segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

o sexo é velho, o desejo é novo



O moço de cabelo verde espetadinho gabava-se de dizer/escrever/viver/dormir de forma obscena, como se fosse a primeira criatura do mundo a fazer isso. Sentia-se um revolucionário dos costumes. Achava tudo o mais velho e careta, obscenamente careta.
O engraxate-que-virou-pensador-das-calçadas ouvia, ouvia e pensava... Por fim, debulhou umas palavrinhas:
-Tu, meu filho, és filho da velhice, com todo esse cabelo de papagaio que passou cola nas penas da cabeça e puxou as ditas para cima.
-Claro, meus pais são um pouco velhos perto de mim. E são do tipo bem comportado, incapazes de dizer um palavrão. Nisso são inteiramente velhos..., mas eu..., eu sou escroto de nascença.
-Isso não lhe tira a condição de filho da velhice.
-Então se explique, velho...
-Você é filho do sexo. O sexo é a segunda coisa mais velha do mundo.
-Hummm... e qual a primeira coisa mais velha do mundo?
-A célula antes de se dividir. Quando se dividiu, apareceu o sexo. Com o sexo, veio isso que você chama de obscenidade. Tudo isso é velho, meu velho.

O moço mirou o ex-engraxate com azedume, pois o metido a sabido tentava retirar-lhe justamente aquilo que ele tinha como marca pessoal, como fantasia da diferença, coragem e independência, performance existencial, manifestação de seu nojo pelo sistema, seu estilo-deboche, seu modo de estar no mundo, sua filosofia corp/oral, enfim.

Meio desconcertado, gritou vá tomar!, e meteu a garrafinha de cerveja na boca até secar o conteúdo. Pegou outra, abriu no dente, bebeu tudo o valente.
O engraxate chegou perto:
-O sexo é velho, sim. A obscenidade é velha também. Só o desejo é novo. Não fosse essa tal de fertilização in vitro, sem ele a humanidade se acabaria em cem anos... Inteligência da natureza, meu velho...
E tratou de fazer um reparo:
-Mas nem tudo está perdido, quero dizer, velho. Você também é filho do desejo. Espero que sim...

E depois desse palavreado confuso, saiu assobiando uma marchinha de carnaval, pensando na ex-vendedora de alfenim, no seu cheiro de sol, nos seus dedos cheios de anel de feira, no seu andar (an)guloso...
Se você fosse sincera/ ô ô ô ô Aurora...

3 comentários:

  1. Sua criação é inesgotável. Reflito mais lendo seus escritos. Abç

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