sábado, 12 de junho de 2010

no livro da chuva


sempre que chove me lembro de de Nova Palmeira, onde nasci. A chuva lá era uma celebração, uma visita querida (e às vezes perigosa, pois podia levar os açudes e deixar todos à mercê de cacimbas salobras). Se não havia trovoada, tomávamos banho nas calçadas, debaixo das bicas de zinco, depois das súplicas às mães: - deixa, deixa!
E jamais uma festa foi tão boa!

De lembrança em lembrança, chego às falas, às expressões...

-...cortar batatas e encher as gamelas dos bichos...
-...buscar um alguidar no jirau...
-...menina, pare com essa lacuchia...
-...trocar o paninho do atajé...
-...pedindo dinheiro? Pensa que sou Rotichile?

E a mais bonita:

-...dormir uma madorna...

Com o passar do tempo, as palavras vão dormir -não uma madorna, que queria dizer um sono breve, mas um sono de pedra. Então quem as busca faz um trabalho de arqueólogo até localizá-las e trazê-las de novo à luz, não mais como instrumento de fala, mas como objeto agora estranho, posto ao sol no jirau da curiosidade.
"Alguidar" certamente é de origem árabe. "Lacuchia" e "atajé", talvez espanhola. E "Rotichile" deve vir de "Rothschild", família judaica que se tornou a mais rica da Europa, no século XVIII. Como o nome chegou ao interior da Paraíba é que não sei... Notícias correm e até viram lenda.

Mas "madorna", ah... Não quero saber de onde vem.
Coisas belas não devem ser pesquisadas, só compreendidas como quem sente.
Ou tem esta origem: vem do sono mesmo. Ou do sonho que se tem no sono breve, na própria madorna.

Achei essa explicação no livro da chuva...

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Imagem: achamarteblogspotcom.blogspot.com/

18 comentários:

  1. Nivaldete:
    Texto lírico e irretocável pra se guardar em minha velha caixa de charutos. Ontem encontrei no blog enquantovivo de Luísa Nóbrega belas citações de versos seus.Parabéns.

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  2. Professora Nivaldete, que saudades que tenho do tempo de outrora. Linda foto e linda escrita.
    Elizete

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Olá, Elizete! Que bom encontrar seus sinais aqui... Um grande abraço!

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  5. Boa surpresa, Anônimo, nesta manhã de sábado (que eu havia tomado por domingo. Então deletei a resposta...).
    O que você disse pode virar um poema:

    Guardo esse lirismo
    Na minha velha caixa
    De charutos

    -----
    Viu?...

    Visitei o blog de Luíza Nóbrega, mas não localizei o que você mencionou...

    Deixo um abraço. Obrigada. Volte sempre e deixe seus sinais.

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  6. "E de que serve o livro e a ciência
    se a experiência da vida
    é que faz compreender a ciência e o livro?"
    Almada Negreiros

    Olá Nivaldete, fizeste-me lembrar de banhos num alguidar de zinco, em sábados de verão, quando eu estava de férias em casa dos meus avós... era no estábulo que era escuro... e, bem, fui de viagem à infância... até logo! :)
    (((abraços)))

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  7. Grande achado, Almariada!... Sentir-me confirmada por um tal poeta é maravilhoso!

    Sei do alguidar de que você fala... Em nossa casa, um serviu para banhar uns três de nós. Bons tempos em que o descartável andava longe!
    Um beijo para ti.

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  8. É o sono do trabalhador, não colonial. É o tempo de se arrumar neurônios, de se voltar a produz(ir). Belíssimo texto, Niva!

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  9. Seus banhos de chuva trouxeram-me nuvens carregadas de lembranças das minhas chuvasde infância: tinha banco de bica, cabelo lavado com xampu no meio da rua para aproveitar a água "limpa" e doce... Parecidas com as suas em muita coisa.

    Minha avó também falava "madorna"... ô saudades da madorna (e da minha avó também).

    suspiro.
    tradução = sempre muito bom atracar um bocadinho nesse seu porto.
    S.

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  10. Borges amigo, obrigada pela visita -enriquecedora, como sempre.

    Mme. S., que bom que você também ouviu "madorna"... e se banhou a ceu aberto, nas águas limpas e doces da chuva... Sim, eram doces e limpas. Da nuvem para a nossa cabeça... Grande batismo!!

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  11. A chuva é a principal lembrança que trago da infância.
    Belo texto, Nivaldete.
    Comoveu-me ao fazer lembrar das enxurradas
    e dos banhos de bica.
    Abração.

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  12. Paulo, acho que quem tomou banho de chuva, nas bicas, teve um segundo batismo...
    Abraço pra você também.

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  13. Eu devia ter dito "banho de bica" e disse "banco de bica"... acho que sentei mesmo aqui e relaxei tanto que deixei a palavra virar metáfora... desculpe-me.

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  14. Arrá...! Imaginei você sentada num banquinho, enquanto a chuva... chuá-chuá... na cabeça! Mas não combina nada com a menina Shirley... Então fica assim: o banquinho foi pra conversar sobre a chuva, e não "sob"... Um abração.

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  15. Nivaldete:
    Sou fã de seus escritos porque as palavras têm mais que sentido, elas têm gosto, perfume, som e textura; têm brilho daquilo que invade as ranhuras do de dentro carinhosamente, como as chuvas de Nova Palmeira.
    Beijos

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  16. Que riqueza e beleza de palavras, Maria Teresa! Aliás, choveu hoje, aqui. Chuva fina, delicada. Então: essa chuva, essas palavras deixam a gente comovida como o conhaque de Drummond...
    Grande abraço, amiga!

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  17. Que delícia de texto! Eu conheço mais a expressão "tirar uma madorna" e, realmente, cada vez se escuta menos - uma pena, é bem bonita.
    Adorei conhecer seu espaço.

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  18. Sim, também se diz(ia) "tirar uma madorna", Gerana (nome bonito, hein?). Fico contente por ter gostado do espaço. Passe sempre...
    Obrigada pela visita.

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