quarta-feira, 9 de junho de 2010

"arelha"


Às vezes é preciso falar de outras coisas, mas tudo está interligado mesmo, grãos do todo das areias. Ou arelhas...
Captei ontem a imagem acima, na construção de um anexo de uma instituição de ensino.
Chamou-me a atenção a palavra escrita no carrinho: ARELHA.
Como palavra puxa palavra e acaba se gerando uma arborescência de ideias (ideias sem acento já, e tantas vezes sem assento no banco do razoável), lembrei-me de um texto que me foi enviado e cujo autor é nada menos que Luiz Costa Lima (site Sibila), professor universitário, escritor, teórico/crítico de literatura com vasta produção. Disse:

"Há poucas semanas, participava de uma reunião em que a palavra seria tomada por uns tantos especialistas nos critérios de qualificação adotados, pelas instituições federais, quanto às revistas acadêmicas. Impressionado com a suposição de que, conforme depreendia da exposição do maioral, uma publicação feita no estrangeiro rendia maior pontuação do que uma feita por aqui, perguntava-lhe se havia entendido direito.
Muito afável, respondeu-me que sim. E a razão, acrescentava, era bastante simples: como as principais revistas científicas são publicadas fora e, geralmente, em inglês, o critério era inquestionável. Portanto, concluo agora, coleguinhas das mais diversas academias: não percam seu tempo aprendendo, por exemplo, a nova ortografia. Vão direto ao pote: passem a escrever em inglês."

Sem anestésico na palavra, ele trata esse comportamento, e outros assemelhados, de "complexo de vira-lata", e se refere ao tratamento jubiloso dado a uma biografia de Clarice Lispector, produzida por um pesquisador norte-americano, argumentando que não é o mesmo dado a uma fotobiografia sobre a mesma autora, realizada pela brasileira Nádia Gotlib.

Nosso “vira-latismo” está no tratamento diferenciado dado a uma obra publicada no estrangeiro e escrita em inglês quanto à outra semelhante, que antes tinha saído em português. (...)."

Volto à carrocinha do operário e imagino a cena (com o perdão daquele trabalhador): alguém lhe diz que a palavra está escrita de forma incorreta. Ele responde:  
-Faz de conta que é ingrês!
-Em inglês é sand.
-Então não fiz minha sandice direito...
. . .
É... Parece que continuamos operários intelectuais do que tomamos pelo Grande Outro...

(Para Costa Lima, somos "nomeados" lá fora principalmente pela trindade café-carnaval-Pelé.
Poderíamos acrescentar outros itens...)

14 comentários:

  1. sua explicação, nivaldete, além de engenhosa é saborosa. mas volto ao tema da solidão, que você, de forma tão bela,falou outro dia aqui.a solidão causa tanto transtorno...vai ver que o humilde trabalhador cometeu um ato falho, coitado. perdeu o seu par, a sua cara metade, a sua parelha. daí...mas solidão e ato falho atingem qualquer um, inclusive o tolo que está escrevendo isso.

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  2. Isso é que eu chamo de um texto "pérola aos poucos" minha diva. O de sempre, aliás.
    Tenho (bem)dito.
    E agora, vou voltar às minhas leituras da Poesia Completa de Manoel de Barros que, aliás, não escreve em inglês e costuma desde os 13 "escovar" as palavras como um escovador de ossos, mais conhecido por antropólogo.
    beijos, S.

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  3. Instigante a sua intervenção, Anônimo. Vê como as ideias arborescem mesmo?...E não importa a probabilidade, importa que elas se geram e se multiplicam. E o tema da solidão sempre rondando...
    Um abraço. Obrigada!

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  4. Mme. S., você é esplêndida!... E isso que você diz do M. de Barros veio bem a calhar. Ele faz assim mesmo. A língua(gem) dele é quase 'natural'... Que felicidade ter você como leitora! Um grande abraço!

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  5. Nivaldete:
    Tenho aqui um bilhete sobre a mesa: "ligar verterenaria Mara". A comunicação estabeleceu-se e o cachorro não ficou sem a vacina. No entanto, como você bem pontuou, a situação aqui deste nosso contexto verde-amarelo está pouco se importando com os erres a mais, com os acentos, que têm sofrido tantas alterações. Coisa de vira-latas.
    Bjos

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  6. Pois é, Niva, a questão é mesmo sempre e ainda esta: complexo de vira-lata, mas - o que é pior - sem que se aceite a delícia que seria assumir-se o vira-lata que se seja. Isso tem nome: alienação. Um dos efeitos da colonização que se perpetua, talvez por inércia.

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  7. E grave, Maria Teresa, é isso: a menos-valia nossa no campo intelectual.É preciso que se seja confirmado lá fora para que se seja respeitado aqui! Isso é colonização consentida e desejada. Genuflexão diante do "grande Outro"... Estão com 'arelha' nos 'oios'... rsss... Um abraço grande.

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  8. Maria Luíza, que bom ter você por aqui! Concordo com o que diz. Alienação, sim, embora os modismos intelectuais tenham, ao que parece, arquivado essa palavra.
    Volte sempre!
    Grande abraço.

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  9. Também vejo "arelha" como valoração ao ofício; mais no sentido de enfeitar, de fazer notar-se... "Passem a escrever em inglês" é demais! Então foi isso. Abç

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  10. Nivaldete, nossa grande Republiqueta das Bananas é um misto de absurdo, surrealismo e nonsense.
    Além disso, sofremos de um "belo" complexo de inferioridade ou de "vira-lata" não assumido.
    Talvez só a Academia explique isso.
    Ou não.
    Abração, amiga.

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  11. hmmm... Mia Couto ia gostar da arelha, a areia que escuta! ;)
    (((abraços)))

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  12. arelha, areia que escuta. haha, essa foi boa!
    muito bom esse post, beijos.

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  13. Este comentário foi removido pelo autor.

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  14. Belo, Almariada! Da semelhança fonética à atribuição do sentido da audição ao mineral areia. Arelha/orelha.
    Lembrando: os índios costumavam colar o ouvido à terra para ouvir os passos dos guerreiros inimigos e outros sons. Assim, há mesmo uma intimidade entre areia/arelha/orelha...

    Prezada Lu Galvão, lendo o que escrevi acima você compreenderá a relação arelha/orelha. É um discurso poético, não dentro da nossa logiquinha cotidiana. Ainda bem que há os poetas, não?
    Obrigada pela visita. Volte sempre.

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