura da noite é a que antecede a luz"... Só quero adormecer, mas não é possível me afligir assistindo ao nascer do dia... O mundo agora está azulado... Por fim, outra vez me levanto e vejo: um pequeno ser todo verde, bem verdinho, entrou no quarto -e pela porta- como se quisesse me fazer companhia ou dizer alguma coisa no idioma esperancês. 
A batidinha era dele, desse bichinho que aqui chamamos de Esperança.
E há muito tempo eu não perdia o sono assim, como se fosse hora de trabalhar.
Por certo acordei para recebê-la.
Coincidência? 
Bobagem?...
Há muito tempo também não me acontecia uma bobagem tão agradável, como foi essa pequena visita verde.



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Imagem: http://www.treknature.com/gallery/South_America/Brazil/photo109977.htm (cortada e trabalhada no PhotoScape)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Você tem sempre "companheiros"?

Com o tempo, as palavras perdem seu sentido primeiro. 

Companheiro (do latim cum panis), por exemplo, queria dizer aquele que come o pão com (alguém).
Parece que havia uma certa mística do partilhar o pão, do alimentar-se junto. Essa atmosfera das presenças seria o outro alimento, para além das massas, carnes, folhas. Para além do simples pão rasgado e repartido. 
Moradores de rua talvez experimentem ainda esse conforto, em meio a todo o desconforto em que sobrevivem, e -talvez- de forma mais autêntica do que acontece com os mais abastados ou abastecidos.
Hoje buscam-se as praças de alimentação, cada um com seu prato, às vezes previamente pago. Pode-se estar com amigos, mas não há partilha. E em casa?... Ah, os horários... Nem sempre coincidem. Há sempre alguém se alimentando sozinho, seja à mesa de plástico, de mármore ou ipê.

Walter Benjamin*, em um de seus microtextos, fala a respeito do "comer solitariamente": "Quem tem esse hábito tem de viver espartanamente para não degradar-se. Os ermitões, ainda que fosse somente por isso, alimentavam-se frugalmente. Pois somente em comunidade se faz justiça ao comer; ele quer ser partido e repartido, se deve fazer efeito. Não importa a quem: antigamente um mendigo à mesa enriquecia cada refeição. Tudo depende da repartição e da doação, não da conversação social em roda.. É assombroso, inversamente, que a sociabilidade se torna crítica sem a refeição. Hospitalidade nivela e vincula."
 
Se assim é, desconfio de que estamos um bocado desnivelados  e desvinculados... 
Um bocadinho do contrário faria um grande bem.
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BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1993, p. 56-57

sábado, 8 de maio de 2010

2 historinhas de mães

I

4 gerações: bisavó, avó, filhos, bisnetos. Como sempre, o discurso era da bisavó, de 9 décadas. Mas ela disse que estava cansada desses discursos choraminguentos. E fez a convocação:
-Chegou a hora do almoço. Lavem as mães!
-As mães, não, bisa! As mãos!, corrigiu um bisneto de 10 anos.

Ela não se deu por achada.
-Errei por gosto, meu pequeno. Errei pra acertar. Porque as mães estão sempre  manchadas: de apreensões, de broncas, de adivinhações certas e outras nem tanto; de querer sonhar o sonho das crias; do remédio que os filhos vomitaram, da areia onde se emburralharam, do sangue das quedas que sofreram; do roxo dos não que elas tiveram de dizer, quando o coração queria dizer sim; do amor atrapalhado -e às vezes desesperado- que sentiram e sentem; de apurar os ouvidos para ouvir o trimm da chave na porta da frente, alta madrugada, e os passos de vocês retornando à casa; dos cuidados e ciumezas... As mães estão sempre manchadas. Até da criancice que elas escondem muito bem, fingindo que são absolutamente adultas. Lavem as mães. Com compreensão -a melhor forma de amor.
E chega. E tenho dito. E vão... vão me buscar um aperitivo, por favor.  







II
Acabou de fazer a toalha de croché e a estendeu sobre a mesa, sob o olhar admirado dos filhos e filhas, que tinham vindo para o almoço do Dia das Mães.
-Cadê o novelo?, ela perguntou como pergunta um mágico. Hein? Cadê?...
-Ora, mãe, acabou-se...- disse um filho do tipo cartesiano.
-Não se acabou, não! Transformou-se...

Fez uma pausa e continuou: pois quando o novelo da minha vida se acabar, pensem que me transformei num paninho de croché cobrindo o copo de Deus beber água de coco...
Deu uma risadinha e saiu em procissão com as filhas, rumo à cozinha. Foram buscar comidas de bom cheiro.


terça-feira, 4 de maio de 2010

lágrima lilás

as palavras, neste fim de terça, estão para mim como um formigueiro congelado

e eu sem calor suficiente para acordar esses entes
-se insistir, farei um texto preguiçoso, gago e coxo (se é que não os faço sempre)

as palavras estão com sono em mim, e eu com sono nelas

eu bocejo, elas deixam cair uma lágrima lilás parecida com aquela frutinha de coroa-de-frade, tão comum no sertão de onde vim...



( assim nos entendemos
e posso dormir em paz)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

duas coisas para o ar


o menino joga duas coisas para o ar. pega de volta, torna a jogar. bolas: só pode ser. não distingo. penso meus olhos não vão bem... chego perto. não é nada. como nada?... são bolas imaginárias.

quem se enganou fui eu.

e essas bolas não murcham...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

cata e cata


antes que a noite por inteiro desça
ela vem
mexer nos sacos negros dos tambores
fétidos

cata e cata

um vidro, um resto vencido
de perfume
um pão mais que dormido: morto
uma capa seminada da play boy
uma maçã amarronada

o homem da guarita
ouve o Pai Nosso pelo rádio
murmura que menina chata


e ela cata e cata

parece uma boneca surrada
saída do próprio lixo

sábado, 17 de abril de 2010

dez tinos




e mandou dizer assim:
gastei meus dez tinos
contigo

agora gasto o destino
comigo

segunda-feira, 12 de abril de 2010

o sempre


o sempre está entre a sombra
e o voo da gaivota
que não volta

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Imagem: praia de Ponta Negra-Natal-RN-Brasil.

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