sexta-feira, 14 de maio de 2010

Você tem sempre "companheiros"?

Com o tempo, as palavras perdem seu sentido primeiro. 

Companheiro (do latim cum panis), por exemplo, queria dizer aquele que come o pão com (alguém).
Parece que havia uma certa mística do partilhar o pão, do alimentar-se junto. Essa atmosfera das presenças seria o outro alimento, para além das massas, carnes, folhas. Para além do simples pão rasgado e repartido. 
Moradores de rua talvez experimentem ainda esse conforto, em meio a todo o desconforto em que sobrevivem, e -talvez- de forma mais autêntica do que acontece com os mais abastados ou abastecidos.
Hoje buscam-se as praças de alimentação, cada um com seu prato, às vezes previamente pago. Pode-se estar com amigos, mas não há partilha. E em casa?... Ah, os horários... Nem sempre coincidem. Há sempre alguém se alimentando sozinho, seja à mesa de plástico, de mármore ou ipê.

Walter Benjamin*, em um de seus microtextos, fala a respeito do "comer solitariamente": "Quem tem esse hábito tem de viver espartanamente para não degradar-se. Os ermitões, ainda que fosse somente por isso, alimentavam-se frugalmente. Pois somente em comunidade se faz justiça ao comer; ele quer ser partido e repartido, se deve fazer efeito. Não importa a quem: antigamente um mendigo à mesa enriquecia cada refeição. Tudo depende da repartição e da doação, não da conversação social em roda.. É assombroso, inversamente, que a sociabilidade se torna crítica sem a refeição. Hospitalidade nivela e vincula."
 
Se assim é, desconfio de que estamos um bocado desnivelados  e desvinculados... 
Um bocadinho do contrário faria um grande bem.
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BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1993, p. 56-57

8 comentários:

  1. O momento de se alimentar, é uma transição, ritual. Quem come sozinho engole ligeiro. Um acontecimento, talvez o mais importante à humanidade, deu-se numa ceia, a reunião pascal. Contudo, da panela à cadeira, o texto me fez refletir. Abç

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  2. Sim, Borges... A imagem é outro texto. Aparentado... Você é um bom leitor! Abraços e pães partilhados.

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  3. "Vou comer lá" - e assim a vida prossegue, com as várias solidões lado a lado.
    Bjos

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  4. É isso, querida amiga Maria Teresa... No mais fundo de nós, somos solitários mesmo. Então inventaram-se o pão e a companhia...
    Beijos! Obrigada!

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  5. Nivaldete, um texto sensível e que suscita algumas respostas e reflexões.
    Somos ermitões urbanos e o ato de comer solitariamente se impõe no nosso cotidiano algo caótico.
    Bjs na alma.

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  6. Paulo, você sempre acrescenta algo importante ao que escrevemos. "Ermitões urbanos" -um conceito bem achado para a situação.
    Obrigada e um grande abraço!

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  7. Vim aqui me alimenter de um naco de sabedoria. Como sempre!

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  8. Gostei do "naco"... Quanto à sabedoria..., ihhh..., sei não... Mas gostaria de ser, pelo menos, uma sabiá... Beijo grande!

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