sábado, 8 de maio de 2010

2 historinhas de mães

I

4 gerações: bisavó, avó, filhos, bisnetos. Como sempre, o discurso era da bisavó, de 9 décadas. Mas ela disse que estava cansada desses discursos choraminguentos. E fez a convocação:
-Chegou a hora do almoço. Lavem as mães!
-As mães, não, bisa! As mãos!, corrigiu um bisneto de 10 anos.

Ela não se deu por achada.
-Errei por gosto, meu pequeno. Errei pra acertar. Porque as mães estão sempre  manchadas: de apreensões, de broncas, de adivinhações certas e outras nem tanto; de querer sonhar o sonho das crias; do remédio que os filhos vomitaram, da areia onde se emburralharam, do sangue das quedas que sofreram; do roxo dos não que elas tiveram de dizer, quando o coração queria dizer sim; do amor atrapalhado -e às vezes desesperado- que sentiram e sentem; de apurar os ouvidos para ouvir o trimm da chave na porta da frente, alta madrugada, e os passos de vocês retornando à casa; dos cuidados e ciumezas... As mães estão sempre manchadas. Até da criancice que elas escondem muito bem, fingindo que são absolutamente adultas. Lavem as mães. Com compreensão -a melhor forma de amor.
E chega. E tenho dito. E vão... vão me buscar um aperitivo, por favor.  







II
Acabou de fazer a toalha de croché e a estendeu sobre a mesa, sob o olhar admirado dos filhos e filhas, que tinham vindo para o almoço do Dia das Mães.
-Cadê o novelo?, ela perguntou como pergunta um mágico. Hein? Cadê?...
-Ora, mãe, acabou-se...- disse um filho do tipo cartesiano.
-Não se acabou, não! Transformou-se...

Fez uma pausa e continuou: pois quando o novelo da minha vida se acabar, pensem que me transformei num paninho de croché cobrindo o copo de Deus beber água de coco...
Deu uma risadinha e saiu em procissão com as filhas, rumo à cozinha. Foram buscar comidas de bom cheiro.


8 comentários:

  1. Eu tenho um amiga que ama a mãe, mas generaliza: "elas são perigosas, malditas". Já jurei não teimar com a minha, mas não tem jeito: há mesmo essa mácula que se imprime às mães, do lenga-lenga diário. "Mamma solo per te la mia canzone voglia". Bjs

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  2. Duas belas histórias, Nivaldete. Ambas com a sapiência que só podem nascer mesmo de gentes que brotam de dentro de si outras gentes.

    Feliz Dia das Mães!

    com um beijo de admiração, S.

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  3. Lindas histórias, Nivaldete! Como é bom te ler... Parabéns, querida! Obrigada pela visita! Volte, sempre! Feliz dia das Mães!!!!!!
    Beijos e beijos.

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  4. Nivaldete:
    De fato, como as mães precisam de lavação... São tantas as camadas de tudo que fica grudado, impregnado... Feliz de quem consegue enxergar isso tão antes de ser chamada de bisa!
    Bjos

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  5. Gostei das histórias. Parabéns pelo texto e pelo blog. Abraço grande!

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  6. Cláudia, Maria Teresa e Cefas, muito obrigada pela visita. Abraço vocês!

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  7. obrigada querida Nivaldete, tanto me comoveram as histórias que vieram lágrimas... talvez lilases...

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  8. Ahh, essas coisas de mães... e essas lágrimas "talvez lilases"....., como as da coroa-de-frade... Fico eu comovida aqui...
    Um abraço grande! Obrigada...

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