sábado, 29 de maio de 2010

vídeo eterno

a vida
não é um vídeo
que pára
(não) é um vídeo
que se repara
a vida é um vídeo
eterno
em que só de relance aparece
a nossa cara

sábado, 22 de maio de 2010

a morada do sutil

a morada do sutil talvez seja
esse cair da pétala
o espaço
entre a areia e a sombra
de uma asa que desliza
talvez seja
o respirar da folha
o que profundamente existe
sem visibilidade
e nome

quarta-feira, 19 de maio de 2010

a pequena visita verde

madrugada, 3 horas, o sono acabou. Olho o céu pela janela, há estrelas, tomo água, escuto o silêncio da casa e do mundo ao redor, de novo me deito, fecho os olhos, nada de sono, caminho descalça pela casa, retorno ao quarto, espero, espero..., uma hora se passa, ouço uma batidinha seca vindo dos lados da porta, não dou atenção, deve ser um dos gatos, e essa insônia tão calma e decidida..., a batidinha recomeça, olho outra vez pela janela, o mundo está escuro e me lembro de alguma coisa que li: "a hora mais escura da noite é a que antecede a luz"... Só quero adormecer, mas não é possível me afligir assistindo ao nascer do dia... O mundo agora está azulado... Por fim, outra vez me levanto e vejo: um pequeno ser todo verde, bem verdinho, entrou no quarto -e pela porta- como se quisesse me fazer companhia ou dizer alguma coisa no idioma esperancês. 
A batidinha era dele, desse bichinho que aqui chamamos de Esperança.
E há muito tempo eu não perdia o sono assim, como se fosse hora de trabalhar.
Por certo acordei para recebê-la.
Coincidência? 
Bobagem?...
Há muito tempo também não me acontecia uma bobagem tão agradável, como foi essa pequena visita verde.



-----
Imagem: http://www.treknature.com/gallery/South_America/Brazil/photo109977.htm (cortada e trabalhada no PhotoScape)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Você tem sempre "companheiros"?

Com o tempo, as palavras perdem seu sentido primeiro. 

Companheiro (do latim cum panis), por exemplo, queria dizer aquele que come o pão com (alguém).
Parece que havia uma certa mística do partilhar o pão, do alimentar-se junto. Essa atmosfera das presenças seria o outro alimento, para além das massas, carnes, folhas. Para além do simples pão rasgado e repartido. 
Moradores de rua talvez experimentem ainda esse conforto, em meio a todo o desconforto em que sobrevivem, e -talvez- de forma mais autêntica do que acontece com os mais abastados ou abastecidos.
Hoje buscam-se as praças de alimentação, cada um com seu prato, às vezes previamente pago. Pode-se estar com amigos, mas não há partilha. E em casa?... Ah, os horários... Nem sempre coincidem. Há sempre alguém se alimentando sozinho, seja à mesa de plástico, de mármore ou ipê.

Walter Benjamin*, em um de seus microtextos, fala a respeito do "comer solitariamente": "Quem tem esse hábito tem de viver espartanamente para não degradar-se. Os ermitões, ainda que fosse somente por isso, alimentavam-se frugalmente. Pois somente em comunidade se faz justiça ao comer; ele quer ser partido e repartido, se deve fazer efeito. Não importa a quem: antigamente um mendigo à mesa enriquecia cada refeição. Tudo depende da repartição e da doação, não da conversação social em roda.. É assombroso, inversamente, que a sociabilidade se torna crítica sem a refeição. Hospitalidade nivela e vincula."
 
Se assim é, desconfio de que estamos um bocado desnivelados  e desvinculados... 
Um bocadinho do contrário faria um grande bem.
--------
BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1993, p. 56-57

sábado, 8 de maio de 2010

2 historinhas de mães

I

4 gerações: bisavó, avó, filhos, bisnetos. Como sempre, o discurso era da bisavó, de 9 décadas. Mas ela disse que estava cansada desses discursos choraminguentos. E fez a convocação:
-Chegou a hora do almoço. Lavem as mães!
-As mães, não, bisa! As mãos!, corrigiu um bisneto de 10 anos.

Ela não se deu por achada.
-Errei por gosto, meu pequeno. Errei pra acertar. Porque as mães estão sempre  manchadas: de apreensões, de broncas, de adivinhações certas e outras nem tanto; de querer sonhar o sonho das crias; do remédio que os filhos vomitaram, da areia onde se emburralharam, do sangue das quedas que sofreram; do roxo dos não que elas tiveram de dizer, quando o coração queria dizer sim; do amor atrapalhado -e às vezes desesperado- que sentiram e sentem; de apurar os ouvidos para ouvir o trimm da chave na porta da frente, alta madrugada, e os passos de vocês retornando à casa; dos cuidados e ciumezas... As mães estão sempre manchadas. Até da criancice que elas escondem muito bem, fingindo que são absolutamente adultas. Lavem as mães. Com compreensão -a melhor forma de amor.
E chega. E tenho dito. E vão... vão me buscar um aperitivo, por favor.  







II
Acabou de fazer a toalha de croché e a estendeu sobre a mesa, sob o olhar admirado dos filhos e filhas, que tinham vindo para o almoço do Dia das Mães.
-Cadê o novelo?, ela perguntou como pergunta um mágico. Hein? Cadê?...
-Ora, mãe, acabou-se...- disse um filho do tipo cartesiano.
-Não se acabou, não! Transformou-se...

Fez uma pausa e continuou: pois quando o novelo da minha vida se acabar, pensem que me transformei num paninho de croché cobrindo o copo de Deus beber água de coco...
Deu uma risadinha e saiu em procissão com as filhas, rumo à cozinha. Foram buscar comidas de bom cheiro.


terça-feira, 4 de maio de 2010

lágrima lilás

as palavras, neste fim de terça, estão para mim como um formigueiro congelado

e eu sem calor suficiente para acordar esses entes
-se insistir, farei um texto preguiçoso, gago e coxo (se é que não os faço sempre)

as palavras estão com sono em mim, e eu com sono nelas

eu bocejo, elas deixam cair uma lágrima lilás parecida com aquela frutinha de coroa-de-frade, tão comum no sertão de onde vim...



( assim nos entendemos
e posso dormir em paz)
Divulgue seu blog!
Informe o código: 956
Faça pontos, ganhe brindes