quarta-feira, 31 de março de 2010

...nem a dor caçula





não adules a dor

-nem a mais velha

nem as do meio


nem a dor caçula

quarta-feira, 24 de março de 2010

...da lonjura das águas


...por último, salvai-nos

da lonjura
da secura
da loucura
das águas...

domingo, 21 de março de 2010

boa experiência boba



Bom mesmo é, pelo menos algumas vezes, esquecer as teorias. Bom mesmo é ser surpreendido por experiências aparentemente inócuas, viver como o "tolo zen" de Osho. É quando se vive mais intensamente e de verdade.
Há poucos dias vivi uma experiência boba, mas que me fez sentir a graça do jogo da vida. Encaminhei-me para uma galeria, onde um colega inaugurava sua exposição. O ambiente ao redor estava silencioso, as portas comerciais se fechando. Havia um ar de descanso nas coisas (e as coisas também precisam repousar, as portas principalmente, e os bancos, aqueles em que a gente se senta -os financeiros não descansam nunca).

Pois assim ia eu, distraída, observando o vazio e a calma do espaço, sem muita pressa de chegar. Até brisa havia... E um gato dormia a um canto, sem dono nem pano nem dano.

Ao abrir a porta da galeria, que susto! Aquele burburinho repentino, ajudado pela acústica do salão. Um som indefinível, vozes superpostas. Dei dois passos e, instintivamente, voltei e fechei a porta. Experimentei de novo o silêncio lá de fora. Alguns segundos depois, tornei a entrar, agora de vez, e sem saber que tinha sido observada. Outro colega, que entrou logo depois, disse pensei que aqui dentro estivesse tão quente que você não suportou...

Se não me engano, os semioticistas chamam de primeiridade a experiências assim.
Mas... de novo a teoria se metendo! Basta. Já é domingo. Quero descansar -como as portas comerciais, os bancos de sentar e os gatos sem dono...

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Imagem: fotografia de um muro na Av. Prudente de Morais- Bairro Lagoa Nova-Natal-RN

terça-feira, 16 de março de 2010

saudade de mim, de Deus?




Às vezes sinto necessidade de algo que parece não existir no mundo.

Nada resolve.

É uma espécie de saudade.

Talvez saudade de
mim..., daquela que, em menina, tinha inveja das catadoras de algodão e riscava os pés com garrancho para que ficassem parecidos com os delas. Elas tinham qualquer coisa de grandioso. A calma, o andar vagaroso, o cheiro de sol, o olhar queimado. Não sei...

Talvez seja saudade de Deus.

Sim, devo dizer: perdi a vergonha de falar de Deus.

De Deus como o concebo sem compreender. Deus da flor e da tsunami, que joga a esmo meteoros na Terra com Sua baladeira infalível. Deus das cachoeiras, onde ainda não me banhei (e que vontade!).

Tenho essa saudade estranha hoje. E isso não é literatura.

domingo, 7 de março de 2010

mulher


mulher grita, cala, arrulha

conserta alma rasgada

-é sua porção agulha


quando irremediada

arranja força e mata os números:

divide inexistentes

pratos cheios de nada

ainda assim alimenta

sábado, 6 de março de 2010

Prêmio Blog Vip


Com surpresa, fui informada de que este blog recebeu o Prêmio Blog Vip. A indicação foi de Maria Teresa, blog Ouvindo Meus Botões, a quem agradeço imensamente. E os caríssimos leitores do Lápis Virtual estão convidados a visitar o blog dessa bela companheira de escritas virtuais:

http://mteresahf.blogspot.com/

É de praxe que a pessoa agraciada faça, por sua vez, a indicação dos "10 melhores blogues" - tarefa nada fácil, e ando frágil pra escolhas assim. Então -com a permissão de Maria Teresa e meu pedido de desculpas -tomo a liberdade de infringir a regra e concedê-lo a todos os blogues que aparecem na lateral do Lápis Virtual. A quem aceitar, peço que copie o selinho e ponha em sua página. Se quiserem saber quem o criou, informo que não sei..., mas é, no mínimo, uma forma de gerar visitas a outras páginas, além do gesto de reconhecimento.
Obrigada.


quinta-feira, 4 de março de 2010

afluência das veredinhas


E de brincar um tanto com esses encontros de Mindlin-Proust-Rosa, me caiu porosidade ao dizer de Rosa. Febrinha de nada. Deve de ser afluência das veredinhas. In-fluência é quando não flui... Se flui, é afluência mesmo..., ou fluência, ou confluência, e Harold Bloom nunca viu riacho nem vereda. Bloomou. Brumou por ser das brumas...?

Mas... quer ver?..., tenho um sertãozinho aqui na testa, por dentro. Chorei pela prima vez lá, aí disseram que nasci... Nasci?..., então acho que nasço sempre, pelo menos toda vez que choro.

Na remembrança: tinha chovido, o riozinho, meu pequeno São Francisco, passava atrás de casa, cheio, correndo barrento sem dizer pra onde, descomunal serpente líquida, Meu pai foi festejar, pensei, foi atravessar, que só tinha graça assim: atravessando, Aquilo que seu Rosa diz: travessia. Uma margem à outra, e ainda tem a terceira. Fui na terceira também: a do meio, a do medo, da tormentança.

Água grande pra uma menina pequena, mas por assim segui meu pai. Tontura! Pai!, gritei. E ele ouvia?... Som d´água era maior. Aquele lombo ondulado viajando poderoso, umas rendas de espuma, e eu fraca, graveto de gente prestes a ir s'embora no vem-comigo das águas medonhamente passantes. Vouuuuu....
Um assinzinho de pensamento me revolveu, resolveu: era mais fácil voltar pra margem de saída. E fui conhecendo o jeito da água, levantando os pés, no em vez de arrastar estes, porque assim a água fluía por debaixo, ficava satisfeita e eu ganhava força andando feito ave pernalta.

Chorei quando alcancei terra firme, o coração como de colibri, bri bri bri bri... E meu pai?..., soube logo depois, quando voltou: tinha ido falar com o gado dele, ver se todo mundo estava bem, a salvo de atoleiros..., e não viu a menina-filha-eu indo atrás...

( meu pai era assim: uma rosa de gente, uma rosa de pai, gostador de gado -prefiro: queria que fosse escritor não, que escritor de vez em quando e quase sempre é animal esquisito..., nem sempre tem tempo de saber a lindeza de um fio prateado de baba escorrendo da boca de um boi comendo palma... Meu pai sabia, se sentia saciado/ ao ver saciado/ o touro, escrevi pra ele em Sertania. E só mais isso: meu pai era um rebanho de pai bom. Fosse escritor talvez não tivesse conversado comigo debaixo do pé de acácia nem fosse acriançado como era. Disse, meu pai. Desculpe a demorança e... seu gado não há mais. Naqueles sertões pelo menos...)

...pois: essa história das águas e eu nelas foi minha outra vez de nascer, e dessa vez testemunhei.

Tinha parteira não, nem mãe.

Nem alfazema queimando nas brasas e enchendo o ar de bom aroma.

Nem licor.

Só águuuuuuuuuuuuuuuuaaaaaaaaaaa...!
Grande útero a ceu aberto.
Primeiro medonho medo.

Nasci outra vez. Ali...
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P.S. Comecei esta escrita como uma 'brincadeira', um exercício lúdico, mas acabei entrando no rio caudaloso da memória... Um pouco assombrada, deixei a postagem dormir no rascunho. Amanhã decido, pensei. E vai aparecer com data dormida também, a de ontem. Foi assim. Agora vivo os efeitos.

Imagem (rio São Francisco): http://www.brasiloeste.com.br/foto/rio-sao-francisco/270/comunidade-ribeirinha

Mindlin e Guimarães Rosa


Mindlin também gostava, e era muito, de Rosa. De João. De Guimarães.
Imagino-o no Grande Sertão (do ceu): veredas, conversando com o mineiro dos Gerais lugares e falares.

João Guimarães Rosa fala disso mesmo: do sertão.

"(...) O senhor tolere, isto é o sertão."

"(...) Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte."

"(...) Remei vida solta. Sertão: estes seus vazios."

"(...) O sertão é do tamanho do mundo."

"(...) Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas..."

"(...) O senhor vê aonde é o sertão? Beira dele, meio dele?... Tudo sai é mesmo de escuros buracos, tirante o que vem do Céu. Eu sei."

"Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas - e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção."

...........

Assim foi, não foi?...
Não sei. Coisa da imaginância.
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ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 13ª ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979.(p. 9, 9, 27, 59, 435, 451 e 79, respectivamente)

terça-feira, 2 de março de 2010

Mindlin e Proust


Mindlin declarou, na entrevista ao Último Segundo, seu grande apreço por Proust.
Com o respeito que cabe, e como forma de atenuar a sensação de 'encolhimento' pela partida do pastor de livros, transcrevo um trecho de O Tempo Perdido, imaginando que é Proust falando a Mindlin, ambos bem acomodados num sofá de nuvem, bebendo chá de luz:

"(...) A arte de viver consiste em nos sabermos servir de quem nos atormenta como de degraus de acesso à sua forma divina, povoando assim diariamente de deuses a nossa vida. Satisfazia-me verificar essas verdades; julguei contudo lembrar-me de haver descoberto na dor várias dentre elas, em prazeres medíocres muitas outras. Então, menos brilhante sem dúvida do que a que me fizera vislumbrar na obra de arte o único meio de reaver o Tempo perdido, nova luz se fez em mim. E compreendi que a matéria da obra literária era, afinal, minha vida passada; que tudo me viera nos divertimentos frívolos, na indolência, na ternura, na dor, e eu acumulara como a semente os alimentos de que se nutrirá a planta, sem adivinhar-lhe o destino nem a sobrevivência. Como a semente, poderia morrer uma vez desenvolvida a planta, para qual vivera sem o saber, sem nunca imaginar que minha vida devesse entrar em contato com os livros que sonhara escrever e cujo assunto, quando outrora me sentava à mesa de trabalho, buscara em vão. Assim minha existência até este dia poderia e não poderia resumir-se neste título: uma vocação. Não poderia porque a literatura não desempenhara nela o menor papel. Poderia porque essa vida, com as recordações de suas tristezas e alegrias, constituía uma reserva semelhante à albumina existente no óvulo das plantas, da qual este encontra o alimento necessário para transformar-se em semente, na evolução embrionária, ignorada e invisível, não obstante processar-se por meio de fenômenos químicos e respiratórios secretos mas muito ativos. Assim também minha vida fora condicionada pelo que lhe determinaria a maturação.(...)"

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PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. 10ª ed. Trad. Lúcia Miguel Pereira. São paulo: Globo, 1992. p. 174-175

segunda-feira, 1 de março de 2010

Mindlin e o catador de lixo


José Mindlin em entrevista ao site Último Segundo:

"Olha, eu tenho na minha vida deixado o barco correr, eu não tenho objetivos, desejos fixos, marcantes que eu fique perseguindo. Eu acho que a expressão da gente deixar o barco correr, é bem significativa. A vida corre independentemente do controle da gente, você pode, embora, querer algumas coisas específicas, mas planejar a vida eu nunca planejei. E estou satisfeito de não ter planejado, porque tudo que aconteceu foi satisfatório, agora ficar atrás de uma coisa, perder o sono até conseguir, isso nunca me aconteceu."

Mindlin tinha sabedoria. Colecionou livros por amor a eles, não para impressionar, não para parecer intelectual, 'sabido'.

"E eu não me tomo a sério. Eu tomo a sério as coisas que eu faço, mas a mim eu não tomo a sério. Então a vida é bastante simples."

É isso. Quem tem um mínimo de sabedoria não se leva a sério.
Talvez por não ter se levado a sério, Mindlin viveu tanto, quase um século... E teve tempo de juntar 40 mil livros e doá-los. Transcendeu sua condição de empresário.

E não foi só ele que fez assim. Um catador de lixo montou uma biblioteca, no reduzido espaço do seu quase-barraco, com livros encontrados nos recipientes de lixo, em São Paulo, e abriu o espaço à comunidade. Também é sábio: não se levou a sério ao não se restringir à sua condição de catador de lixo. E não planejou fazer o que fez. Passou a dormir no aperto, mas ouvindo a respiração sutil dos livros.

...pois, vemos, alguma coisa 'divina' acontece no coração de muitos homens...


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Leia a entrevista inteira aqui, se apetecer:
http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/2009/07/19/a+vida+e+bastante+simples+diz+jose+mindlin+em+entrevista+exclusiva+ao+ultimo+segundo+7349949.html
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