quinta-feira, 22 de abril de 2010

cata e cata


antes que a noite por inteiro desça
ela vem
mexer nos sacos negros dos tambores
fétidos

cata e cata

um vidro, um resto vencido
de perfume
um pão mais que dormido: morto
uma capa seminada da play boy
uma maçã amarronada

o homem da guarita
ouve o Pai Nosso pelo rádio
murmura que menina chata


e ela cata e cata

parece uma boneca surrada
saída do próprio lixo

13 comentários:

  1. Cata e cata e presentifica o que já era passado. Que menina mulher madura!
    Beijos

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  2. Obrigada, Lívio. O mundo tem disso também...

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  3. E nós catamos também, Maria Teresa: palavras.
    Beijo pra você.

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  4. Difícil a poesia aqui, mas possível - infelizmente...

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  5. O cotidiano e as várias possíveis poesias que catamos nele. Um beijo minha flor!

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  6. Caro Henrique, é difícil mesmo... Mas essas cenas estão às vezes tão expostas que... bem,não é possível ficar indiferente a essas nigérias/misérias... E a poesia a tudo abarca... Um abraço...

    Mme. S., é assim mesmo... e há visões que espetam nossa alma...
    Beijo pra você também, ser de beleza.

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  7. há que tempos que não vejo isto... mas já vi, sim, via, quando vivia na cidade... há muitos anos... era demasiado criança para julgar, absorvia esta imagem como as diversas imagens do mundo... via liberdade que não me era permitida... via que no lixo havia tesouros desejáveis... obrigada, Nivaldete, por inspirares esta viagem na memória...

    e a boneca da fotografia foste tu que fizeste? gosto muito deste post todo, texto e foto, obrigada uma vez mais! um grande abraço!

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  8. Que agradável é sempre a sua passagem por aqui... A boneca de pano foi feita por minha mãe... Ela às vezes me presenteia com essas bruxinhas. Fotografei, colei aquele rostinho, 'envelheci' a imagem com o PhotoScape e deu aquele resultado (quando eu era menina, tinha uma família inteira,toda de pano...). As bonecas fazem uma espécie de companhia (quando estive em Lisboa a estudo, trouxe uma de lá, adquirida em Algés, ali, aos pés do Tejo)...
    O texto... Sei do risco de se fazer poesia com temas assim, mas não acho que poesia deva ser cega a essas realidades - só não deve ser falsa nem assumir discurso heróico. Se saiu tudo bem, fico compensada -pela composição. A cena, essa é descompensadora sempre. Como disse em resposta a outro comentário, são as nigérias gerais, acentuadas com a tal globalização.
    Muito obrigada pela oportunidade da conversinha... Não me alongo mais porque o espaço não é apropriado. Grande abraço!

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  9. "Pão mais que vencido: morto", "revista seminada". É o cotidiano secular das bruxinhas da periferia, sem esse rosto de louça. "Tambores fétidos" caracteriza um ritual. Parabéns as duas inventoras. Bjs

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  10. Nivaldete, o poema me trouxe à lembrança o espetáculo teatral "Pobres de Marré" sobre duas catadoras de lixo. Produção genuinamente papa-jerimum.
    Sim, o poema é por quem sabe.
    Um bordado com fios de ouro.
    Para bens duráveis, abraços.

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  11. Obrigada, inventivo Paulo... Por falar em peça de teatro, tenho uma aqui nas prateleiras: "Entre o Carrossel e a Lei"... Gostaria de ver encenada...
    Grande abraço.

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  12. antes que a noite por inteiro desça

    que belo decassílabo ritmo e sonoridade
    que vêm, como um rio, da grécia odorei

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