terça-feira, 2 de março de 2010

Mindlin e Proust


Mindlin declarou, na entrevista ao Último Segundo, seu grande apreço por Proust.
Com o respeito que cabe, e como forma de atenuar a sensação de 'encolhimento' pela partida do pastor de livros, transcrevo um trecho de O Tempo Perdido, imaginando que é Proust falando a Mindlin, ambos bem acomodados num sofá de nuvem, bebendo chá de luz:

"(...) A arte de viver consiste em nos sabermos servir de quem nos atormenta como de degraus de acesso à sua forma divina, povoando assim diariamente de deuses a nossa vida. Satisfazia-me verificar essas verdades; julguei contudo lembrar-me de haver descoberto na dor várias dentre elas, em prazeres medíocres muitas outras. Então, menos brilhante sem dúvida do que a que me fizera vislumbrar na obra de arte o único meio de reaver o Tempo perdido, nova luz se fez em mim. E compreendi que a matéria da obra literária era, afinal, minha vida passada; que tudo me viera nos divertimentos frívolos, na indolência, na ternura, na dor, e eu acumulara como a semente os alimentos de que se nutrirá a planta, sem adivinhar-lhe o destino nem a sobrevivência. Como a semente, poderia morrer uma vez desenvolvida a planta, para qual vivera sem o saber, sem nunca imaginar que minha vida devesse entrar em contato com os livros que sonhara escrever e cujo assunto, quando outrora me sentava à mesa de trabalho, buscara em vão. Assim minha existência até este dia poderia e não poderia resumir-se neste título: uma vocação. Não poderia porque a literatura não desempenhara nela o menor papel. Poderia porque essa vida, com as recordações de suas tristezas e alegrias, constituía uma reserva semelhante à albumina existente no óvulo das plantas, da qual este encontra o alimento necessário para transformar-se em semente, na evolução embrionária, ignorada e invisível, não obstante processar-se por meio de fenômenos químicos e respiratórios secretos mas muito ativos. Assim também minha vida fora condicionada pelo que lhe determinaria a maturação.(...)"

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PROUST, Marcel. O Tempo Redescoberto. 10ª ed. Trad. Lúcia Miguel Pereira. São paulo: Globo, 1992. p. 174-175

5 comentários:

  1. Mindlin se cercou de livros, agora mais livre, a ler poemas nas dunas do cosmo. O texto é envolvente e de grande elevação espiritual. Abç

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  2. Obrigada, Nivaldete, por este bocadinho. É sempre tão bom ler Proust! :)

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  3. Borges e Almariada,

    O texto de Proust é sempre viçoso...
    Abraços.

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  4. Incrível, Nivaldete, hoje ainda refleti sobre o Tempo e sobre o Tempo Perdido. No começo deste ano, prometi a mim que leria de fio a pavio a obra de Proust. Devotadamente, com hora marcada se preciso fosse. Acho que agora é o momento de começar.
    Beijos.

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  5. ...então ocorreu uma sincronia... Pelo jeito, benfazeja... Fica um brinde proustiano para este começo de noite: "Não era apenas exteriormente que tantas criaturas pareciam personagens de sonho." (p.234 da obra que citei).
    E se a vida for isso mesmo?... eu, você, todos...?...
    Um beijo.

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