quinta-feira, 4 de março de 2010

afluência das veredinhas


E de brincar um tanto com esses encontros de Mindlin-Proust-Rosa, me caiu porosidade ao dizer de Rosa. Febrinha de nada. Deve de ser afluência das veredinhas. In-fluência é quando não flui... Se flui, é afluência mesmo..., ou fluência, ou confluência, e Harold Bloom nunca viu riacho nem vereda. Bloomou. Brumou por ser das brumas...?

Mas... quer ver?..., tenho um sertãozinho aqui na testa, por dentro. Chorei pela prima vez lá, aí disseram que nasci... Nasci?..., então acho que nasço sempre, pelo menos toda vez que choro.

Na remembrança: tinha chovido, o riozinho, meu pequeno São Francisco, passava atrás de casa, cheio, correndo barrento sem dizer pra onde, descomunal serpente líquida, Meu pai foi festejar, pensei, foi atravessar, que só tinha graça assim: atravessando, Aquilo que seu Rosa diz: travessia. Uma margem à outra, e ainda tem a terceira. Fui na terceira também: a do meio, a do medo, da tormentança.

Água grande pra uma menina pequena, mas por assim segui meu pai. Tontura! Pai!, gritei. E ele ouvia?... Som d´água era maior. Aquele lombo ondulado viajando poderoso, umas rendas de espuma, e eu fraca, graveto de gente prestes a ir s'embora no vem-comigo das águas medonhamente passantes. Vouuuuu....
Um assinzinho de pensamento me revolveu, resolveu: era mais fácil voltar pra margem de saída. E fui conhecendo o jeito da água, levantando os pés, no em vez de arrastar estes, porque assim a água fluía por debaixo, ficava satisfeita e eu ganhava força andando feito ave pernalta.

Chorei quando alcancei terra firme, o coração como de colibri, bri bri bri bri... E meu pai?..., soube logo depois, quando voltou: tinha ido falar com o gado dele, ver se todo mundo estava bem, a salvo de atoleiros..., e não viu a menina-filha-eu indo atrás...

( meu pai era assim: uma rosa de gente, uma rosa de pai, gostador de gado -prefiro: queria que fosse escritor não, que escritor de vez em quando e quase sempre é animal esquisito..., nem sempre tem tempo de saber a lindeza de um fio prateado de baba escorrendo da boca de um boi comendo palma... Meu pai sabia, se sentia saciado/ ao ver saciado/ o touro, escrevi pra ele em Sertania. E só mais isso: meu pai era um rebanho de pai bom. Fosse escritor talvez não tivesse conversado comigo debaixo do pé de acácia nem fosse acriançado como era. Disse, meu pai. Desculpe a demorança e... seu gado não há mais. Naqueles sertões pelo menos...)

...pois: essa história das águas e eu nelas foi minha outra vez de nascer, e dessa vez testemunhei.

Tinha parteira não, nem mãe.

Nem alfazema queimando nas brasas e enchendo o ar de bom aroma.

Nem licor.

Só águuuuuuuuuuuuuuuuaaaaaaaaaaa...!
Grande útero a ceu aberto.
Primeiro medonho medo.

Nasci outra vez. Ali...
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P.S. Comecei esta escrita como uma 'brincadeira', um exercício lúdico, mas acabei entrando no rio caudaloso da memória... Um pouco assombrada, deixei a postagem dormir no rascunho. Amanhã decido, pensei. E vai aparecer com data dormida também, a de ontem. Foi assim. Agora vivo os efeitos.

Imagem (rio São Francisco): http://www.brasiloeste.com.br/foto/rio-sao-francisco/270/comunidade-ribeirinha

8 comentários:

  1. Ai, ai, ai, essa escrita cheia de magia e de mistério, escrita com cheiro, cor, sabor, que mexe na gente por dentro... O sertãozinho da testa ficou enooorme e fez sentir como é nascer de novo toda vez que se chora, fez molhar o pé na travessia...
    Que lindeza de poesia doce essa de falar do pai poeta que não era poeta mas era... Amei!
    Beijins

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  2. Amanheci com o riozinho passando dentro de mim... não tinha em mente escrever sobre essa experiência, mas eis que a mente me des-MENT-iu e de repente... Estou esquisita ainda, amiga... Assim no 'literário' parece faz-de-conta, mas foi de vero, veríssimo... Obrigada, você me faz companhia neste momento. beijos.

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  3. Maria Teresa, voltei pra complementar: não é frescura não...: pressinto que vou passar uns dias sem escrever nada...
    Um abraço.

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  4. Ah, espero que você se des-MINTA.
    Apesar de que consigo entender perfeitamente esse estado pós-tsunami. O texto foi assim... Tinha certeza de que era verdadeiro.
    Bjos

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Nivaldete:
    Você ganhou o PRÊMIO BLOG VIP. Basta ir até o meu blog, copiar o selo e eleger os 10 melhores blogs, de acordo com sua opinião. Essas são as regras. Depois, cite-os em seu espaço, não se esquecendo de fazer o convite para que os seus leitores visitem o blog que a elegeu. Parabéns!
    Beijos,
    MTeresa

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  7. Que boa notícia! Obrigada... Vou fazer a operação. Mas então seu blog também foi agraciado, não?... Parabéns igualmente! Beijos.

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  8. que bom, que bom pai, que bom texto, que boa vida! obrigada por partilhar! :)

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