domingo, 27 de junho de 2010

de vuvuzelas e Nietzsche

Por estes dias,  a voz que mais se ouve no mundo é a Voz do Futebol. Aglomerações públicas e privadas. Festejos, libações, alegrias, decepções.  Esquecimento de outros dramas, da 'invenção' da crise global para (dizem), para que o Lucro seja o governante único e absoluto do Planeta. Pessoas? Cidades para uma coexistência saudável? Comunidades?... Ah, miragens...

E nos estádios as vuvuzelas de plástico -inspiradas nos chifres de antílopes antigamente usados na África para convocar reuniões-  soltam seu estranho som..., semelhante ao emitido pelos elefantes..., sempre que o balé dos craques provoca a sua intervenção.

Mas o que isso tem a ver com Nietzsche?
Pouco, alguma coisa, nada... Ocorre que as vuvuzelas provocaram-me um delírio...  E como ele, Nietzsche, era/é um grande defensor da existência criativa, fico à vontade para contar:  transportei-me num passe de mágica ao Parque das Dunas, onde o encontrei a caminhar sossegadamente, nesta manhã de domingo. Apressei o passo para alcançá-lo. Ele pressentiu, parou e esperou gentilmente sob uma árvore (sua filosofia é irada, mas sempre foi respeitoso com os alunos, mesmo com os mais relapsos, e também o seria com as pobres criaturas que entram em delírios vuvuzeloides...). Bem, declarei que não gosto do que ele fala sobre a mulher, mas que presto atenção a outros dizeres seus. Ele sorriu meio contristado como se esperasse mais queixas, então mudei de assunto, escolhi palavras-senha, ele entendeu e foi colaborando...

O ESTADO

"Vêm ao mundo homens demais, para os supérfluos inventou-se o Estado!"

PRAÇA PÚBLICA
"Tudo quanto é grande passa longe da praça pública e da glória. Longe da praça pública e da glória viveram sempre os inventores de valores novos.
Foge, meu amigo, para a soledade; vejo-te aqui aguilhoado por moscas venenosas.
Foge para onde sopre um vento rijo."


O SOLITÁRIO
"Um solitário é como um poço profundo. É fácil lançar nele uma pedra; mas se a pedra vai ao fundo, quem se atreverá a tirá-la?
Livrai-vos de ofender o solitário; mas se o ofendestes, então matai-o também!"
 
CRIAR
"Criar é a grande emancipação da dor e do alívio da vida; mas, para o criador existir são necessárias muitas dores e transformações."
Os criadores, num princípio, foram povos, e só mais tarde indivíduos. Na verdade, o indivíduo é a mais recente das criações." 
 
AMOR
"Haja valentia no vosso amor! Com o vosso amor deveis afrontar o que vos inspire medo."
"Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura." 
 
O HOMEM
"O homem é um rio turvo. É preciso ser um amr para, sem se toldar, receber um rio turvo."
"O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar."

CONHECIMENTO 
"Eis o que eu chamo o imaculado conhecimento de todas as coisas; não querer das coisas mais do que poder estar diante delas."

A VIDA
"A vida é uma carga pesada; mas não vos mostreis tão constristados. Todos somos jumentos carregados.
Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque a oprime uma gota de orvalho?"

FELICIDADE
"... eu, que estou de bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens.
Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções."


Depois dessas últimas palavras, uma borboleta  passou e o levou embora, sem mais nem menos.
Quanto a mim, não tive alternativa a não ser acordar do delírio ao som de outra vuvuzela...
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Nota: todas essas passagens foram retiradas de
NIETZSCHE. Assim falava Zaratustra. Trad. José Mendes de Souza. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967

Imagens-borboleta: :http://www.obuscar.com/search/10/borboleta+voar.htm
Nietzsche:http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://jonatassouza.files.wordpress.com

sábado, 26 de junho de 2010

dínamo do Tempo

O antes descrido
Aglomera-se,
Fonte adensada,
Fé.

Vales. Plena
É a paisagem.

O dínamo do Tempo
Trouxe-nos aqui.
O acaso,
Sua folha,
A ranger em novas
Letras.

Não foi rasa
A hora. Cavou-se:
Relha. Justo
Trigal.
Não mais
A fome.


Ou será outra.

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in Trapézio e outros movimentos (revisto)



terça-feira, 22 de junho de 2010

A noite

        A noite é um exercício
De nascer.

                       Os vidros
                       E o jasmim do quarto
                      O espelho
                      Úmido das conversas
                      Entre o rosto e o rosto

O corpo legislado para si
Rege re-
Banhos da memória

O nome entra pela janela
-Prima vegetal do Tempo

Recém-lido ofega
Um livro de poemas
(A beleza suspende
O saber do mundo)

Por longe a tavernagem
Arrota seus vazios...

O poeta, inofensiva roupa de criança,
Não serve às sempre
Perdidas guerras.

A noite é um exercício.

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(in Trapézio e Outros Movimentos, 1994)

domingo, 20 de junho de 2010

sem goiva ou bússola

saber-se convertido em espera...
e saber ainda
que havia um trabalho
-sem método
 sem aço
 sem esquadro ou giz
 sem água ou barro
 sem goiva
 ou bússola
 sem matéria:

 cavar uma janela
 onde não há parede
 e por ela saltar
 no próximo instante

 Encontrar é assim.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

a vida não se sabre

calço então umas san-dálias de fogo e salvo a canção enterrada no asfalto, solto-a no ar, que vá, que vá -que o destino das canções é o ar...-, enquanto outros hóspedes do mundo vociferam lógicas agrisalhadas e berram "sou..." e não entendo o que são, o que vem depois de "sou", ou é algo a que falta vital sonoridade, ou é o sopro da Palavra que se nega a proclamar o que não é...


prossigo..., um embriagado do álcool-dos-outros  quase me atropela ao perguntar o que sabres da vida?, e antes que eu tente responder uma grande pedra surge entre nós, abre sua boca milenar e diz por que tanto corte?, a vida não se sabre nem se sabe, ó deserdado que não não conhece a mornura e o aroma que pode ser o estar na vida sem perguntas!  


e ela vai diminuindo até que se perde entre os grãos de areia, e ele se torce e se contorce, mostro um copo d´água, diz que não, olha para trás querendo retornar à pequena multidão, convido  em silêncio a andar comigo (em silêncio), diz que isso é quase-solidão, quero saber por que tem medo, por que só encontra sua alma junto a muitos, ele diz porque... porque eles me dizem que eu sou, quem eu sou..., então também me reconheço, ganho um rosto, mais alguma coisa?, digo que pode se tornar íntimo da pessoa mais interessante deste mundo para ele, então se anima, sorri: quem? Tu?!..., afasto-me pensando: tu mesmo...


a canção que joguei ao ar retorna mais bonita aos meus ouvidos. Alguém por certo a ouviu e acrescentou algumas notas...
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Imagem:http://www.lunaeamigos.com.br 

quarta-feira, 16 de junho de 2010

o camelo, o leão e a criança de Nietzsche

Vez por outra retorno a essas alegorias; é inevitável. Estão em Assim Falava Zaratustra ( O Espírito das Três Transformações).
O camelo representa aquele que se restringe ao "eu devo", obedece, vive sobrecarregado e disso se ufana. É a sua glória, ainda que se esgote e morra disso, sem ter conhecido a existência.

O leão, em vez de "eu devo", diz "eu quero". Combate, rasga com as unhas o próprio caminho mas vive segundo o que escolhe, tem um programa.

A terceira transformação é significada pelo espírito da criança e está além disso tudo. Representa o autocontentamento, a inocência -que não deve ser tomada como modo ingênuo/tolo de estar no mundo, mas como espontaneidade, ausência de julgamentos, liberdade, 'esquecimento'. Aqui é possível criar, e em sentido amplo, pois não se está colado a normas, a conceitos petrificados. A criança, pensada idealmente, é não-luta, abertura. Arrisco-me a dizer: vive o Tao, se na roda deste signo -que tudo e nada abrange- cabe o acontecimento não forçado, não programado, apenas acontecimento...
Como em Van Gogh, que dizia "eu não procuro, acho". Picasso também.

(Nietzsche, afinal, era um conhecedor da tradição oriental. Seu livro Aurora traz como epígrafe versos do RigVeda -se não estou enganada-, sem esquecer o nome "Zaratustra", inspirado no Zoroastro persa, sabemos todos)

sábado, 12 de junho de 2010

no livro da chuva


sempre que chove me lembro de de Nova Palmeira, onde nasci. A chuva lá era uma celebração, uma visita querida (e às vezes perigosa, pois podia levar os açudes e deixar todos à mercê de cacimbas salobras). Se não havia trovoada, tomávamos banho nas calçadas, debaixo das bicas de zinco, depois das súplicas às mães: - deixa, deixa!
E jamais uma festa foi tão boa!

De lembrança em lembrança, chego às falas, às expressões...

-...cortar batatas e encher as gamelas dos bichos...
-...buscar um alguidar no jirau...
-...menina, pare com essa lacuchia...
-...trocar o paninho do atajé...
-...pedindo dinheiro? Pensa que sou Rotichile?

E a mais bonita:

-...dormir uma madorna...

Com o passar do tempo, as palavras vão dormir -não uma madorna, que queria dizer um sono breve, mas um sono de pedra. Então quem as busca faz um trabalho de arqueólogo até localizá-las e trazê-las de novo à luz, não mais como instrumento de fala, mas como objeto agora estranho, posto ao sol no jirau da curiosidade.
"Alguidar" certamente é de origem árabe. "Lacuchia" e "atajé", talvez espanhola. E "Rotichile" deve vir de "Rothschild", família judaica que se tornou a mais rica da Europa, no século XVIII. Como o nome chegou ao interior da Paraíba é que não sei... Notícias correm e até viram lenda.

Mas "madorna", ah... Não quero saber de onde vem.
Coisas belas não devem ser pesquisadas, só compreendidas como quem sente.
Ou tem esta origem: vem do sono mesmo. Ou do sonho que se tem no sono breve, na própria madorna.

Achei essa explicação no livro da chuva...

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Imagem: achamarteblogspotcom.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de junho de 2010

"arelha"


Às vezes é preciso falar de outras coisas, mas tudo está interligado mesmo, grãos do todo das areias. Ou arelhas...
Captei ontem a imagem acima, na construção de um anexo de uma instituição de ensino.
Chamou-me a atenção a palavra escrita no carrinho: ARELHA.
Como palavra puxa palavra e acaba se gerando uma arborescência de ideias (ideias sem acento já, e tantas vezes sem assento no banco do razoável), lembrei-me de um texto que me foi enviado e cujo autor é nada menos que Luiz Costa Lima (site Sibila), professor universitário, escritor, teórico/crítico de literatura com vasta produção. Disse:

"Há poucas semanas, participava de uma reunião em que a palavra seria tomada por uns tantos especialistas nos critérios de qualificação adotados, pelas instituições federais, quanto às revistas acadêmicas. Impressionado com a suposição de que, conforme depreendia da exposição do maioral, uma publicação feita no estrangeiro rendia maior pontuação do que uma feita por aqui, perguntava-lhe se havia entendido direito.
Muito afável, respondeu-me que sim. E a razão, acrescentava, era bastante simples: como as principais revistas científicas são publicadas fora e, geralmente, em inglês, o critério era inquestionável. Portanto, concluo agora, coleguinhas das mais diversas academias: não percam seu tempo aprendendo, por exemplo, a nova ortografia. Vão direto ao pote: passem a escrever em inglês."

Sem anestésico na palavra, ele trata esse comportamento, e outros assemelhados, de "complexo de vira-lata", e se refere ao tratamento jubiloso dado a uma biografia de Clarice Lispector, produzida por um pesquisador norte-americano, argumentando que não é o mesmo dado a uma fotobiografia sobre a mesma autora, realizada pela brasileira Nádia Gotlib.

Nosso “vira-latismo” está no tratamento diferenciado dado a uma obra publicada no estrangeiro e escrita em inglês quanto à outra semelhante, que antes tinha saído em português. (...)."

Volto à carrocinha do operário e imagino a cena (com o perdão daquele trabalhador): alguém lhe diz que a palavra está escrita de forma incorreta. Ele responde:  
-Faz de conta que é ingrês!
-Em inglês é sand.
-Então não fiz minha sandice direito...
. . .
É... Parece que continuamos operários intelectuais do que tomamos pelo Grande Outro...

(Para Costa Lima, somos "nomeados" lá fora principalmente pela trindade café-carnaval-Pelé.
Poderíamos acrescentar outros itens...)

sábado, 5 de junho de 2010

solitude


Falei de solidão na postagem anterior, mas de uma solidão benfazeja, condição aceita para que algo importante se faça, seja o trabalho do faroleiro ou o da pastora de pássaros.  Mas há quem faça distinção entre solidão e solitude. Sobre esta última, diz Osho*:

"Ela é abençoada, um profundo preenchimento, que nos mantém centrados e enraizados. Ela é independente. Todos são um fim em si mesmos. Ninguém existe para ser usado. Quem está no pico da solitude só se atrai por quem também esteja só. Dois solitários olham um para o outro, mas dois que conheceram a solitude olham para algo mais elevado. Se estão felizes consigo mesmos, tornam-se companheiros."

 Ele pensa a solidão não nas condições dos personagens que referi, mas como aquele estado mórbido de quem é só porque, afinal, não tem, primeiro, a companhia de si mesmo.

E a solitude não está para uma circunstância interior rasa, é estado que talvez não se atinja sem alguma dor, aquela das travessias. Do outro lado entra-se, enfim, na própria casa. 

"Depois de cada experiência profunda nos sentimos sós e tristes: seja um grande amor ou uma meditação. Por isso muitos evitam experiências profundas. A solitude é bela e livre. É um momento em que o outro não é necessário. Após essa liberdade o amor é possível. O amor traz solitude e a solitude traz amor. Já a solidão não cria amor; apenas necessidade. Ela pode matar. Dois solitários não conseguem se relacionar porque isso não ocorre a partir da necessidade. Solitude é uma flor desabrochando, é positiva, saudável. Só o amor dá a coragem de sermos sós. Só assim acumulamos energia até transbordar e transformar-se em amor."(Osho)

Não custa pensar sobre essas idéias de pouca afinidade com o discurso-nosso-de-cada-dia acerca do tema.

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*Fonte: http://sombradainternet.blogspot.com/2010/01/solidao-e-solitude-osho.html

sexta-feira, 4 de junho de 2010

criaturas sem medo

hoje foi feriado e, de manhã cedo, pensei nos faroleiros. Eles vivem da solidão, profissionalmente, e dessa solidão depende o destino dos que cruzam os mares. Faroleiros não costumam ter um só dia para si. 
Pensei também na moça potiguar, aquela bióloga que cuida(va) de uma reserva de pássaros no litoral.  Meses sozinha, convivendo apenas com os seus protegidos e com o vento, o sol, a noite, o sal. Nenhum conforto urbano, tudo enferruja rapidamente e a função se perde: televisão e geladeira, em particular. E ela, de corpo frágil, mas tão serenamente feliz, sem nenhum heroísmo, como foi possível perceber na entrevista que deu, poucos anos atrás, a uma TV local. 

Poderosas, para mim, são essas criaturas sem medo, que parecem plenamente identificadas com o Universo, com o ar, com o descampado, com as vastidões...
Sabem fazer companhia a si mesmas e, por certo, sentir a presença dos que lhes são caros e estão longe.

Ainda bem que há dessas belas diferenças -para desconforto dos aferrados à ideia de uma humanidade em homogeneidade psíquica.
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Imagem: praia de Búzio, litoral do Rio Grande do Norte-Brasil.

terça-feira, 1 de junho de 2010

silêncio

         1

o som do silêncio
-de si cansado
vai crescendo em sussurro
como o do ventre cortado
da laranja

até que se gera o grito
e se alonga
ao infinito
onde tudo se torna
silêncio de novo

         2

a vida começa e termina
em silêncio

por isso falamos
(far)falhamos
no intervalo
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