sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

"... esperando que alguma coisa divina aconteça"



Li, faz tempo, uma entrevista de Jorge Luís Borges em que ele dizia "...e a gente vai vivendo e esperando que alguma coisa divina aconteça...".

Parece que é assim, às vezes. E às vezes "alguma coisa divina" acontece, mas o milagre nem sempre é percebido, vivido, parecendo um presente que se deixa cair da mão. Ou quando é vivido, queremos reter. Mas não se pode reter um acontecimento, como não se pode prender um rio nas mãos.
Fica, no entanto, o espírito do acontecimento, seu efeito, o aroma dessa espécie de visita boa à nossa casa interior.
O segundo milagre: a visita, em vez de ir embora, dissolve-se dentro...
Então permanece.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"...agora posso olhar o céu..."


De uma senhora do Rio de Janeiro, numa consulta a um físico do Observatório Nacional:
"... estou aposentada, agora posso olhar o céu..."

Muitos que se aposentam olham mais pro chão.
E às vezes tropeçam... em si mesmos...

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Imagem:http://www.i motion.com.br/imagens/details.php?image_id=5029

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

de gato




Internet é assim: a gente lê um texto ali (blog de Tetê Bezerra) e tem vontade de escrever aqui... No caso, sobre gatos.

Tive uma gata branca, muito branca. Uma noite, ela acendeu! Verdade: ficou fosforescente... Até hoje não entendo como, mas a imagem ficou na lembrança.

Outro gato costumava 'reger' músicas 'clássicas', que eu punha pra tocar. Deitava-se no chão da sala, fechava os olhos e... regia com o rabo.

Em casa, hoje, vivem dois bichanos: Pat, o mais velho, assim se chama em honra do guitarrista Pat Methene. Este é oficialmente do meu filho mais moço, que o batizou.
O outro, chegado por último, recebu o nome de Petit Pat, mas o chamamos só de Petit.
Pat faz o tipo sábio oriental. Enquanto Petit avança na sua tigelinha de comida, ele espera pacientemente, e até cheira a cabeça do irmão guloso. É também curandeiro: quando pressente que estou deitada porque não me sinto lá muito bem, ele se insinua devagar, até que se acomoda sobre a região próxima do meu coração. Penso sempre que está me passando energia, quando sinto a vibração do seu ronronado, feito um motorzinho de saúde...
E costuma recusar o alimento, quando não sou eu que o ponho lá...

Verdade é que gatos tem individualidade, à semelhança das pessoas (pelo menos das que não perderam a sua em troca da máscara social).
Nem todos são meros interesseiros.
Gatos são educadores também. Pois Pat não ensina paciência e tolerância?...
E ainda guarda a porta fechada do meu quarto, quando o calor me obriga a ligar o split.

E ainda me cura...

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Imagens: Pat. Pat (mal) pintado por mim.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

o sexo é velho, o desejo é novo



O moço de cabelo verde espetadinho gabava-se de dizer/escrever/viver/dormir de forma obscena, como se fosse a primeira criatura do mundo a fazer isso. Sentia-se um revolucionário dos costumes. Achava tudo o mais velho e careta, obscenamente careta.
O engraxate-que-virou-pensador-das-calçadas ouvia, ouvia e pensava... Por fim, debulhou umas palavrinhas:
-Tu, meu filho, és filho da velhice, com todo esse cabelo de papagaio que passou cola nas penas da cabeça e puxou as ditas para cima.
-Claro, meus pais são um pouco velhos perto de mim. E são do tipo bem comportado, incapazes de dizer um palavrão. Nisso são inteiramente velhos..., mas eu..., eu sou escroto de nascença.
-Isso não lhe tira a condição de filho da velhice.
-Então se explique, velho...
-Você é filho do sexo. O sexo é a segunda coisa mais velha do mundo.
-Hummm... e qual a primeira coisa mais velha do mundo?
-A célula antes de se dividir. Quando se dividiu, apareceu o sexo. Com o sexo, veio isso que você chama de obscenidade. Tudo isso é velho, meu velho.

O moço mirou o ex-engraxate com azedume, pois o metido a sabido tentava retirar-lhe justamente aquilo que ele tinha como marca pessoal, como fantasia da diferença, coragem e independência, performance existencial, manifestação de seu nojo pelo sistema, seu estilo-deboche, seu modo de estar no mundo, sua filosofia corp/oral, enfim.

Meio desconcertado, gritou vá tomar!, e meteu a garrafinha de cerveja na boca até secar o conteúdo. Pegou outra, abriu no dente, bebeu tudo o valente.
O engraxate chegou perto:
-O sexo é velho, sim. A obscenidade é velha também. Só o desejo é novo. Não fosse essa tal de fertilização in vitro, sem ele a humanidade se acabaria em cem anos... Inteligência da natureza, meu velho...
E tratou de fazer um reparo:
-Mas nem tudo está perdido, quero dizer, velho. Você também é filho do desejo. Espero que sim...

E depois desse palavreado confuso, saiu assobiando uma marchinha de carnaval, pensando na ex-vendedora de alfenim, no seu cheiro de sol, nos seus dedos cheios de anel de feira, no seu andar (an)guloso...
Se você fosse sincera/ ô ô ô ô Aurora...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

curva turva



o melhor da vida pode não ser o livro
mas o encarte

alguma imprevista
arte

roupa que foge do varal

vento inventado
no íntimo das pedras

o universo adormecendo
no coração mínimo da uva

e em vez da clara reta
a curva turva

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

de tango & Tao


Tenho estima pela tradição oriental, por exemplo, e gostarei de ir, um dia, ao Tibete.
Fico satisfeita por não compreender o Tao e, ainda assim, pressenti-lo na sombra do voo de um pássaro, nesse quase nada fugidio e intangível.
Num aparente paradoxo, sempre tive vontade de ver um tango dançado lá nos bons ares de Gardel.
Fui...
"Señor Tango", Fernando Soler, dono da casa e cantor de voz trovanesca. De trovão bem modulado.
Casais numa sintaxe corporal perfeita como o arco e a flecha nas mãos de um arqueiro-mestre.

O tango, essa dança apaixonada e sua mundanidade... Mas -olhando de forma descondicionada para a palavra- o que não é mundano?... Mesmo quem se isola num mosteiro está no mundo.

"Dançar é rezar com as pernas" (li em algum lugar, não sei quem escreveu isso).
O próprio universo dança, se expande e se contrai, como diz o físico Marcelo Gleiser, fazendo uma aliança entre a ciência e o mito de Shiva que, para os hindus, teria criado o mundo dançando.

Voltando ao "Señor Tango": com seus 85 anos, mais ou menos, Ernesto Soler, pai de Fernando, compareceu ao palco, trazido pelo filho, regeu a orquestra, depois piazzollou ao bandoneon. Cabelos muito brancos, sorria de forma encantadora, como um menino contente -não porque ganhou presente, mas porque deu a si mesmo o seu presente: tocar e deixar-se tocar pelo bandoneon a vida inteira.

Meu imaginário (cristão/profano? infantil?) levou-me a sussurrar para alguém próximo: descobri que Deus gosta de tango... Pois havia Deus na face de Ernesto, um garoto fantasiado de velho.

Concluí que o Tao era/estava ali também, na voz poderosa de Fernando, na correspondência exata entre os corpos dançantes, na magnífica presença de Ernesto...

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Imagem: http://www.tripadvisor.com.br/
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